Preto & Branco

Financiamento à Junta Militar vs Conspiração contra o Estado

Antigo SG da Renamo pode ser preso

Enquanto o julgamento de seis indivíduos acusados de tentativa de conspiração contra o Estado, por alegadamente estarem ao serviço da propalada Junta Militar, liderada pelo guerrilheiro dissidente da Renamo, Mariano Nhongo, o Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC) caça provas que possam incriminar directamente o antigo secretário-geral e deputado da Renamo, Manuel Bissopo, que viu seus telefones e computadores apreendidos em sua casa na cidade da Beira, exactamente um dia antes do arranque do julgamento.

 Uma equipa do Serviço Nacional de Investigação Criminal (Sernic) fez buscas e apreendeu vários equipamentos eletrónicos na quinta-feira (dia 9 de Julho), na residência de Manuel Bissopo (antigo deputado e Secretário geral da Renamo) e também na casa de um outro antigo deputado renamista, Sandura Ambrósio, este, que se encontra detido desde Janeiro, com outros cinco elementos, ora em julgamento.

Depois da confirmação da apreensão de aparelhos de telefones celulares e computadores, por Manuel Bissopo, segundo a Voz da América, alguns analistas consideram que a aparente extemporaneidade das apressões podem derivar de erros de perícia. Contudo, para o analista Sansão Nhancale, o equipamento eletrónico “poderá inocentar ou provar o envolvimento destes no processo de conspiração contra o Estado”. Já o politólogo e docente universitário, Martinho Marcos, vai mais longe, entende que a acção da Polícia “pode ter também motivações políticos, de apurar as novas ligações dos antigos deputados após perderem cargos de chefia na Renamo”.

Sendo claro que, se na eventualidade de se apurar algumas ligações  e conivências de Bissopo, cujos aparelhos foram confiscados, no apoio à Junta Militar, a qualquer momento da decorrência do julgamento poderá ser detido e responder sob  prisão preventiva.

Iniciado na sexta-feira passada (10 de Julho), este julgamento, tem nesta quarta-feira (15 de Julho), o seu segundo dia, cujo mote foi a detenção de quatro indivíduos que alegadamente foram recrutados, e que na companhia do recrutador, tinham como destino juntar-se à propalada Junta Militar da Renamo, que tem perpetrado ataques na zona centro do país, concretamente em Sofala e Manica, já com vítimas mortais.

Manuel Bissopo, a par de outros membros seniores da Renamo, em liberdade e não constituídos arguidos, nomeadamente Elias Dhlakama (irmão mais novo de Afonso Dhlakama), os deputados António Muchanga, José Manteigas e a antiga chefe da bancada na Assembleia da República, Ivone Soares, aquando da detenção de Sandura Ambrósio, foram ouvidos na Procuradoria-Geral da República, Bissopo na Beira e os restantes em Maputo.

Pois, todos estes foram mencionados pelos ora detidos que fariam parte dos patrocinadores da “causa” de Mariano Nhongo, nas suas investidas através da autoproclamada Junta Militar da Renamo.

Sandura no centro do furacão

No primeiro dia, o juiz apenas ouviu dois arguidos, dos seis arguidos em prisão preventiva desde Janeiro: quatro recrutas, um recrutador e um financiador (Sandura Ambrósio), estando previstas novas audições na nesta quarta-feira (15)  e sexta-feira (17) naquele tribunal.

No início do julgamento, o juiz do processo querela, Carlitos Teófilo, pronunciou como co-autores moral e material os seis arguidos, acusados por crime de actos preparatórios de conspiração contra segurança de Estado.

Segundo o despacho de acusação lido neste primeiro dia, Sandura Ambrósio terá sido uma das figuras que ajudou a recrutar pessoas para a autoproclamada Junta Militar. “Para esconder a sua participação no processo de recrutamento, o arguido Sandura Ambrósio, entre os dias 13 e 14 de Janeiro de 2020, contactou António Bauase [coarguido e também antigo membro da Renamo] para que este assumisse toda culpa e não mencionasse o seu nome nas audições”, leu o juiz da causa, Carlitos Teófilo.

No documento, o MP acusa Sandura Ambrósio do crime de conspiração, argumentando ainda que o antigo deputado da Renamo terá apoiado financeiramente a auto proclamada Junta Militar.

Em declarações à imprensa após a sessão, o advogado de Sandura Ambrósio disse que a acusação do MP não é baseada em factos, considerando que o seu constituinte é inocente.

“Seria prematuro avançar que existe alguma motivação política ligada ao processo, a verdade é que, como vocês constataram, há contradições”, declarou a comunicação social José Capassura.

Sandura Ambrósio foi deputado da Renamo no mandato que terminou em Janeiro, mas já havia anunciado a saída do partido em 2019 para se filiar ao Movimento Democrático de Moçambique (MDM), terceiro maior partido com representação parlamentar.

O ex-deputado concorreu a mais um mandato nas eleições legislativas de 15 de Outubro do ano passado pelo MDM no círculo eleitoral de Sofala, mas não conseguiu a reeleição.

Na mesma sessão, o Tribunal ouviu Aníva Joaquim e Gabriel Domingos (coarguidos). O crime de conspiração é punido com penas de prisão entre oito e dez anos.

A autoproclamada Junta Militar contesta a liderança da Renamo e o acordo de paz assinado em Agosto do ano passado, sendo acusada de protagonizar ataques visando forças de segurança e civis em aldeias e nalguns troços de estrada da região centro do país.

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