Preto & Branco

Anselmo Chissaque:

O cirurgião de pianos que privou com rainha belga

Natural de Maputo, Anselmo Chissaque, iniciado na Escola Nacional de Música, na execução de piano, um dos instrumentos de destaque na música clássica e de selectos artistas, descobriu que a magia da sua paixão pelo som não era necessariamente tocar, mas sim refinar o som dos pianos e repará-los, sobretudo quando ganhou bolsa para formação na Europa, a entrar pela Bélgica, onde conheceu face to face a rainha belga. Volvidos 15 anos, Chissaque é referência nacional e internacional quando o assunto é tratar da saúde de pianos no país. Aliás, criou a primeira loja, senão a única, que além de vender instrumentos musicais é oficina de reparação, com destaque para pianos. Por outro lado, está na liderança, com outros poucos selectos da área, na constituição da Associação Moçambicana de Reparadores de Instrumentos Musicais e Técnicos de Som), cuja linha da frente é composta por jovens técnicos formados pela Music Fund, a organização que patrocinou a sua formação internacional. Acompanhe abaixo os excertos da entrevista concedida ao jornal Preto & Branco.

 Preto & Branco (P&B) – Pode-se apresentar oficial e artisticamente?

Anselmo Chissaque (AC): Chamo-me Anselmo Simião Chissaque, tenho 43 anos de idade, sou natural de Maputo, não sou casado oficialmente, tenho um filho. Sou afinador e reparador de pianos e não tenho nome artístico, porque sou de opinião que, o que torna alguém artista é um conjunto harmonioso de qualidades de individuo, O que interessa é uma pessoa demostrar trabalho de qualidade, ser honesto, justo, ter respeito com coisa alheia e com pessoas no geral, mas acima de tudo ser dedicado e amar o trabalho que faz. Anselmo ou Chissaque são os nomes mais sonantes em Moçambique na área de afinação e reparação de pianos, dependendo de como cada pessoa deseja me chamar.

P&B – Quando começou o ofício de afinador de pianos?

AC: Desde no dia em que fui selecionado em 2006, num workshop que durou uma semana, de 15 a 21 de Abril desse ano. Eu frequentava o curso de música na Escola Nacional de Música, mas já vinha aprendendo a tocar piano como meu instrumento de preferência ou de paixão.

Então, nesse mesmo ano uma Organização que se chama MUSIC  FUND,  que tinha parceria com a Escola Nacional de Música, desde 2005, começou a realizar suas actividades   de workshops para formar  técnicos para a reparação, manutenção e afinação de instrumentos musicais, numa primeira fase piano e instrumentos de sopros.

Dessa forma, após a seleção concederam-me uma bolsa de 3 meses em Setembro do mesmo ano para dar continuidade desta formação de afinação e reparação de pianos na Bélgica e por terem gostado da minha habilidade deram-me mais outra bolsa de 3 meses, em 2008, e no mesmo ano  recebi a informação de uma bolsa para ir estudar em França, no período lectivo na Europa de 2008 a 2009 no Institut Tecnologique de Metier de la Musique (ITEMM), na cidade de le Mans onde fiz um ano intensivo a tempo inteiro (todo o dia na academia).

P&B –  O que significa ser afinador de pianos em Moçambique?

AC: Significa um grande desafio. Primeiro porque o piano ainda é um instrumento de uso não comum cá entre nós, e tenho observado que mesmo para alguns concertos sérios ainda é frequente o uso de keyboady ou, por outra, teclados, como é bem designado na praça.

 

Segundo, a área de afinação e reparação de instrumentos musicais em Moçambique apesar de estarmos a contar alguns anos de trabalho ainda é uma profissão estranha para uma parte da sociedade, mas o facto de termos hoje em dia a Escola Nacional de Música, a Escola de Comunicação e Artes e alguns músicos com uma larga experiência no sector, tem se envidado esforços de abrir escolas privadas de música, isso tem até certo ponto ajudado bastante a alavancar o meu trabalho, porque de certa forma, esses seguimentos todos tem alargado e evolui parte considerável de instrumentistas.

Terceiro, Moçambique ainda é um mercado em construção quase em muitos sectores, em particular no da cultura, com isso quero dizer que o mercado ainda não oferece trabalho regular especificamente na minha área de afinação e reparação de pianos, ainda é normal ficar-se um mês ou dois meses sem trabalho e isso está ligado ao fraco poder de oferta e de consumo, por isso que em muitos casos o que se cobra com o trabalho que faço ainda não corresponde ao preço real do trabalho, mais sim para equilibrar as condições objectivas locais. E não fazer comparações com outros países que já estão avançados no sector. Como por exemplo a África do Sul que o mercado já é mais evoluído e que pode-se muito bem comparer-se com o mercado europeu.

