Preto & Branco

Cogitando Sobre a Época Chuvosa que se Avizinha

Avizinha-se a época chuvosa e, de novo, voltaremos ao nosso cíclico lamento de dor, luto e destruição causado pelas cheias nas principais bacias hidrográficas do país. A agravar a situação poderá ser a actual crise económica e social multidimensional causada pela pandemia da Covid-19 e pelo esforço de guerra em Cabo Delgado e nas províncias de Manica e Sofala. Constitui uma insofismável verdade que quando o período chuvoso vislumbra-se, o governo entra em pânico por conta dos recursos financeiros, materiais e humanos que tem que mobilizar para fazer face ao resgate e reassentamento das populações afectadas. Esta semana irei debruçar-me, embora de foram breve, sobre o vale do Zambeze.

Historicamente, o vale do Zambeze tem sido afectado por cheias cíclicas. Muito embora estas provoquem danos materiais e humanos, também contribuem para a fertilidade dos solos com um impacto positivo na agricultura, e também uma abundância de recursos naturais como o pescado, principalmente na zona ecotónica, recursos florestais e faunísticos para os habitantes locais.

O surgimento de esquemas de agricultura comercial no delta do Zambeze nos princípios do século XIX, iniciou um longo processo secular de difícil ligação entre o rio Zambeze e o seu delta. Em 1893, foram construídas as primeiras represas no delta. Diques baixos foram erguidos para proteger os campos de cana-de-açúcar de Mopeia, cortando os canais de distribuição no alto delta que drenavam as águas das cheias do Zambeze para o banco norte do vale. Nos trinta anos seguintes, foram construídas represas similares em Marromeu e Luabo. Depois do avanço das cheias de 1926 que devastaram as plantações de cana-de-açúcar, foram construídos diques de protecção até à altura máxima do nível das águas das cheias. Durante o resto do século, este nível foi ultrapassado apenas cinco vezes – em 1939, 1940, 1952, 1958 e 1978. Na década 30 do século XX, foi construída uma linha férrea entre Marromeu e Sena (80km a norte do curso principal do Zambeze), para a fazer a ligação com a linha existente entre Sena e o porto da Beira.

A linha férrea (e o sistema paralelo de estrada), foi desenhada sem as devidas pesquisas hidrológicas e dos solos, obstruíndo a passagem da água para as zonas de distribuição à montante entre Chupanga e Marromeu. O movimento das águas nesta região foi ainda retringido pela construção da linha férrea directa entre Marromeu e Inhaminga durante os anos 70 (localizada a meio caminho ao longo da linha férrea Sena-Beira na escarpa de Cheringoma, à sueste do delta). O impacto cumulativo destas estradas e trabalhos de construção de diques provocou uma redução dramática no movimento das águas das cheias entre o rio Zambeze e o delta do mesmo.

Com a conclusão da construção da barragem de Cahora Bassa em 1974, o ciclo natural de cheias no baixo Zambeze tornou-se um fenómeno do passado. As inundações do delta quando ocorrem, são agora dependentes do regime de precipitações regionais dentro da bacia do baixo Zambeze e irregularmente das descargas de água para protecção da barragem durante os anos de cheias à montante.

O impacto cumulativo destes desenvolvimentos constitui uma mudança significativa na magnitude, tempo, duração, amplitude e frequência dos eventos de cheias no delta do Zambeze.

Recentemente na primeira década do século XXI, ocorreram novos fenómenos de cheias com grande amplitude. Por exemplo, as cheias do ano 2000 afectaram mais de um milhão de pessoas, destruíram centenas de casas e mais de 400,000 pessoas tiveram que se deslocar para centros de acomodação temporários. Durante este período ocorreram novas cheias em 2001, 2007 e 2008.a resposta nacional e internacional a estes eventos foi essencialmente reactiva, o que implicou o desencadeamento de operações dispendiosas de emergência.

;Uma pergunta pertinente é: no contexto actual em que, por um lado, os parcos recursos financeiros estão direccionados para a emergência de saúde pública (Covid-19) e à guerra (Cabo Delgado, Manica e Sofala) e, por outro, os parceiros de cooperação começam a demonstrar  alguma fadiga por injectar permanentemente fundos para um problema em que não vislumbra-se uma solução duradoira, como irá o governo Nyussista fazer face à situação, na eventualidade de tornar-se real?

 

 

 

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