Preto & Branco

Combate ao terrorismo em Cabo Delgado

Países vizinhos podem inviabilizar intervenção da SADC

  • No epicentro está a reivindicação de interesses económicos pela Tanzânia e Malawi

 Os vizinhos estratégicos de Moçambique no norte do país, nomeadamente Tanzânia e Malawi, que vêm os seus interesses económicos sonegados na partilha de águas comuns, dos rios Rovuma e Chire, respetivamente, podem inviabilizar a pretensa intervenção militar e integrada da Comunidade dos Países da África Austral(SADC) para debelar o recrudescimento dos ataques terroristas em voga em Cabo Delgado.

Depois de vários rodeios e debates internacionais, Cyril Ramaphosa, presidente da maior economia da região austral, a África do Sul, em finais de Agosto, assumiu que a SADC está engajada na equação de intervenção militar em Cabo Delgado, para apoiar as autoridades moçambicanas a fazerem face às prolongadas incursões armadas de insurgentes na província nortenha de Cabo Delgado, repositório de uma das maiores reservas mundiais de gás natural.

Todavia, do anúncio intencional à acção parece existirem muitos percalços, tanto por parte do Governo moçambicano, amiúde, ancorado em questões de soberania para não pedir de forma clara apoio estrangeiro. Por outro lado, há paises na região da SADC, sobretudo vizinhos froteiriços e estratégico que estão de costas voltadas com o Governo moçambicano, alegadamente por não aceitar a partilha de oportunidades económicas servindo-se de bens comuns, no caso vertente, rios.

O Malawi, já há anos que solicitou a navegação do rio Chire para dinamizar as suas agendas comerciais, mas as autoridades moçambicanas não se mostram complacentes a tal investida, ao ponto de ter, inclusive, arremessado argumentos contra, tidos como não plausíveis pelas autoridades malawianas, que olham o seu propósito com muita viabilidade para ambas partes.

Por outro lado, no extremo norte está a Tanzânia, um país que além de ser vizinho é tido como irmão de sangue, pois, foi nele onde se germinou e organizou-se a ofensiva política e militar para a independência de Moçambique. Tanzânia tem tentado, sem sucesso, negociar com as autoridades moçambicanas a exploração conjunta das riquezas do Rovuma, sobretudo gás, por parte estarem em território daquele país.

A situação de insatisfação destes dois países, pode criar fissuras na pretensa actuação regional, onde todos do bloco SADC devem estar em sintonia para que se logre resultados sustentáveis contra a insurgência em Cabo Delgado que já conta com o apadrinhamento do famigerado Estado Islâmico.

Muitos analistas nacionais e internacionais já fizeram notar esta indecisão ou falta de coesão a nível da SADC para uma intervenção militar e coordenada de todos os países integrantes, com realce para os que fazem fronteira com Moçambique.

Mais recente é a interpretação do analista alemão, residente na África do Sul e profundo conhecedor da história de Moçambique, particularmente a contemporânea, Andre Thomashausen, que também fundamenta a frágil relação de irmandade entre Moçambique, Tanzânia e Malawi.

 

Andre Thomashausen, citado pela Voz da América, nesta semana,  lembra que entre os “países irmãos há muita divisão. “O Malawi não tem boas relações com Moçambique porque Moçambique recusa-lhe o direito de navegação no rio Chire. E o vizinho do norte, a Tanzânia, tem um contencioso muito sério com Moçambique porque metade da jazida de gás encontra-se em águas territoriais da Tanzânia e há muitos anos Moçambique recusa-se a discutir uma zona de exploração conjunta ou medidas que possam correponder a essa realidade. Então, esses dois países iriam se opor a uma intervenção da SADC”, considera o analista.

Na sua análise quanto à fragilidade da aliança SADC, Thomashausen considera que outros países integrantes deste bloco regional debatem-se com problemas internos de fragilidades políticas ou económicas.   “Provavelmente a Zâmbia também, e outros países da SADC, tem as suas dificuldades”. Daí que supõe-se que a difícil “irmandade” na SADC pode ter os seus impactos negativos para um apoio regional para Cabo Delgado.

Por outro lado, Thomashausen considera que  Moçambique debate-se com o dilema da soberania, facto que pode estar a contribuir para não pedir apoios de forma directa e clara, de modo que tem preferido até agora optar por mercenários, assunto também considerado tabú, não se sabendo claramente que motivos levam as autoridades moçambicanas  a apostar nesta opçao em detrimento de apoio de Estados ou blocos regionais, como a SADC.

 

África do Sul vai só…

Mesmo com a manifestação de interesse na intervenção da SADC, numa altura em que a troika-mãe é liderada por Moçambique, na pessoa do Presidente Filipe Nyusi, nada de concreto se vislumbra, sendo que a África do Sul é dos poucos a mostrar solidariedade para com Moçambique e, inclusive, ofereceu as suas forças para combater os insurgentes., esperando o “OK” de Maputo.

Contudo, mesmo a nível interno, na África do Sul, o assunto  é um tema que não reúne consenso, com os políticos a se oporem a uma intervenção militar, enquanto que a ala militar sul-africana faz justamente o contrário.

Explicando este cenário, o analista Thomashausen diz que “os militares estão a favor porque uma intervenção em Moçambique justificaria um pedido de aumento para o orçamento, um pedido urgente para modernização de equipamento”, equaciona, revelando que “neste momento a África do Sul só tem um avião de transporte em funcionamento, um C-130. E para além dos três helicopteros que tem no Congo só tem mais seis que poderiam ser utilizados na missão em Cabo Delgado”.

Elaborando mais explica que não basta apenas querer apoio, é preciso ter condições para receber determinado tipo de apoio militar, o que não é o caso de Moçambique.”Só que para haver operações desse tipo seria preciso uma base logística, porque em Cabo Delgado até a gasolina para a aviação falta e não há apoio técnico para manutenção”, exemplificou o analista.

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