Preto & Branco

Atanásio Nyusi

Um artista makonde de “mão” cheia

Atanásio Nyusi, oriundo de uma família de artistas, é bailarino profissional, compositor, músico, coreógrafo, interprete, actor de cinema e de teatro, além de documentarista é editor. Mas a sua marca indelével vinca-se na Companhia Nacional de Canto e Dança (CNCD), da qual é co-fundador, desde 1982, na altura, Grupo Nacional de Canto e Dança (GNCD). Assume-se como um artista makonde a 100%, aliás nasceu no Planalto de Mueda, na aldeia Namau, nas entranhas de Cabo Delgado. Revelou-nos que os eu nome tradicional e artístico “Nangwona”, significa “invisível” na língua Makonde

É Makonde de origem, ou melhor, cem por cento Makonde. Quer dizer, a mãe era da aldeia Imbuho, de pai e mãe makondes, o pai era de aldeia Namau, também de seu pai e mãe makondes, como se pode ver, são aldeias vizinhas. Conta-se a história de que os antepassados do Atanásio vieram de aldeia Miteda (kuMiteda) e é de Clã vaSitunguli do lado materno e naNchimba do lado paterno.

Ele pratica todas as danças que a Companhia Nacional de Canto e Dança (CNCD) tem no seu repertório e muito mais, isso é, danças do Rovuma ao Maputo. Aliás, fez um pouco de tudo como danças de Senegal (Gumbé-gumbè), de Guiné-Bissau (Manjako), de Zaire (Ngoma ya Kiluwa), Gun Boot Dance de África do Sul, shiNdimba da Tanzânia, mas dá para ver que foi atrevido nos seus tempos de juventude. Mas ele foi muito talentoso na Dança “Mapiko” de que se identifica por ser o prato forte da etnia Makonde, que o falecido Presidente Samora Machel classificou o Mapiko como património nacional.

“Nas suas coreografias é claro que cada um pode interpretar da maneira que pode ver e imaginar. Mas é assim, nas danças tradicionais, a gente só monta no que já existe da população, dando apenas alguns toques para não ser muito igual como se resgatou. No Contemporâneo a coisa já é outra, depende muito mais da imaginação do coreógrafo, no seu ponto de vista, e o espectador só pode se conformar, visto que o contemporâneo é muito abstrato, isso é o dia-a-dia em que vivemos”.

Quando o pesadelo é temática

Segundo apuramos de si mesmo, das suas coreografias, o respeito vai para os pesadelos (Bad Dreams), a obra que serviu como tese do seu curso de professor de dança da Communit Dance Teachers Treining Course (CDTTC), na cidade de Johannesburg em 1996. Os professores ficaram em dúvidas se aquilo era dança e, ou, teatro. Tiveram que convidar outros professores de dança de Pretória, de Durban e da Cidade de Cabo, para virem analisar o conteúdo da mesma. O seu financiador não acreditou quando assistiu, na altura era Director regional da Ford Foundation (Fundação Ford) Ken Wilson, também o activista e jurista sul-africano Albie Sachs teceu rasgados elogios quando viu a peça solo com o título original “Bad Dreams”.

Para este artista, ser bailarino ou viver de Arte em Moçambique, “é um pouco difícil classificar, por que envolve política, mexe com o Estado, daí o perigo que põe ao artista vulnerável. Isto por que na África, todos são artistas, cantam e dançam (os griotes) ou é poeta, logo, o dançarino é tido como marginal, mas que na verdade o artísta traz à tona todas as verdades sociais. Viver de arte é um desafio muito grande apesar de que a arte é a vida, é a nossa identidade. Agora, por exemplo, é muito pior por causa desta pandemia Coronavírus, Covid-19. Tudo distanciamento social, a arte online pouco funciona, pois, como o líder comunitário de Gorongosa costuma dizer: “Não se pode estudar o comportamento de um Leão ou crocodilo em online, ou, virtualmente”.

Atanásio diz ainda que, a arte, de momento, parou no tempo e no espaço, apesar dos esforços do Ministério da Cultura e Turísmo e outras organizações estarem a empreender para ajudar o artista a enfrentar essa realidade pandémica. Mas Atanásio sente-se feliz, afinal foi um dentre muitos que elevaram a bandeira de Moçambique bem alta, dentro e além-fronteiras. Conhece apenas um grupo de dança que ganha a vida dançando, a Companhia Nacional de Canto e Dança (CNCD).

Quando haviam digressões e contractos com as empresas, instituições, os grupos amadores desenrascavam, conta o nosso entrevistado, por exemplo, o grupo de canto e dança Massacre de Mueda do qual Atanásio é um dos fundadores viajou várias vezes para África do Sul e, no ano passado, em Novembro, foi ao Município de Bragança em Portugal participar num Bienal de MascarArte de onde conseguiu mais um link que era para, neste ano, deslocar-se à Inglaterra em Junho, mas tudo foi água abaixo por causa do novo coronavírus.

