Preto & Branco

Percurso do artista plástico Titos Mucavele: Uma costela artística com idade da independência

  • Com cerca de 20 anos de idade foi considerado um dos mais talentosos do país
  • Já representou Moçambique além-fronteiras e ainda sonha com uma escola de artes para gerações mais jovens

Nascido na terra “santa” de Chongoene, molda a sua infância e juventude em bairros arrabaldes da capital do país, nomeadamente Chamanculo e T-3, ainda na tenra idade, descobre o bicho da arte. Trocando a bola pelos pincéis e tinta, na efeméride da independência nacional, em 1975, dá-se a sua primeira aparição pública, numa exposição que, três anos depois, o catapultou para as páginas da prestigiada revista Tempo, considerando-o “pintor mais novo e talentoso de Moçambique. Trata-se do decaído das artes plásticas, Titos Mucavele, que nascido na década de 50 viu a independência do país a nascer e continua firme com pincel e martelo em punho.

Estamos a falar de quem tem um percurso sagrado, de quem a independência o viu nascer entregando o seu nome à pintura, navegando nas tintas, que misturadas nas suas telas, produzem sempre algo que se parece com movimento vibrante na alma de quem aprecia a sua obra.  Acompanhe a longa conversa que travamos.

JP&B: Quem é Titos Mucavele?

TM: Titos Fernando Mucavele, é um cidadão moçambicano, que aos 27 de Julho de 1958, a terra santa de Ncavelene-Chongoene, testemunhou o seu nascimento. Filho do ex-mineiro na RSA, Fernando Mucavele e, de Luciana Mucavele. Aos 4 anos fui levado à ex-Lourenço Marques, actual Cidade de Maputo, onde fui registado e passei a viver com os meus tios, no bairro Chamanculo. Essa idade não me permitiu trazer recordações de Chongoene, mas facultou-me o começo da vida longe dos meus progenitores. De calções e camisa caqui, descalço, como outras crianças da idade, com carrinhos de arame e rodas feitas com latas de leite, acabei-me tornando um jovem muito criativo, e passei a gostar de desenhar a nossa casa de madeira e zinco, era o despertar do interesse pelo desenho. Já a finalizar a escola primária, desenhar diversas figuras da época, dentre elas, a do famoso músico (Jimi Hendrix), o Pato Donald, e outras figuras de destaque. Eram desenhadas nas capas de cadernos e sacolas escolares, e desenhava também para os outros estudantes que diziam não terem jeito para essas coisas de desenhar mas admiravam. Estes foram os primeiros sinais da presença do pintor dentro de mim, que aspirava libertar-se. Esta tendência de pintar ganhou forma no ciclo preparatório, na escola secundária do Noroeste, actual Noroeste 1 onde estudei. Aí, contei com ajuda do escultor José Dias Machate, que formou e orientou um grupo de colegas interessados na prática de desenho artístico e escultura, nas aulas de trabalhos manuais.

Nos tempos livres jogava futebol da rua próximo da casa, no “SMAE”. A habilidade valeu-me o convite para jogar no clube  ̎Associação Académica de Moçambique,̏ no escalão de infantis, o que agradou os meus tios apesar de serem benfiquistas de coração e alma. Hoje, lecciono disciplinas de desenho de máquinas, desenho arquitectónico, técnicas de mecânica, e com rubrica de Artista Plástico (Pintor).

A troca da bola por Pincéis E Tinta

JP&B: Quando é que abraçou as artes plásticas?

TM: Tudo começou no ano de 1972, quando uma parte dos moradores de Chamanculo (S.M.A.E.) foi transferida para o bairro T-3, por motivos de ampliação das capacidades de armazenamento de água, na qual a minha família fazia parte. T-3, novo ambiente e nova vida. O futebol tinha tomado todo espaço. Porém, no Governo de transição, Moçambique conheceu um movimento cultural e desportivo jamais visto. Houve nesse período intercâmbio entre bairros aos fins-de-semana. T-3 tinha um grupo de atletas necessitando de apoio para a compra de equipamento desportivo. O pintor João Tinga, organizou um círculo de interesse de pintura, com o fim de formar artistas, pintar e organizar exposições-venda, (como um dos focos de apoio), para apoiar atletas na compra de equipamento. Foi dessa maneira que aprendi a pintar a óleo e, sem tardar, troquei a bola pelos pincéis, ousadia que me criou problemas sérios com os meus tios. O cheiro doce da tinta de óleo, as pinceladas e o misturar das tintas que me levavam longe desta terra, para outros horizontes. Numa data incerta de Junho de 1975, já com as técnicas de pintura a óleo assimiladas, vi as minhas obras a serem seleccionadas para expor, e a emoção venceu o medo da crítica.