P&B –  É possível viver desta arte em Mocambique?

AC: Sim, é possível mas, com grande esforço e acho que a resposta anterior já justifica esta questão.

P&B – No âmbito de confinamento associado ao estado de calamidade pública  imposto pela pandemia da Covid-19  vários sectores enfrentam uma verdadeira crise. Para o seu caso, que desafios se coloca?

AC: Bem, está mais que claro, todos os sectores estão afectados, em partícular a cultura e turismo que é a área onde actuo, por tanto não seria excepção do meu lado não padecer desta crise, existem enormes dificuldades, como é de domínio de todos que os eventos culturais estão vedados, incluindo outros sectores que, de uma forma indirecta sustentam a nossa área, tais como festas e casamentos, apesar de haver uma pequena abertura neste domínio, mas ainda não dá para sustentar o sector.

P&B – Em que tipo de acções tem participado ou realizado no sentido de participar no combate a esta pandemia da Covid-19?

AC: Ora, essa é uma questão pertinente e importante do momento, ligado à nossa sobrevivência e a mensagem é mais que clara para todos nós, a diferença está na forma como cada um de nós encara e assume a responsabilidade de ser um membro na prevenção contra esta pandemia. Agora, para responder especificamente a questão, eu pessoalmente não me canso de apelar sempre que necessário a quem ainda não acredita que esta doença existe e mata de verdade porque, falando a verdade. ainda existem pessoas que não acatam as medidas de prevenção ou de Estado de Emergência. Para tal, outra forma que eu encontrei de sensibilizar as pessoas, por exemplo, na Casa de Pianos de Moçambique todas as pessoas que lá entram devem desinfectar as mãos, o uso da máscara é obrigatório e, acima disso, colocamos lá  máscaras a venda ao público por um preço simbólico, que não visa arrecadar lucros, mas sim para deixar à disposição o mais perto que possível das pessoas, só para ver, que a venda de máscaras não tem nada a ver com o que lá se vende ou se faz, mas sim uma forma de sensibilizar, passar a mensagem e fazer ver as pessoas que o assunto da Covid-19 é bastante sério.

P&B – Qual é o momento considerado marco nesta sua carreira que já tem uma década?

AC: São vários momentos: primeiro em 2006, quando fui a Bélgica, merecemos a visita da rainha Paola da Bélgica agora está reformada, foi uma visita privada e secreta, não podíamos dizer a ninguém, que era para não despertar a Mídia. E porquê isso me emocionou? Diziam todos que mesmo para os belgas não era fácil ver a rainha, muito mais de perto, trocar algumas expressões com ela. Fui sortudo diziam.

O outro momento foi quando recebi um e-mail de Lukas Pairon e no mesmo dizia o seguinte:

Dear Anselmo , we miss you in Belgium

I am now together with Pol In Kinshasa where we are working in the music school (INA) to repair the pianos

I have very special news for you. I have found a school in France for you (ITTEM) in Le Mans, south of Paris, which is willing to accept you to follow a course of one year in piano repair and tuning from September 2008 on.

You need to get in touch with Mr Champaul at Centre Franco Mozambique and ask him to put you in touch with the French Embassy in Maputo to find out whether they can pay and organize a French language course for you in Maputo

I will also contact them to explain the project to them please keep me informed about this.

Best regards

Lukas

Acredite que saltei de alegria ao ler este e-mail.

O outro memento foi quando tive credibilidade de merecer a confiança para prestar serviços de afinação no maior festival de música clássica em Moçambique, na altura a directora artística era Moira Forjaz porque demostrou o meu antes e depois em termos de eu ter a certeza de que já sei afinar pianos, não era pelo facto de ser único, mas sim de ter a certeza e privilegio de prestar serviços num festival de alto nível, de background com músicos da primeira linha e de vários cantos do mundo.

P&B –  Qual é o grande sonho de Chissaque?

AC: O meu grande sonho é de um dia ver este mercado de afinação e reparação de pianos consolidado, se expandir por demais províncias com trabalho regular. É verdade que já fui até Nampula, Beira e Inhambane. Gostaria também de um dia poder montar um grande atelier, bem equipado com padrões internacionais para poder fazer qualquer tipo de operações de reparação de pianos, mas para tal exige um grande investimento. Mas não é de lamentar tanto, porque até aqui este trabalho resultou na fundação da CASA DE PIANOS DE MOÇAMBIQUE, uma loja de venda de instrumentos musicais e oficina de reparação, por sinal, acredito, é a primeira do género aqui em Mocambique, que congrega as duas componentes de venda e reparação de instrumentos musicais, mas ainda é projecto em desenvolvimento. Assim como resultou a criação da AMORIMTS que é a Associação Moçambicana de Reparadores de Instrumentos Musicais e Técnicos de Som), a mesma criada pelos jovens técnicos formados pela Music Fund, e acredito também que é a primeira do género nesta área em Moçambique, mas ainda em criação, porque até aqui só temos a reserva do nome e estamos no processo de elaboração dos estatutos da mesma e outros   passos a seguir.