“Como se pode ver, há grupos, como Hodi, Wushene e outros que faziam a sua vida com contractos esporádicos mas com o Corona até os políticos e empresários que buscavam seus curativos no estrangeiro, agora já não vão, os seus negócios cairam em terra, preferem até os nossos serviços hospitalares. Agora, a vida caiu na miséria”, considera.

“Como disse antes, se fôssemos a considerar na hierarquia das necessidades como “Abraham Maslo” define, não iriámos encontrar o espaço para colocar a arte moçambicana, se não no fim da tabela classificativa, apesar de esforços que estão a ser feitos pelos governantes, só para exemplicar alguns episódios como Idaí, Kenneth, guerra no Centro e Norte de Moçambique, e agora com a Covid-19 todas as atenções estão viradas para esses males, e a cultura apesar de ser um veículo muito poderoso de comunicação, acho que a arte está para além das necessidades, não sei dizer. Para apoiar psicologicamente aos admiradores tentamos gravar alguns programas do “Arte no Quintal”. Por exemplo, já passou na TVM um vídeo da dança Mapiko a apelar aos telespectadores para que fiquem em casa e veja o Mapiko nos seus ecrãs e também há muitos grupos e bandas que passam nas TV’s e na RM para sensibilazar o povo. Agora temos em vista ainda gravar algumas músicas com a banda “Ulongomaly”, da qual Atanásio faz parte como intérprete”, revelou.

Ode a Paz e outras…

Na sua explanação, o entrevistado aponta que infelizmente em Moçambique não existe uma Associação da Cultura, logo, não há como lá estar ou pertencer. “As Associações artísticas que existem em Moçambique são dos Músicos e dos Escritores, ASSEMA, nem de uma nem de outra sou membro, ou por outra, os artístas morrem pobres com as associações ali penduradas. Há uma Associação denominada Arterial Network Mozambique, onde o Nangwona fez parte, mas acabou desistindo por causa do seu funcionamento.

A Dança considerada marco na carreira do Nyusi é Ode a Paz que desempenhou um personagem (principal) um dos beligerantes da guerra civil, e que viajou pelo país todo até chegar no famoso Maríngwè no tempo mais difícil e na presença do moderador da ONU Aldo Ajello. Era no tempo dos Antanoves dirigidos por seus donos “russos”. Foi uma experiência para não esquecer como dizia o saudoso Samora Machel: “Não vamos esquecer o tempo que passou, quem pode esquecer o que passou!?”

Para assistir socialmente o dançarino agora só pode ser online. Distanciamento social, esse pode ser o novo normal. Ou melhor, Atanásio como tal não está no activo na CNCD, encontrando-se agora a prestar seus serviços no ARPAC (IInstituto de Investigação Sócio-cultural), antigo Arquivo de Património Cultural.

O nosso entrevistado que considera que parar de sonhar é morrer, gostaria de abraçar seriamente a área musical, porque, no fim do dia, Moçambique tem várias histórias, contos, ritmos que ainda estão por serem explorados e divulgados. “Gostaria de fazer mais pesquisas deste nosso vasto mosáico cultural que está adormecido, e, que só aparece nos Festivais Nacionais e lá só vão os poderosos que os próprios artistas nada ganham… ganham apenas a Unidade Nacional nada mais”, desabafou.

E acrescenta: “Há artistas que nunca se fizeram presentes nesses festivais, por que os seleccionadores ou não gostam, ou não foram estimulados. Lembro-me do Festival de Xai-xai, o grupo de Mapiko de Maputo foi chumbado alegando que não era original, mas afinal, a originalidade é o quê! Perguntei aos organizadores e ninguém respondeu, ninguém. A resposta deles que não convenceu a ninguém foi, “Mapiko original virá de Cabo Delgado, vocês não são”.

Por ironia do destino, o Atanásio foi a Xai-xai como operador da câmera, e lá encontrou quatro grupos de Xigubo, um de eSwatine, o outro de Matutuine, um de Inhambane e, por fim, o Xigubo de Gaza, “voltei a perguntar, desses quatro quem é original!! Não veio resposta”, ilustrou.

 

Nangwona participou em vários festivais a saber os nacionais; em Maputo em 2002, Chimoio com a Banda Ulongomaly, Inhambane também com a Banda Ulongomaly, em Xai-xai como operador, em Nampula como operador, em Pemba como operador de câmera, em Maputo na Aldeia Cultura.