Foi no dia 25 de Junho de 1975 que o pintor João Tinga organizou uma exposição alusiva às comemorações da Independência Nacional, no salão da Escola Industrial 1 º de Maputo e a história das artes moçambicanas registou o nascimento de mais um pintor. Mas Deus me ajudou, em Junho de 1978, a revista Tempo apresentou na página cultural uma das minhas obras fotografada na exposição colectiva que decorria na (FACIM), com o título:”Titos o pintor mais novo e talentoso de Moçambique”. Esta informação condicionou a liberdade de pintar e poder ter atellier em casa.

JP&B: Que mensagens podemos encontrar nas suas obras?

TM: É difícil me referir a este aspecto, porque cada apreciador numa obra, busca o que lhe toca na alma, por vezes não é o propósito julgado pelo artista, nesse sentido, surge uma contradição e consequente deformação de ideias. E é desta forma que a obra ganha valor. As mensagens na minha obra fazem menção à nossa cultura, hábitos, usos e costumes e à identidade. Trago nas telas aquilo que é a vida social, as suas diferenças, a localização, as diferentes manifestações juvenis, principalmente no campo, que transporta modus vivendi genuínos e naturais. Focalizo aquelas danças nocturnas acompanhadas da fogueira, retrato aquela mulher do campo que faz tudo para estabelecer o bem social da família, e o corpo dela nas minhas telas sugere uma viagem imaginária para o apreciador da obra.

JP&B: O que é ser artista plástico e pintor em Moçambique?

TM: É complicado responder esta questão, é o mesmo que perguntar a um fanático do futebol, porque não deixar de apoiar a selecção nacional, porque está sempre a perder mesmo com selecções consideradas de baixo histórico de futebol.

Ser pintor nas nossas condições é usar a camisola da cultura moçambicana, pintor, com muito orgulho. As dificuldades fazem se sentir em todas áreas de actividades, a pintura não seria uma excepção. O pintor de verdade procura a todo custo estabelecer o equilíbrio dos seus sonhos. A maioria dos que resistem a este vendaval de falta de condições, apoio… são os que nasceram com este bichinho de arte, e tiveram aprendizagem técnica, abraçados a um mestre e nunca conheceram antes as paredes de escolas de arte. São como um peixe fora da água a espera de cacimba para sobreviver, não deixa de ser peixe por não estar no seu habitat.

Estreia Internacional na Nigéria

JP&B: É possível viver de arte em Moçambique?

TM: Infelizmente, são poucos que tem a noção do belo, os poucos que tem e podiam comprar obras de arte, esperam ser oferecidos em momentos especiais.

Recordo-me que nos tempos passados, o Museu era o primeiro a comprar obras numa exposição para sua colecção, a seguir os bancos, as empresas e, por fim, os coleccionadores, e amantes da arte. Mas hoje em dia nas paredes das salas desses lugares só estão patentes imagens publicitárias, fotos do gerente ou do trabalhador que talvez tenha feito um corte que agradou o patrão …

Recordo-me que o Ministério da Cultura empenhava-se na promoção de arte moçambicana no país e no estrangeiro. A título de exemplo, tive a sorte de ser convidado a expor em 1977 na Nigéria (FESTAC). Esta foi a minha primeira participação numa colectiva internacional.

A pintura moçambicana ocupou lugar de destaque ao nível nacional e internacional. Creio que se o ministério de tutela sustentasse esses valores, que de certo modo o país tanto precisa para fazer valer as suas riquezas culturais, o artista teria mínimas condições de sobreviver de arte. Acho que também podia se exibir a nossa pintura a nível dos PALOPS, como forma de buscar novas perspectivas.

JP&B: No âmbito de confinamento associado ao Estado de Emergência devido à Covid-19, todos sectores enfrentam uma verdadeira crise. Para caso vertente, Arte e Cultura, que desafios coloca?

TM: Acredito que esta pandemia do novo coronavírus que nos confina, um dia irá devolver a tranquilidade e saúde pública, e para que isso aconteça, é necessário observar a obediência das regras de higiene e protecção estabelecidas para combater esse inimigo comum, que sem bater a porta invadiu a cerca do mundo. Só assim e que podemos alcançar nova vida e novas inspirações. Como fazedores de cultura temos papel muito importante na sensibilização da população através da arte.

JP&B: Que tipo de realizações…

TM: Todos fomos apanhados de surpresa, estamos a viver momentos muito complicados. Apenas desejar que os admiradores, se bem gostam da pintura, para voltar às galerias e atelliers viver a arte, a condição é ficar em casa com esperança de ver a crise passar sem tardar e sem causar tragédia. Com a saúde, a pintura sempre vai existir, já com outros dizeres do tempo.

JP&B: É membro do Núcleo de Arte?

TM: Sou membro do Núcleo de Arte desde a sua existência como Núcleo.

 JP&B: Qual é a obra considerada marco na sua carreira?

