Preto & Branco

Penso que os desafios são iguais em todos os sectores, afirma Elias Manjate

Desta vez conversamos com Elias Zacarias Manjate, artista plástico e pintor tendo afirmado que as suas obras assemelham-se aos filhos e netos, todas elas tocam-no, cada uma à sua maneira. Algumas pela textura, outras pelo tema, outras ainda pelo “parto” difícil, enfim…

 JP&B. Quem é Elias Manjate?

EZM. Sempre que me perguntam quem eu sou, me lembro de uma canção com uma letra muito bonita, lá dos anos 70, de um cantor brasileiro – Nilton César – que diz o seguinte:

´Eu sou eu foi meu pai que me fez assim

Quem quiser que me faça outro

Se achar que eu sou ruim

Me entrego cego à verdade

Me desconheço no tempo

No espelho sou vaidade

Sou parte do tempo e do vento

…”

Mas sei que ninguém me fará outro (Risos), por isso eu sou Elias Zacarias Manjate, ou simplesmente Elias Manjate no mundo artístico, onde por algum tempo também já fui Emael. Acho que esta coisa do nome é algo muito profundo, pois revela a parte mais íntima e sagrada de nós mesmos. Por isso deve identificar-nos muito bem como se de uma radiografia se tratasse. Por isso de Elias Manjate passei para Emael, não me sentí muito bem e tive que voltar.

Sou escorpião, natural de Maputo, nascido em 1960, sendo o quarto de entre 10 irmãos. Tenho 3 filhos e, por enquanto, 4 netos.

JP&B. Quando é que abraçou as artes plásticas e pintura?

EZM. De forma intencional foi em 1978, portanto com os meus 18 anos de idade, quando conhecí o Titos Mucavel, meu mestre e mentor, então colega de turma na Escola Industrial “1º de Maio” em Maputo. Porém, antes de o conhecer, eu já fazia desenhos a lápis de carvão e a caneta, ampliava fotografias e desenhava muito nas capas dos cadernos escolares que eu as punha de avesso, aliás foi através disso que o Titos Mucavel me descobriu.

Mas, na verdade eu crescí numa casa que tinha as portas pintadas a castanho, mas com elementos decorativos por cima (corações, trapézios, triângulos, círculos, enfim…) de cor azul, vermelho, amarelo, laranja. A partir de um determinado momento eu percebo que aquilo foi o vírus que o cota Zacarias, meu pai,  me contaminou ao ponto de eu  me identificar com as cores e sobretudo com a arte de pintar.

JP&B. Que mensagens podemos encontrar nas suas obras?

EZM. Nas minhas obras podem-se encontrar mensagens da vida, do quotidiano, que refletem as minhas dúvidas, ansiedades e angústias, mas também as minhas satisfações e fantasias. Na verdade um artista, qualquer que seja a sua expressão artística, é aquele que vê, escuta e sente um pouco para além do que os outros (os não artistas) podem (e se calhar devem) ver, escutar e sentir. Então é este diferencial que trago nas minhas obras, onde a mulher ocupa um lugar de grande destaque por tudo o que ela representa, a partir da pura maternidade, até aos factores económicos, sociais, culturais, etc., que fazem dela o centro de toda a humanidade.

JP&B. O que é ser artista plástico e pintor em Moçambique?

EZM. É ser um vidente (com ou sem razão, não sei) e sobretudo corajoso, por seguir obcessivamente o seu destino, às vezes em mares muito tenebrosos. Veja, por exemplo, que todos os materiais que uso para a produção do meu trabalho são importados e isso tem trazido alguns constrangimentos.

JP&B. É possível viver de arte em Moçambique?

EZM. É uma pergunta difícil para mim, porque nunca viví apenas da arte. Mas acho que, com mais ou menos dificuldades é possível. Aliás não tenho conhecimento de nenhum artista que tenha estado, literalmente na rua, a pedir esmola… É certo que existem enormes desafios no meio artístico em geral, que podem ser vistos em duas vertentes. A primeira relaciona-se com a pouca educação sobre as artes em Moçambique e a consequente falta de sensibilidade para com uma obra de arte e isto faz com que sejam escassos os apreciadores e coleccionadores de arte no país. Fico muito triste, por exemplo, quando entro numa instituição ou empresa, até de renome, e nas paredes não tens mais nada senão a imagem do Presidente da República, um calendário e um diplomazito de honra e nada mais. É desolador! A segunda vertente refere-se aos poucos moçambicanos que gostam e percebem de arte, se eles tiverem dificuldades de viver daquilo que lhes sustenta e, portanto, não têm sobras, depois da satisfação das suas necessidades básicas, então não podem comprar obras de arte e, deste modo, viver de arte pode se tornar muito complicado.

