Preto & Branco

Amnistia Internacional

A semana passada ficou marcada por dois episódios inter-relacionados. Primeiro, a Amnistia Internacional (AI) veio a público mostrar a sua preocupação e condenar a actuação das Forças de Defesa e Segurança (FDS) que estão a operar contra o avanço da insurgência em Cabo Delgado. Tal condenação baseou-se em imagens postas a circular nas redes sociais em que surgiam alegados membros das FDS torturando supostos insurgentes. Embora reconhecendo o contexto adverso em que desenrola-se a situação operacional em Cabo Delgado, na ocasião a AI criticava o atropelo pelos direitos humanos naquela região.

A AI chegou à conclusão de que os elementos que torturavam os ‘prisioneiros’ eram das FDS a partir da análise de perícia do seu laboratório que demonstrou, para além de qualquer dúvida, que os uniformes, as armas e uma das línguas do sul de Moçambique (Ci-shangana) com que os ‘militares’ nalgum momento usavam para comunicar-se indicavam tratar-se de membros do exército moçambicano.

Tal conclusão é no mínimo problemática! Por variadíssimas vezes reportou-se que os insurgentes nas suas incursões vergam uniformes, armas e até viaturas das FDS resultante das emboscadas e assaltos ao arsenal localizado nos quartéis como foi no caso da vila autárquica da Mocímboa da Praia, Quissanga, Macomia, etc. Concluir que tratam de membros das FDS pelo facto de comunicarem-se em Ci-changana é falacioso: até hoje, não se sabem com a devida clareza a base de apoio e recrutamento da insurgência. Com isto quero ressalvar que não pode-se descurar que não haja, no seio da insurgência, integrantes oriundos de outras regiões do nosso país, incluindo a região sul. Circunscrever a base de apoio ao norte é um grave erro que pode criar outras fissuras na nossa sociedade. Isto faz lembrar quando a Renamo iniciou as suas acções em 1977, cometeu-se o erro de pensar que era assunto de ndaus, o que veio a revelar-se uma total aberração. Tal como em 1977, parece-me que há uma tendência nalguns quadrantes da nossa sociedade que faz alusão, embora que timidamente, ao factor étnico quando refere-se à base de apoio.

Voltando à ‘vaca fria’, o Ministério da Defesa Nacional (MDN) reagiu e deu a sua versão dos factos que, a meu ver, é mais consistente com os desenvolvimentos operativos no terreno. Porém, não pretendo discutir o mérito ou não de tal comunicação. O que intriga-me é o ‘dito por não dito’ da AI em reacção ao comunicado do MDN: já não tem muita certeza; tem que aprofundar as investigações, etc….grave!

Longe de ser defensor de atrocidades, independentemente dos perpetradores, numa guerra não convencional e complexa como a que vive-se em Cabo Delgado é susceptível de criar alaridos desta natureza, pois o inimigo não é facilmente identificável; é diluto e cobarde.

Porém, não deixa de causar alguma estranheza o facto de criar-se um enorme alarido em torno deste assunto e já explico porquê: quando de forma repetida os tais insurgentes publicam imagens de jovens militares decapitados, não vemos tanta preocupação ou revolta perante tais actos. Pelo contrário, tais imagens tornam-se virais nas redes sociais. Chega-se até ao ponto de fazer-se chacota de alegadas fragilidades operacionais e de treinamento das nossas forças. Aí não há AI nenhuma a condenar tais actos; não há sociedade civil alguma a condenar com veemência tais acções.

Em parte, movidos por ‘dinheiros’ que andam por aí e que servem ‘determinadas agendas’, começam a florescer em Moçambique ‘analistas de guerra’. Gente que em 24 horas tornou-se expert (espertos como se diz nas terras de Vera Cruz) em assuntos de terrorismo e de estratégia operacional: é gente perigosa, mercenários de opinião. Moçambique não merece isto!

 

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