Preto & Branco

Em Cabo Delgado: Falhanço do Estado arrisca guerra civil

  • Considera análise internacional sobre Moçambique
  • E, PRM diz ter abatido cerca de 500 insurgentes

 

O cenário de conflito armado na província nortenha de Cabo Delgado, onde ocorre um projecto bilionário de gás natural, está cada vez mais perigoso, com as empresas estrangeiras no gás a serem consideradas hostis pelas populações locais, alimentando uma situação que pode descarrilar para uma guerra civil. Assim considera a consultora EXX Africa, em relatório tornado público esta semana. Enquanto isso, a liderança da PRM vangloria-se de ter abatido mais de 500 insurgentes e capturado  diverso material bélico e veículos. Contudo, o Bispo de Pemba, quis que o mundo, ainda, não tem a dimensão real do drama que assola aquela zonas do país.

 

Cabo Delgado, extremo norte de Moçambique, está há sensivelmente três anos a ser alvo de ataques de insurgentes islamistas e com retaliação das forças governamentais, com registo de mais de mil mortos, incluindo civis, alem de provocar mas de 700 mil pessoas das suias zonas de orieg.

 

“É provável que os investimentos estrangeiros que providenciam uma receita substancial ao Governo vão eventualmente ser olhados como uma ameaça e uma presença hostil no norte de Moçambique”, escrevem os analistas da consultora EXX Africa numa análise à situação de Moçambique.

Explicam que, “este cenário faz lembrar outras insurgências em África, como o enclave angolano de Cabinda ou o rio Delta, na Nigéria, e a necessidade de medidas eficazes, coordenação e apoio regional e investimento socioeconómico nesta pobre região nortenha é cada vez mais urgente porque a insurgência arrisca-se a desaguar numa guerra civil total”, aventam os analistas em alusão,  no relatório também destinado a investidores.

A análise da EXX Africa, tornada pública segunda-feira,  salienta que “a escalada drástica da insurgência e a incapacidade do Governo para suster a violência na província indica que os projectos do gás vão ter um risco maior de ataque, mesmo que, por agora, as petrolíferas não sejam o alvo direto dos militantes”, advertem.

Por outro lado, contrário a outras correntes de opinião, a análise  em apreço, considera que  estes insurgenmtes que actuam de  modos terroristas em Cabo Delgado, não parecem receber grande financiamento por parte da rede terrorista internacional Estado Islâmico.

“Os ataques como os de Mocímboa da Praia indicam que a insurgência está a procurar apoio nas comunidades locais para apoderar-se e controlar o território, e assim ganhar o controlo dos recursos económicos e das receitas governamentais locais”, lê-se no documento, que lembra que “esta táctica já foi tentada no norte da Nigéria por um grupo próximo do Estado Islâmico” e poderá resultar em Cabo Delgado “devido ao falhanço das medidas de contra-insurgência e à falta de apoio regional a Moçambique”, salienta-se.

Mocímboa da Praia é uma das principais vilas da província de Cado Delgado, situada a 70 quilómetros a sul da área de construção do projecto de exploração de gás natural conduzido por várias petrolíferas internacionais e liderado pela Total, que movimental um investimento de dezenas de biliões de dólares.

Perante este cenário dramático, as Nações Unidas lançaram, no início de Junho, um apelo de 35 milhões de dólares à comunidade internacional para um Plano de Resposta Rápida para Cabo Delgado.

PRM vangloria-se por abate a 500 insurgentes

Enquanto o cenário recrudesce em Cabo Delgado, com ataques recorrentes e a ampliar-se os raios de actuação pelos insurgentes, o Comandate Geral da Polícia da República de Moçambique (PRM), Bernardino Rafael, veio a público, novamente,  a dizer que as Forças de Defesa e Segurança (FDS) estão empenhadas em eliminar os insurgentes que operam em Cabo Delgado, sendo exemplo disso o abate de mais de 500 elementos do grupo.

“A rede de terroristas está a ser desmantelada”, referiu, citado pelo jornal Notícias, a propósito de uma reunião do Conselho Extraordinário da PRM, na quinta-feira passada, para debater a situação de segurança no país durante o primeiro semestre deste ano.

Segundo o mrelato deste dirigente policial, entre os membros abatidos encontravam-se dois dos líderes da violência armada, tal como já havia sido anunciado no final de Maio.Um dos líderes terá sido responsável pelo início das incursões em Outubro de 2017, destacou.

No mesmo encontro, o Comandante-geral da PRM apontou ainda para a detenção de cerca de 500 insurgentes e referiu que 80 terão ficado feridos nos confrontos.

Foram ainda recuperadas 12 armas de fogo, destruídas 16 viaturas na posse dos agressores, 87 motorizadas e diversas embarcações, entre as quais, barcos a motor, à vela e canoas.

Bernardino, que não conhece o número real dos insurgentes que atacam a província, disse que acção das FDS impede o seu avanço para outros pontos.

