Preto & Branco

Depois da dissidência de Nhongo

“Fantasma” de Dhlakama agita Renamo

  • Primogênito do falecido anuncia candidatura às presidenciais em 2024

 Depois da aparição da auto-proclamada  Junta Militar da Renamo, passa um ano, liderada pelo ex-guerrilheiro desta formação política, Mariano Nhongo, que contesta o sucessor de Afonso Dhlakama (que perdeu a vida vitima de doença), Ossufo Momade, por alegadamente ferir os ideais da Renamo, entra em cena o primogênito do falecido líder, Henrique Dhlakama, que declara-se virtual candidato para as próximas eleições presidenciais em 2024. Tanto Nhongo assim como Henrique, reivindicam o resgate dos ideias do finado e dos reais interesses da Renamo, em nome da democracia, o que faz pairar uma nuvem cada vez negra para o futuro desta formação política, que é líder da oposição no país.

 

Pois, Henriques Afonso Dhlakama, filho primogénito do ex-líder da RENAMO, Afonso Dhlakama (1953-2018), assume o compromisso de participação activa na vida política partidária e nacional, em prol do interesse nacional, em resposta a alegados pedidos insistentes por parte de actores políticos e sociais, nacionais e internacionais, bem como diversos elementos das facções partidárias na Renamo.

 

Henriques Dhlakama fez o anuncio nas redes sociais justificando que a sua candidatura visa evitar que o país entre em “precipício” e na sua “Declaração política de compromisso”, e declara o combate à pobreza, corrupção e ao desemprego, assim como a melhoria dos sistemas de educação e saúde num ambiente de paz como algumas das suas promessas.

 

Henriques Dhlakama fez o anúncio numa altura em que a Renamo está a reactivar os seus gabinetes eleitorais e em que um grupo de antigos guerrilheiros da organização criou a chamada Junta Militar, que contesta a liderança do partido por Ossufo Momade, que sucedeu a Afonso Dhlakama, após a sua morte.

 

A intenção do filho do fundador e líder histórico da Renamo Afonso Dhlakama, Henriques Dhlakama, de concorrer às eleições presidenciais moçambicanas em 2024 está a dividir a Renamo, com o presidente do partido a desvalorizar o anúncio e o líder dissidente a apoiar.

O presidente da Renamo, Ossufo Momade, desconsiderou a eventual candidatura de Henriques Dhlakama, sustentando que o posicionamento não abala, mas garante que não terá apoio da direção do maior partido da oposição.

O líder da Renamo, que falava nesta segunda-feira (14 de Setembro), num encontro com membros e simpatizantes da Renamo, no distrito de Angoche (Nampula), disse que respeita a convicção do primogénito de Dhlakama e prometeu não criar nenhum problema “a um cidadão que quer concorrer às eleições presidenciais”.

“Como partido não temos nenhum problema em relação a essa decisão que ele (Henriques Dhlakama) tomou. Isso não representa nenhuma ameaça ao partido, até porque ele é um cidadão livre de fazer o que bem entender”, disse Ossufo Momade.

No entanto, o dissidente da Renamo e que lidera a auto-proclamada Junta Militar, Mariano Nhongo, em entrevista telefónica à VOA, citado na mesma segunda-feira, 14, observa que o apoio político a Henriques Dhlakama vai ser viável se o seu projecto de governação der mais crédito à democracia moçambicana, que ele insiste ainda não estar sólida.

“A (auto-proclamada) Junta Militar está a exigir a democracia e a democracia aceita as coisas que constroem o país…”, reiterou Nhongo, que pondera apoiar o primeiro filho de Afonso Dhlakama.

“Se ele (Henrique Dhlakama) está no caminho certo, o povo vai examinar também”, sublinha o líder rebelde que falava algures da Gorongosa.

