Preto & Branco

Celso Durão: Um timbileiro com raízes ancestrais

  • Membro da consagrada banda Timbila Muzimba percorreu o mundo partilhando da arte que herdou que seus antepassados

 

Celso Eduardo Mahuaie, de seu nome completo, mas mais conhecido artisticamente por Celso Durão, mostra-se um instrumentista exímio de ritmos tradicionais, com destaque para a timbila, o grande legado chopi para Moçambique e para o mundo. Fazendo parte da orquestra Timbila Muzimba, com mais de duas décadas de existência, já percorreu os quatro cantos do mundo. Aliás, não é para menos, é filho do “Mestre Durão”, o progenitor da segunda geração de timbileiros no país, depois de outro mestre, o Venâncio Mbande. Aliás, o nosso convidado nesta edição, para um bate-papo, Celso Durão, provêm de uma linhagem de fabricantes e tocadores da Timbila, cujas raízes remontam de seus ancestrais. Na conversa, fala da sua origem, da sua banda, temáticas, situação do músico em Moçambique, suas inspirações e a reinvenção difícil em tempos da Covid-19. Acompanhe a entrevista.

 

Quem é Celso Eduardo Mahuaie?

Artisticamente chamam-me Celso Durão, sou um artista que toca e fabrica vários instrumentos musicais, principalmente a timbila. Aprendi a tocar e fabricar graças ao meu pai Eduardo Durão Lamussene, que é um dos fundadores da Companhia Nacional de Canto e Dança (CNCD). Sou natural de Zavala, província de Inhambane e tenho traços da etnia chope, pois meus pais e avós são machopes.

 

Faz parte de um agrupamento renomado….

Faço parte do grupo Timbila Muzimba onde actuo como timbileiro, vocalista e percussionista. Timbila Muzimba é um grupo de jovens, no qual a maior parte são machopes, que tocam vários instrumentos tradicionais de Moçambique, com realce para a timbila.

 

Qual é a vossa abordagem temática?

Como reportório a banda Timbila Muzimba toca e canta o que acontece dia-a-dia, na nossa sociedade e no mundo, usando os ritmos tradicionais da sua autoria e também interpretação de algumas obras que os nossos ancestrais deixaram em alguns registos que temos pesquisado. Também temos feito algumas experiências de misturar o ritmo da nossa mbila com outros ritmos de vários instrumentos musicais convencionais e tem sido um bom intercâmbio cultural com os artistas do mundo, onde temos viajado, divulgando a nossa cultura moçambicana.

 

Como é ser músico em Moçambique, sobretudo de ritmos tradicionais?

Ser músico em Moçambique é muito difícil é preciso que seja músico por amor à música, ou seja, a arte. Mas ainda não estamos a ser bem geridos para que possamos ser orgulhosos do sermos músicos, principalmente a camada da música tradicional.

Quero acreditar que pode-se viver de música em Moçambique basta que se  valorize os músicos, que se crie espaços culturais com uma boa gerência, sem pirataria, boa remuneração aos artistas, considerar-se de que um artista é trabalhador, tem contas para pagar, tem filhos por cuidar, ele mesmo deve estudar, alimentar-se, pagar segurança social, entre outras despesas. Que se crie, também, formas de controlar a pirataria, pois temos visto em várias esquina a venda de discos piratas, isso também aumenta a pobreza dos artistas, pois é um golpe muito forte.

Quem sabe, mesmo habitação para nós artistas, tenho visto muitos artistas velhos sem habitação, mas são eles que inspiraram muitos jovens a tornarem-se cantores, etc… e a sua música alimenta os nossos ouvidos há muitos anos, mas não  tem habitação, alimentação, e morre por frustração…

 

 

Que marcas a sua carreira tem deixado e que sonhos carrega consigo?

O que marcou a minha carreira foi de ter viajado para quase todos continentes, através da minha arte, divulgando a cultura  do meu país. O meu grande sonho é de conseguir construir a minha oficina-escola com todo equipamento necessário para fabricar e ensinar os mais novos, e alunos de várias escolas nacionais e internacionais que se interessarem em aprender a fabricar e tocar timbilas, assim como outros instrumentos tradicionais.

 

Quais são as suas fontes de força e inspiração?

A família é a minha fonte de força, que apoia-me na carreira, aliás, maior parte somos artistas. Quanto à inspiração, encontro em quase todos os artistas que tocam música tradicional africana, em particular timbaleiros de Zavala, desde os mais antigos até à nova geração. Admiro também artistas que tive colaboração com eles em cada país que viajei.

 

Como se reinventa devido à Covid-19?

No âmbito do confinamento associado a Covid-19 temos enfrentado vários problemas, nós músicos não estamos habituados às novas formas de fazer e tocar a música, tivemos que encarar uma nova realidade, fazer espetáculos online o que não é fácil e, também, não tem sido abrangente, há bandas muito alargadas que não podem fazer suas apresentações normais.

Para apoiar psicologicamente os admiradores temos feito músicas e vídeos de sensibilização para que a nossa comunidade acate as orientações sobre as medidas de prevenção porque só dessa forma podemos nos salvar, do momento, enquanto esperamos a vacina.

Neste momento, dedico-me a criação de músicas de sensibilização porque não podemos fazer eventos, por causa da Covid-19 e fico em casa, não há trabalho. Para os meus admiradores tenho a dizer que devem continuar a prevenirem-se, os momentos vão chegar e aí irei aparecer com força para trabalhar.

 

Está filado a associação dos músicos? Que ocupação em tempos livres?

Não sou membro da Associação dos Músicos, mas sou membro da Associação Cultural Warethwa que procura valorizar os nossos interesses, sobretudo artísticos.

Nos meus tempos livres tenho fabricado timbilas, xitendes, xigovilas e ensino aos mais novos na minha comunidade, em Ndlavela.

 

 

 

 

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