P&B – Tem contado com apoio familiar nos desafios da sua carreira?

AC: Tenho sim, e digo que sem a minha família não teria sido possível a minha formação nesta área. Primeiro em Abril de 2006, quando Pol de Winter escolheu-me e disse para eu ir informar a minha família que a Music Fund queria me levar para a Europa, a primeira pessoa que eu informei foi a minha mãe e ela, sem hesitar, disse está bem meu filho vá se é para o seu bem, deu-me muita força e disse-me para ir dizer ao meu pai, que também por sua vez deu-me muita força.  A  informação foi de grande emoção por parte deles, também porque era a primeira vez na história da família que isso acontecia. Assim como quando recebo meus amigos europeus têm sido bem acolhidos no seio da minha família.

Não só, repare que nas últimas viagens que eu fiz já não vivia com meus pais, quer dizer, quando eu viajasse a minha família ficava a zelar e cuidar da minha casa.

P&B –  Conta com alguma premiação pelo profissionalismo na sua área?

AC: Não. Mas acredito que um dia vou, porém é de salientar que já tenho reconhecimento e certificação das entidades legais de Moçambique concedida pela Autoridade Nacional de Educação Profissional (ANEP), do nível 5, em reparação e afinação de pianos, e acho que a ANEP fez correcto e justo, por que antes eu não tinha esse reconhecimento. Quer dizer, o meu certificado tinha validade fora do meu país, aqui não tinha, isso me entristecia bastante, vendo algumas pessoas a serem chamadas de técnicos e receberem por essa categoria mas que  na verdade essas mesmas pessoas de técnico não tem nada, não há trabalho palpável ou concreto que fazem.

P&B – Como tem preenchido os tempos livres?

AC: Sempre que posso, com meus amigos vizinhos, nos fins-de-semana temos corrido na zona por 30 a 40 minutos, a uma distância de mais ou menos 3 kilómetros, mas nem sempre que isso acontece porque as vezes tenho tido trabalho nos fins-de-semana, assim como feriados, seguindo o que o meu professor Pol De Winter sempre dizia: Never say no. For the work. Quer dizer, assumir compromisso com a sociedade consumidora desses serviços e sempre que for solicitado ainda que seja fim-de-semana ou feriado, nunca colocar obstáculos e dizer não ao cliente, com desculpas de ser Sábado, Domingo ou feriado. Por que, segundo meu professor isso estimula confiança dos clientes e passam a olhar para mim, e isso é verdade porque consigo ver resultados

Não só, repare que, muitas pessoas gostam que alguém preste serviços na sua residência na presença deles, e, acho que é por uma questão de curiosidade e segurança e isso é bom, da minha parte também porque me deixa tranquilo e sempre que a uma coisa por esclarecer o cliente está por perto, isso já é bom.

P&B – Uma mensagem para seus admiradores

AC: Bem, tenho a agradecer, primeiro pela oportunidade que o jornal Preto & Branco me concedeu para partilhar a minha experiência na área de reparação e afinação de pianos, mas em particular para o jornalista Alexandre Mabasso e para a sua equipa de produção, o meu muito obrigado pela paciência que tiveram de tanto esperar.

Em Segundo, agradecer a toda a equipa da Music Fund por nos ter dado oportunidade de formação nesta área de reparação de instrumentos musicais antes inexistente aqui em Moçambique.  Trata-se de um projecto que no total tem sete técnicos já formados por esta organização mas cada um na sua área, sendo na área de piano, instrumentos de sopro, guitarras, violinos e técnicos de som, mas o meu especial agradecimento vai para o meu professor que me selecionou em 2006 Pol De Winter, dono da empresa Pianomobile na Belgica, Lukas Pairon fundador da Music Fund, Hurelle minha professora de afinação na Pianomobile, ao Jens, também da Pianomobile que me ensinou técnicas de transporte de manuseamento e transporte de pianos.

Agradeço toda a equipa de Milano Musica, mas em especial para a Cecília Balestra, directora da Milano Musica e representante da Music Fund na Itália, a mesma organizadora do grande festival da música contemporânea em Milano na Itália.

Os meus agradecimentos se estendem para a embaixada da França e para o consulado da Bélgica por terem financiado as minhas bolsas, ao Centro Cultural Franco Moçambicano. Aos meus colegas da Escola Nacional de Música pela força que sempre me dão. Assim como agradeço ao público em geral porque para além do apoio familiar que eu tenho sinto também o maior carinho e apoio por parte da sociedade moçambicana.

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