No exterior, participou no Festiva Kizomba em 1984, no Rio de Janeiro, organizado por Martinho da Vila, tendo ficado em primeiro lugar e, por isso, levou a medalha de Ouro e como bassela o Martinho ofereceu uma viagem a São Paulo, em Moscovo, no XII Festival Mundial de Juventude e Estudantes, Espanha na Expo92; em Portuga Expo98; em Arles França no Festival anual de Abolição de Escravatura, que acontece em cada Dezembro 22 de cada ano, na Ilha de Reunião quatro vezes no mesmo âmbito, na África do Sul no Festival mundial de Fantoches (máscaras), e também na Abolição de Escravatura, tudo na Cidade do Cabo, em Congo Brazaville no Festipam (Festival Internacional de música negra). Bienal de Máscaras denominado MascarArte no Município de Bragança, em Portugal, em Novembro passado, tendo ganho Medalha de Bronze.

Trabalhos editados: The Sound of Masks (o Som das Máscaras), da Directora Sara CF Gouveia de onde Atanásio é protagonista e foi estreado no IDFA (International Documentary Filme Festival Amsterdam, também foi exibido em Canadá, Moçambique, EUA, África do Sul e Portugal em 2019). Protagonista no filme “A mais Longa Digressão” (The Longest Tour) do Director Frederico Madeira (https:vimeo.com/23249295). Tem documentários seus como “Mwendo (viagem) sobre as danças tradicioais e Shipito a (Lenda do Mapiko) como realizador e personagem”.

Como músico participou na gravação do LP Walawasa da CNCD em Copenhaga na Dinamarka 1988. Gravou em 2019 um âlbum seu com 11 faixas com o título “Likumbi” ritos de Iniciação Masculino. Este disco foi lançado no dia 14 de Fevereiro de 2020 que teve um grande impacto, foi pena que coincidiu com o desaparecimento físico do Herói Nacional Marcelino dos Santos e isso fez com que a RM e a TVM não transmitissem em directo.

 

Sobre apoios na sua carreira, referiu contar com o apoio da família, dos seus irmãos Filipe Nyusi, Casimiro Nhussi, Jerónimo Nhussi, da sua esposa, Elsa Virgínia Maluane Taula Nhussi, do meu filho Natepo Nhussi. Ajuntou ainda “da minha falecida mãe e meu pai, enfim, dada Fina Nhussi, tio Mwanga, minhas tias em Imbuho, minha irmã Luisa Kabwela, meu amigo Paolo Israel, de muitos que desejam-me tudo de bom e muito mais, uns directa outros indirectamente. O CD que acabei de mencionar é o apoio directo da minha família”, ressalvou.

ROL DE PRÉMIOS …

No rol dos prémios constam Medalha de Ouro do Primeiro Grau Eduardo Chivambo Mondlane, Medalha de Ouro no Festival Kizomba, Medalha de Bronze em Bragança, Diploma de Mérito na ex-Universidade Pedagógica (UP) assinado por Prof. Doutor Rogério José Uthui, Menção Honrosa Assinado por Prof. Doutor Rogério José Uthui, Segundo lugar no Festival dos Fantoches em (por que ultrapassamos o tempo estipulado), Cape Town, Diploma de Honra aos 30 anos da CNCD, assinado por: Joaquim Alberto Chissano, Aires Bonifácio Batista Ali e David Abílio.

Sobre fonte de inspiração considera que “os artistas que me inspiram ou me inspiraram foram meu pai, grande actor e dançarino do Mapiko e minha mãe, ceramista de utensílios de Arte Makonde. Na área do Teatro me inspiro no actor Mário Mabjaia”, destacou alguns, para em seguida referir que “nos tempos livres, como todos dizem, gosto de ler alguns romances, ou, ler Arte Makonde “tradicion et modernité co-ordenação (cooperação francesa e o ministerio da Cultura de Moçambique), Rudimentos da lingua Makonde por M. Viegas Guerreiro (missão das minorias étnicas do Ultramar Lourenço Marques 1963), Nashilangola wa Shitangodi sha Shimakonde (Estêvão Jaime Mpalume/Marcos Agostinho Mandumbwe), Dominique Makonde (cooperação francesa), Africa in dances of the Witwatersrand God Mines do (do Hugh Tracey), Usos e Costumes dos Bantu Tomos 1 e 2 do (Henri Jund), as vezes escuto minhas músicas e dos outros, claro, também me oucupo a assistir meus documentários”, arrolou.

Em termos de perspectivas adiantou que “na Banda onde estou, temos um show no dia 06 de Novembro próximo. E uma mensagem para os admiradores é: vamos rezar para que a Covid-19 passe rapidamente, para voltarmos no convívio normal, a esperança é a última coisa a morrer, cuidem-se, fiquem em casa, o nosso maior valor é a vida e só se morre uma vez. Ahsante sana, obrigado, khanimambo, kihoshukuru, tatenda, thank you”, fechou a nossa conversa.

Adicionar comentário

Leave a Reply