Mariano Nhongo garante que não conhece pessoalmente Henrique Dhlakama e que não teve qualquer contato de manifestação de interesse para o apoio à sua candidatura pela auto-proclamada Junta Militar da Renamo, um grupo dissidente da Renamo que não reconhece a liderança de Ossufo Momade e quer renegociar os acordos de paz de Agosto de 2019.

No seu post da sexta-feira passada,  Henriques Dhlakama escreveu: “Irmãs e irmãos moçambicanos, neste dia, em que, após muita reflexão, lanço a minha candidatura à Presidência da República de Moçambique, tenho o coração repleto de uma alegria tranquila”.

Na mesma publicação acrescentou que sente “por todos vocês, moçambicanos, que nos últimos dias me enviaram milhares de mensagens de esperança, lealdade, encorajamento e outras de sentido desespero, por uma mudança que tarda em chegar”.

Este posicionamento do primogénito de Dhlakama surge depois de, a 31 de agosto, na mesma rede social, ter publicado uma “Declaração política de compromisso por Henriques Dhlakama aos moçambicanos”, na qual dizia assumir “o compromisso de participação activa na vida política partidária e nacional, em prol do interesse nacional”, face “aos pedidos insistentes por parte de actores políticos e sociais, nacionais e internacionais, bem como diversos elementos das facções partidárias na Renamo”.

Lembrou, contudo, que Moçambique já esteve sujeito à tirania e escravatura, à violência e discriminação, à injustiça e miséria, mas que depois veio a liberdade.

A voz de analistas …

Para Dércio Alfazema, da organização da sociedade civil Sala da Paz, “há necessidade de a RENAMO, neste período que corre até as próximas eleições e o período que corre da actual liderança até ao próximo congresso, reencontrar-se e trazer essas pessoas para contribuírem dentro da  estrutura e normas de funcionamento do próprio partido”.

Alfazema observa que há um “sinal que se junta aos outros sinais de alguma situação que precisa de ser resolvida dentro da família Renamo”.

 

Este analista político, citado pela Voz da América, na terça-feira, considera que o anúncio do filho do ex-presidente da RENAMO é mais um sinal de que o partido precisa “reunir a família” para evitar a sua fragmentação antes das eleições de 2024.

 

No entanto, Dércio Alfazema é da opinião de que Henriques Dhlakama não constitui “politicamente uma grande ameaça”.

“Não conhecemos a sua intervenção política e ainda não conhecemos a sua contribuição política dentro do próprio partido RENAMO”, acrescenta.

“É uma pessoa que apareceu e fez o seu pronunciamento”, continua Alfazema, dizendo que Henriques Dhlakama “tem impacto por tratar-se do filho do antigo presidente da Renamo”. “Isso sim pode contribuir para criar algum desconforto, mas nada que a actual liderança desse partido não possa controlar”, defende Alfazema.

 

Por seu turno, o jornalista Francisco Carmona, analisando a situação considera que o anúncio da intenção de Dhlakama em candidatar-se às presidenciais enquadra-se nos direitos dos cidadãos à liberdade de expressão e de participação política nas suas variadas formas.

Segundo Carmona, Henriques Dhlakama poderá querer usar estrategicamente o nome de Afonso Dhlakama, que foi o presidente da Renamo  durante 39 anos, para fazer valer a sua candidatura.

“Pode ser uma espécie de balão de ensaio o que ele está a fazer. Está a testar as águas. Lançou o seu nome e, neste momento, está sentado no seu cantinho a receber toda uma carga de opinião em relação àquilo que ele lançou”, avalia.

 

Francisco Carmona diz esperar que “estrategicamente, ao lançar o seu nome agora, faltando cerca de quatro anos para as próximas eleições, possa-se levantar um debate e passarmos a conhecer Henriques Dhlakama com alguma propriedade”.

“Isso porque, neste momento, para além de sabermos que é o filho de Afonso Dlakhama, e que vive em Portugal, ainda não conhecemos quais são os seus atributos e argumentos políticos. Não sabemos que mais-valia ele pode trazer para o teatro político em Moçambique”, concluiu.

 

 

 

 

 

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