Preto & Branco

Os contornos da origem interna dos ataques em Cabo Delgado

Os ataques que, há sensivelmente três anos, assolam a província de Cabo Delgado, tem alicerces internos que remotam há 10 anos, existindo, inclusive, alguns indícios deste movimento extremista nos finais de 1989. Assim considera o estudioso Eric Morier-Genoud.
Doutorado em sociologia histórica, mesmo considerando que haja influência externa, vinca as premissas da vertente interna. Nas suas investigações, Morier-Genoud  apurou que o grupo é bastante antigo, tendo surgido como uma seita, pelo menos, 10 anos antes de iniciar com os ataques em 2017. ” Em 2007, a seita tinha uma mesquita em Balama; em 2010, outra na Mocímboa da Praia e, em 2013 e 2014, outras duas mesquitas em Chiúre”, relata o estudioso que tem várias publicações sobre Moçambique, integrando, actualmente uma equipa de pesquisa  sobre “Estado, Violência e Desafios de Desenvolvimento no Norte de Moçambique” .
Com sua tese sustentada numa pesquisa que realizou, entre 2018 e 2019, em Cabo Delgado, aflora que ao longo dos 10 anos, a seita se estabeleceu em, pelo menos, oito distritos sendo a mais recente, a exemplo de Ancuabe e Nangade.
Indo mais a fundo, no estudo mencionado, refere que em Nangade, entre 1989-90, um movimento similar surgiu, com características semelhantes ao do actual “Al-Shabaab”, havendo suspeitas de os membros do anterior grupo, na altura corridos à força pela Administração local, terem ligações com os actuais insurgentes.
 Morier- Genoud, que também lecciona história na Queen’s University Belfast (Reino Unido), aponta que na véspera dos ataques, em 2016, a seita também estava activa em Palma, Macomia e Quissanga.
Na pesquisa em alusão, à laia de clarificação, elucida que “uma seita é um grupo religioso que decide se distanciar do Estado e da sociedade para construir uma contra-sociedade com suas próprias regras”, sendo que a seita islamista  transformou-se em jihadista ao tornar o movimento armado, usando a violência, com vista a ” mudar o Estado e a sociedade para conseguir ter a lei da sharia a funcionar em toda a sociedade”, este é o objectivo deles, assegura o estudioso.

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