Preto & Branco

Recrudescimento de ataques em Cabo Delgado

As mortes que o silêncio não ofusca

 Os ataques em recrudescimento em Cabo Delgado preocupam cada vez mais a sociedade moçambicana, perante um aparente mutismo das autoridades governamentais em partilhar a realidade factual. Como fonte alternativa, o Centro para a Democracia e Desenvolvimento (CDD) veio a público revelar que no período de 30 de Setembro a 8 de Outubro corrente, cerca de 20 pessoas perderam a vida pelo fogo dos insurgentes, incluindo-se dois membros das Forças de Defesa e Segurança (FDS), números que se juntam às cerca de 1500 pessoas mortas desde o “rastilho” terrorista em Outubro de 2017.

 Juntando-se à outras incursões, segundo o CDD – uma organização não-governamental moçambicana engajada na promoção da democracia e desenvolvimento – de 30 de Setembro a 8 de Outubro corrente, “um grupo de terroristas ocupou o posto administrativo de Mucojo e a partir deste ponto fez várias incursões nas aldeias de Naunde, Darumba, Manica, Rueia, Goludo, Pangane, Nambo, Messano, Runho, Muituiro e na Ilha Mais”, arrola, indexando  que o saldo aponta “para pelo menos 20 pessoas assassinadas, dezenas de casas queimadas e vários produtos roubados”.

A nota do CDD, em partilha, aponta ainda que pelo menos dois membros das Forças de Defesa e Segurança (FDS) moçambicanas foram mortos em Pangane, um dos pontos de comércio daquela zona costeira, onde os insurgentes roubaram, também, barcos a motor, motores de embarcações e queimaram muitas casas. Um dos sobreviventes, arrolado, teria dito aos investigadores do CDD, que “os ‘al-Shabab’ usaram cinco barcos a motor para transportar os bens roubados e seguiram em direcção a Mocímboa da Praia”.

Esses ataques, segundo o CDD, provocaram uma nova vaga de deslocados que procuram segurança em distritos e províncias vizinhas, nomeadamente em Pemba, onde, o “número pode chegar a 80 mil”.

Ressalva-se que os ataques à província de Cabo Delgado tiveram início a 4 de Outubro de 2017 e até agora diversas estimativas apontam para cerca de 1.500 mortos e milhares de deslocados.

Por outro lado, é dado certo que as  FDS têm combatido os insurgentes, inclusive com ajuda de forças privadas estrangeiras pondo-os, em alguns casos em debandada e com grandes baixas, mas os ataques continuam e há denúncias de aumento da insegurança nesta província que é o  mais recente “santuário”  de oil&gas com investimentos internacionais.

Porém, o que também tem preocupado alguns sectores da sociedade moçambicana, incluindo partidos políticos, é o aparente silêncio do Governo relativamente à situação em Cabo Delgado, o que, para alguns analistas, traduz a gravidade da situação no teatro de operações. Mas na defensiva, o Governo nega que haja mutismo do seu lado.

No rol de contestação ao aparente silêncio governamental, destaca-se o CDD que  servindo-se de porta-voz social diz que os moçambicanos “gostariam de saber o que é que terá falhado para que o conflito evoluísse e se alastrasse a mais distritos de Cabo Delgado; como justificar. Sr. Presidente da República, a morte de pelo menos 1500 pessoas e o deslocamento de outras 350 mil”?.

Por parte dos partidos políticos, o MDM, na voz do chefe da bancada parlamentar, discursando na abertura da presente sessão da Assembleia da República, afirmou que a falta de informação sobre o conflito em Cabo Delgado “dá lugar a muitas especulações” relativamente ao que está a acontecer realmente naquela província.

A classe jornalística não fica alheia à situação, sendo que o jornalista do mediafax, Fernando Banze, considera que o aparente silêncio das autoridades traduz a gravidade da situação de segurança em Cabo Delgado, “que, realmente, está a deteriorar-se, de forma acentuada e progressiva a cada dia que passa”.

Citado pela DW África, exemplificando, avançou, na segunda-feira, que já passavam cerca de 45 dias, “e até hoje ninguém sabe se Mocímboa da Praia foi recuperada pelas forças de defesa e segurança ou se continua sob a ocupação dos insurgentes”.

Para Laurindo Macuácua, editor do jornal electrónico Diário de Notícias, o Governo, com este silêncio, está a tentar esconder as dificuldades que as suas forças estão a enfrentar no terreno.

“Advinha-se que esta guerra vai ser muito longa, a situação em Cabo Delgado é drástica e penso que perante um cenário deste, o Governo devia dizer o que está realmente a acontecer”, considera.

Algumas correntes de opinião entendem que a ofensiva contra os insurgentes não tem corrido bem, razão pela qual o Governo opta pelo silêncio.

O “pivot” da contra insurgência….

Entretanto, o Presidente da República, Filipe Nyusi, nega que haja silêncio da parte do Governo. “Estamos a dizer que as pessoas estão a matar, estão a queimar casas; estamos a dizer que eles não falam, não dizem quem são e o que querem, e há quem entenda que o país tem que dizer”, disse o estadista moçambicano.

 

As FDS sem muitos discursos triunfalistas nos últimos tempos, parece ter-lhes surgido um porta-voz “voluntário”, o analista político Egídio Vaz, que depois de ter estado como “consultor” da oposição, mormente da Renamo e afeiçoado com o seu falecido líder Afonso Dhlakama, agora entrincheirou-se nas bandas do regime do dia, liderado pela Frelimo.

Estranhamento, como agente operativo do que analista, postou nas redes sociais que relatório muito triunfalista, exatamente nas zonas que preocupa toda a sociedade.

Com título “contra insurgência” anota que “ lavaram muita txaia -270 abatidos nas matas de Auasse – três dias de caça ao homem. Sem nenhuma baixa do lado das FDS. Grande vitória!”

Este “pivot” da contra insurgência, talvez em substituição dos ministros da Defesa e do Interior, avança que odes dizer que Mocimboa da praia está limpo agora, com algumas ressalvas em Macomia. Os que entraram na Tanzânia, melhor ficarem por lá mesmo e mudar de vida. Porque a fronteira está selada deste lado e armada. Sete camiões para recolher a logística militar diversa, recuperada dos meliantes. “Big win”, considera Vaz.

Agora, o que resta saber é como teria tal informação, detalhada sendo verdade, do que sabe o analista Vaz não é funcionário de nenhum órgão do Estado a não ser que tenha sido recrutado recentemente como um agente “mono’.

 

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