TM: (Eiii, e esta agora!…)

Bem, cada obra é uma obra. E cada uma tem um toque marcante, é por isso que custa desligar-se de uma obra. Mas existe uma obra pintada no salão de Escola Industrial 1º de Maio de Maputo, data 1980, quando concluí o nível básico à espera de rumar para o Instituto Pedagógico Industrial de Nampula – IPIN. Foi o meu primeiro mural cujo tema é, “Moçambique no passado, presente e futuro”. Foi muito atrevimento da minha parte, com apenas 3 anos de carreira, pintar uma obra de dimensão exagerada, para o meu nível nessa altura. Mas isso não era grave, o trabalho foi como que fosse um teste de resistência. Na primeira fase, de esboço quase que desistia. O gozo de estudantes vinha de tudo quanto era canto, “está a sujar parede…”.  Mas o artista no interior falava mais alto, do que ouvia do exterior, foi humilhante o começar daquela obra. Tempos depois quando o pincel dava relevo naqueles rostos, quando as mãos ganhavam forma, quando os objectos tornavam-se tridimensionais, era a vez de elogios e admiração. “iiiihh!… o gajo é artista pá. Ya penda pa… (o mesmo que, ya pinta pois…”. E a emoção em mim cresceu, sentia um conforto igual ao gingar excepcional do pavão.

Permita-me elucidar que importaria, neste espaço, referenciar que como social, a minha carreira foi rica pelo facto de ter muitos admiradores e por ter tido muitos discípulos onde passei, dedico muita força aos pintores, Elias Manjante que nos anos 77/79, influenciei nas técnicas de óleo e hoje é um viajante incansável nas suas pinceladas. E em 82, já no Instituto Pedagógico Industrial de Nampula -IPIN começou a sentir o sabor de óleos. De nome artístico (Amanhiça), irrequieto, muito cedo trocou pincéis com espátula sendo um dos raros com perícia no uso deste instrumento, e finalmente vem transformando o ferro velho em obra de arte.

JP&B: O que se pode fazer para assistir o artista?

TM: Primeiro seria sensibilizar os fazedores de política de arte, conhecerem o valor da arte e do artista (pintor), conhecerem o benefício que a arte traz para o país.

Sensibilizar empresários no sentido de ver a obra de arte como um bem precioso para a empresa. Promover exposições-venda em galerias e feiras internacionais e intercâmbio. Conhecer a vida do artista, sua proveniência, suas dificuldades e possíveis formas de apoiar.

JP&B: Qual é o grande sonho de Mucavele?

TM: O grande sonho venho manifestando já há anos, que é deixar testemunho para jovens e crianças. A cultura não se faz sentir nestas camadas sociais, e o recurso para ocupar tempos livres é escasso condicionando a exposição aos males, a drogas e outros.  Gostaria de ter espaço e meios para trabalhar com esta camada social nas artes.

De Malangatana á Rembrandt

 JP&B: Quantas obras já produziu?

TM: (Yaaa!…) Nunca esperei uma pergunta destas. Mas vamos pensar juntos. Se pintasse uma obra por dia, até agora teria pintado milhares de obras, se tivesse pintado 10 obras por ano, e se tivesse pintado 10 por mês. É complicado não é?. Ultrapassa as minhas capacidades de contar. Não posso precisar…

JP&B: Tem beneficiado de apoio familiar no âmbito da carreira?

TM: Sim. Criei campo para isso. Quando comecei a viver com a minha esposa, pintava num espaço comum e com frequência quando passasse próximo da minha zona da pintura, pintava-se a roupa com frequência, e doutro lado estragava minhas coisas. Essa situação criava um mau estar porque a tinta de óleo dificilmente sai ao lavar roupa. Foi simples resolver esse problema. Ensinei batik e ela passou a produzir roupas e pintar, passou a gostar da arte. E na minha casa estamos unidos pela arte.

JP&B: Alguns prémios conquistados?

TM: Muitos presentes. No final da minha exposição organizada num Instituto Superior de Belas Artes, na Itália, a direcção da instituição, por ter admirado bastante a minha técnica de pintura, premiou-me com um semana de ensino das técnicas de pintura aos futuros pintores da instituição, com a possibilidade de ter um contrato, mas infelizmente, o meu nível académico na altura não era o desejado.

JP&B: Que artistas o inspiram?

TM: No país, o Malangatana, Samate, Tinga, Ídasse, Elias, Amanhiça. Fora, Miguel Ângelo e Rembrandt.

JP&B:  Como tem preenchido os tempos livres

TM: Eu gosto do campo, o silêncio do campo é relaxante, o cântico e liberdade dos passarinhos, faz bem à saúde, gosto de ler, gosto de escutar música, um jazz, um blues, faz-me muito bem a pintar. Mas um Alexadre Langa, Ghorwane, alimenta minha inspiração na pintura.

JP&B: Algum trabalho à vista?

TM: Ainda é complicada a situação, mas acredito que os próximos tempos vão ajudar na programação e tomada de decisões.

JP&B: Uma mensagem para os seus admiradores

TM: Estou esperando de vocês meus admiradores, mas neste momento fiquem em casa, melhores oportunidades de encontros virão, tenham muita esperança e acatar com orgulho as recomendações e medidas de prevenção.

 

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