Preto & Branco

Sobre o Empresariado Nacional

Há muito que a questão do empresariado nacional (diga-se privado) ou quando fala-se do sector empresarial nacional criam-me alguma confusão e incredulidade de certa maneira.

A génese dos nossos ‘capitalistas’ remonta ao último quartel da década de 1980 quando iniciou-se o processo das privatizações das Empresas Estatais no quadro das reformas impostas pelo Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial no âmbito do infame Programa de Reajustamento Estrutural (PRE). É um grupo de pessoas que tinha fortes ligações umbilicais ao Partido Frelimo e sem qualquer experiência de gestão privada ou, se quisermos, de gestão capitalista de negócios. É preciso recordar que estávamos a sair de uma economia centralmente planificada e de orientação socialista que teve um impacto desastroso ao que se aliou uma sucessão de eventos calamitosos como a seca prolongada, cheias e a guerra civil/desestabilização que dilacerou o tecido social e económico de Moçambique.

Este grupo de pessoas que tomou a dianteira e o controlo das antigas empresas estatais beneficiou-se de incentivos financeiros do Estado por via da banca estatal (Banco Popular de Desenvolvimento) e de fundos do tesouro. Mas a esmagadora maioria sucumbiu às leis do mercado, pois como referi, não tinha experiencia e ‘tradição’ de ser capitalistas…’comiam as poedeiras e os ovos’. Nunca devolveram os dinheiros que receberam a título de empréstimo.

Volvidos quase trinta anos, e quando esperava-se que este sector já tivesse ‘crescido’, já estivesse experimentado, com alguma robustez, ainda é dependente do Estado. É, na maioria dos casos, um sector que vive ta ‘teta’ do Estado. Não conseguiu em quase trinta anos ser capaz de ‘viver’ sem o Estado. São empresários de rapina, numa fase primitiva de acumulação de onde nunca saem, com escritórios móveis, muitos deles nas outrora chamadas ‘James Bonds’ guardadas nos carros à espera de um concurso público, onde através de lobbies, redes corruptas e clientelistas conseguem contratos que também são de execução duvidosa e sobrefacturados. Outros, devido a sua ligação umbilical ao partido no poder, aparecem como sócios em iniciativas de investimento estrangeiro apenas como ‘pessoas que abrem portas e desbloqueiam processos’.

Até aqui, não é o mais grave: até a Confederação das Associações Económicas (CTA), ridicularmente recebe subvenções do Estado? Dá para rir? Dá e muito!

Até quando teremos um sector que vive lamuriando-se que o Estado isto, Estado aquilo? Quando é que vai acontecer o desmame? Parece-me que quer-se ‘chupar da teta até arrancá-la’. Depois pululam aí, pessoas que auto-intitulam-se ‘empresários de sucesso’, gestores de sucesso, empresário/gestor do ano, por aí em diante! Qual sucesso, qual carapuça? Precisamos de empresários sérios. O mundo dos negócios tornou-se muito complexo à escala planetária. Os conceitos, paradigmas, visões, abordagens, estratégias mudam e evoluem diariamente. É preciso adequar-se a estas dinâmicas e encontrar gente tecnicamente capaz, que age com honradez e lisura. Mas onde encontrá-los? Nesta sociedade adoentada ou em embriaguez colectiva? Uma sociedade que normaliza o anormal, que diz de boca cheia: ‘epá em Moz é assim!’ Total resignação…uma sociedade abúlica. Enfim, também eu, é Moz isto!

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