JP&B. No âmbito do confinamento associado ao Estado de emergência vários sectores enfrentam uma verdadeira crise. Para caso vertente, Arte/Cultura que desafios coloca?

EZM. Eu penso que os desafios são iguais aos de todos os sectores, porque em cada um deles devem ser inventadas novas rotinas. É verdade que cada sector é específico e a forma de contornar os obstáculos é próprio de cada área, sem descurar que as artes são sempre mais sensíveis ainda, sobretudo porque exigem público. O que penso é que devemos fazer valer o facto de nós os artistas trabalharmos na base da criatividade e nela buscarmos capacidades de nos reinventarmos e fazer frente a esta crise. É preciso irmos à luta, de nada nos valerá lamentar.

JP&B. Que tipo de realizações tem promovido para apoiar psicologicamente e/ou socialmente seus admiradores no âmbito da COVID-19?

EZM. Eu acho que a pergunta deveria ser como os meus admiradores me apoiam neste período… (Risos). Na verdade eu neste momento me confraternizo com alguns deles, através das redes sociais, e aproveito este tempo para me dedicar mais na produção de modo que no final da pandemia eles possam perceber que nunca lhes esqueci.

JP&B. É membro da Associação moçambicana de Artistas?

EZM. Sou membro do Núcleo de Arte, de forma intermitente, devido às inúmeras vezes que fui viver para fora de Maputo.

JP&B. Qual é a obra considerado marco na sua carreira?

EZM. As obras, para mim são como filhos e netos, todas elas nos tocam, cada uma à sua maneira. Umas pela textura, outras pelo tema, outras ainda pelo “parto” difícil, enfim… Mas neste momento tenho uma obra que considero um marco, porque marca o meu renascer, depois de um longo tempo de pausa na produção artística.

JP&B. O que se pode fazer para assistir o Artista?

EZM. Primeiro seria ao nível da legislação. Devem-se criar leis que definam o que é um artista e categorizar os artistas. A partir daí seria fácil definir um conjunto de incentivos aos fazedores da arte. Quando falo de incentivos não falo de distribuir dinheiro ou materiais aos artistas, mas sim a criação de condições que obriguem, no bom sentido da palavra, as instituições e empresas a terem obras de arte. Esta seria também uma forma de conservar o que de bom se faz no país.

JP&B. Qual é o grande sonho do Elias Manjate?

EZM. O meu grande sonho é ver valorizado o acervo cultural deste país, começando pela valorização dos próprios artistas, através da educação dos cidadãos, principalmente os mais novos. É preciso estudar os artistas moçambicanos e documentá-los para a posteridade.

JP&B. Quantas obras já produziu?

EZM. Hum… (Risos) Acho que este é um défice que eu pessoalmente tenho, de não contabilizar aquilo que produzo em termos artísticos. Mas acho isso óptimo, talvez porque não costumo ter metas físicas nas artes plásticas mas sim metas morais.

JP&B. Tem beneficiado de apoio familiar no âmbito da carreira?

EZM. Tenho tido muito apoio. Acho que se não tivesse apoio, seria um grande sufoco, se calhar nem estaria a entrevistar-me. (Risos)

JP&B. Alguns prémios conquistados?

EZM. Dos meus admiradores sim, quando dizem uma palavra sincera de apreço, criticam a minha obra ou compram, são apenas estes os prémios conquistados.

JP&B. Que artistas o inspiram?

EZM. Os nacionais são: Malangatana, Ídasse, Naguib, Chichorro e, naturalmente, Titos Mucavel. Indo para fora do país aprecio muito Pablo Picasso e Paul Cézanne.

JP&B. Como tens preenchido os tempos livres?

EZM. Passo os tempos livres exercendo a função de funcionário de Estado (Risos), mas também leio,  assisto filmes, bebo um vinho, brinco com o meu neto-xará (o único que vive comigo) e converso das diferentes formas disponíveis (presencial e redes sociais) com os meus amigos e seguidores.

JP&B. Algum trabalho a vista?

EZM. Duas exposições estão em perspectiva para este ano. Espero que o coronavirus não as destrua.

JP&B. Uma mensagem para os seus admiradores?

EZM. Para os meus admiradores gostaria de deixar uma mensagem de esperança e o desejo vê-los depois da pandemia, para isso devemos todos seguir as recomendações das autoridades. Outra mensagem importante para eles é que já não haverá mais “pausa” na minha produção artística.

 

 

 

 

 

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