Reporta-se que na luta contra o grupo de insurgentes, as autoridades moçambicanas contam, pelo menos, com o apoio da empresa de segurança Dick Advisory, do Lionel Dick, um coronel reformado do Zimbabwe. A empresa contratada e as FDS já sofreram baixas.

O drama e a ignorância… do mundo

Sobre os acontecimentos de Cabo Delgado, o mediatico bispo de Pemba,  Luíz Fernando Lisboa, considera que  o mundo ainda não tem ideia do que está a acontecer em Cabo Delgado, onde ataques armados estão a provocar uma crise humanitária que afecta mais de 700 mil pessoas.

Em entrevista à Lusa, tornada pública terça-feira, ”, Luíz Fernando Lisboa, frisa: “Não, o mundo não tem ainda ideia do que está a acontecer por causa da indiferença e porque parece que nós já nos acostumámos a guerras. Há guerra no Iraque, há guerra na Síria e também há agora uma guerra em Moçambique.”

“Quando a pessoa não está sentindo na própria pele [aquilo que se passa] é difícil entender. Compreendo isso. Mas quanto mais tomamos contacto com a realidade, aí vemos a verdadeira dimensão” da crise, referiu o bispo, uma das vozes que mais se tem feito ouvir acerca da situação.

“Não temos ainda a solidariedade que deveria haver”, disse, apesar de considerar que a situação melhorou nos últimos três meses – em especial, sublinhou, depois de o papa Francisco ter feito referência à situação de Cabo Delgado na missa de Domingo de Páscoa.

O último apelo das Nações Unidas, dirigido exclusivamente para a região, resume o drama humano.

A fuga da população das suas aldeias aumentou rapidamente à medida que a violência cresceu desde início do ano, refere a ONU, estimando que haja agora 250.000 pessoas que largaram tudo e procuraram refúgio seguro noutras povoações – num conflito que já matou, pelo menos, mil pessoas.

Somando as comunidades de acolhimento, também já de si empobrecidas, estima-se que haja 712.000 pessoas a necessitar de ajuda e o plano pretende apoiar 354.000, cerca de metade.

Alguns dos ataques são desde há um ano reivindicados pelo grupo jihadista Estado Islâmico e a ameaça terrorista é reconhecida dentro e fora do país, tendo os grupos de rebeldes ocupado importantes vilas de Cabo Delgado (situadas a mais de 100 quilómetros da capital costeira, Pemba) durante dias seguidos, antes de saírem sob fogo das Forças de Defesa e Segurança moçambicanas.

Para as vítimas em fuga (que deixam para trás vilas quase abandonadas), a insegurança alimentar é uma das mais graves ameaças, mas não é a única.

“Não nos podemos contentar em dar comida. É muito pouco”, alertou Luíz Fernando Lisboa durante a entrevista à Lusa, salientando que “há muitos traumas”.

A alimentação “é importante, mantém as pessoas de pé, alimenta o corpo, mas há pessoas que estão quebradas, traumatizadas com tudo o que viveram”, disse, destacando que “o apoio psicossocial é essencial”.

“Estar com essas pessoas, reunir, ouvir”, criando grupos onde haja elementos preparados para descobrir os traumas “que vão necessitar de resposta”.

Há residentes no norte de Moçambique cuja vida não voltará a ser a mesma.

Alguém que “perdeu a casa ou viu outra pessoa da família ser morta ou não sabe ainda onde está algum familiar”.

Lares desfeitos, com crianças separadas dos pais, uns à procura dos outros, é um cenário comum, acrescentou, escusando-se a entrar em mais detalhes de outros casos humanamente chocantes.

A própria igreja, tal como todas as congregações e crenças, perdeu catequistas e outros dinamizadores nas paróquias, o próprio bispo teve de dar ordem de saída urgente a missões cujos membros foram dos últimos a partir, sob risco de vida, para tentar apoiar populações sob ataque.

“Todos em Cabo Delgado sofremos direta ou indiretamente”, resumiu, numa província maioritariamente muçulmana (representam ligeiramente mais de metade dos 2,3 milhões de habitantes) e onde diz haver harmonia entre religiões.

Nos relatos, há também o reverso da perda, há histórias de resiliência, contou, como a de uma mulher que deu à luz enquanto fugia de uma aldeia atacada.

Parou no meio do mato e depois do parto seguiu, conta Luíz Fernando Lisboa, que logo a seguir juntou um exemplo de solidariedade: há semanas acolheu cerca de 30 crianças que se juntaram numa fuga, separados dos pais.

“Todos foram recolhidos” por familiares mais afastados ou amigos, já com casas cheias, mas sem receio de acolher mais bocas para alimentar.

O ano de 2020 está a ser o pior desde o início dos ataques armados, em 2017, disse.

Hoje, tal como na altura, permanece o debate sobre as razões da violência, mas o bispo de Pemba mantém uma “esperança”: de que “a guerra termine” e que 2021 seja um ano de muito trabalho, mas em paz.

 

Adicionar comentário

Leave a Reply