Preto & Branco

“É inconcebível que a classe artística seja resgatada por estrangeiros”

–  Desabafa a artista plástica, Bena Filipe

Fazer arte é ser promotor e embaixador de livre e espontânea vontade dos valores culturais do solo moçambicano, no entanto os olhares da juventude, funcionários públicos, governantes, empresários, mostram-se “distantes” da nossa racionalidade artística e, quiçá, suas raízes. Sendo, inconcebível que “a classe artística seja mais valorizada por estrangeiros, sendo nós resgatados e não pelos nossos irmãos”. São considerações e desabafos da artista plástica Bena Filipe.

Em momentos de crise os artistas têm sido os principais veículos de sensibilização de comunidades em diferentes sociedades em Moçambique, não foge a regra. Surpreendemo-nos com a conceituada artista plástica e pintora, Benedita Pedro Filipe, que estava empenhada com crianças dando princípios elementares da pintura em torno da Covid-19.  A artista Bena Filipe disse à nossa reportagem que o seu nome é uma homenagem a uma pessoa muito importante, a avó materna.

“Comecei a carreira em 2006, quando vivia em Maputo numa altura em que era estudante universitária e frequentava o curso de Medicina na UEM. Investi noites e fins de semanas para me dedicar às artes e ao longo de alguns anos a veia artística consolidou-se em mim”, refere.

Fazer arte não transpõe ser moçambicano, patriota com um verdadeiro sentido de amor, respeito e valorização à identidade cultural. É ser promotor e embaixador de livre e espontânea vontade dos valores culturais do solo moçambicano. Diante de tanta indiferença, dos diferentes olhares da juventude, funcionários público, governantes, empresários que mostram-se “distantes” da nossa racionalidade artística e quiçá, suas raízes.

“É inconcebível que em algum momento está classe artística seja mais valorizada por estrangeiros sendo nós resgatados e não tanto pelos nossos irmãos. Tive a brilhante oportunidade de trabalhar com instituições do governo e, vi um ganho, no meu crescimento profissional, mas devem fazê-lo com mais seriedade e profissionalismo”.

Só assim, está componente artística terá o seu espaço consolidado e devidamente demarcado no solo Moçambicano. EU acredito que mais um dia, menos dia isso será uma realidade.

O desafio centra-se no facto de não existir um regulamento e/ou normas activas que defendem nossa classe, que no caso de estarmos inativos temporariamente, quem deve nos subsidiar? Mesmo com ou sem recursos exíguos, deve se efectuar campanhas de sensibilização e de apelo. Questiono aos demais, se ouviram falar de alguma exposição na temática COVID 19? O desinteresse para com esta modalidade artística já responde. Diferente da música, a arte plástica pode continuar a interagir com o público como sempre fez,   o problema é que o nosso público é estrangeiro, e eles vão retomando sim, mas gradualmente e mesmo com o retorno da actividade, haverá poucos resultados para sobrevivência. Não obstante, agradecemos o gesto e reitero que é um imperativo, introduzir pacotes de arte e cultura no pré-Universitário e Universitário, para termos daqui a alguns anos esta classe, mais entendidos na matéria, diferentemente dos actuais doutores e governantes. Ressalvo, existem poucos governantes, que apoiam e muito bem a cultura.

Para apoiar psicologicamente e socialmente, tenho divulgado na minha página de facebook Bena Filipe, mensagens apelativas e/ou de sensibilização sobre Covid19. No Dia da criança coordenei com mais três artistas, um workshop onde as crianças em distanciamento recomendado e com máscara foram desenhando escrevendo etc. O objectivo era lhes mostrar e assumir que a vida nos próximos dias será mediante a observância de normas, porém, deve ser um ensaio gradual e persistente para as crianças se conformarem com esta realidade o quanto antes. E estou a projectar um trabalho no âmbito da COVID – 19 mais dias, menos dias, poderam ver.

A obra mais destacada para mim foi serologia positiva, em que o meu mestre, após ver a obra, não efectuou qualquer correção e assumiu a perfeição desta. Foi algo um tanto quanto inesperado uma vez que o nível de exigência do meu “Mestre” era super alto.  Para Bena Filipe esse facto consubstanciou-se em crescimento e maturidade artística neste ramo das artes plásticas.

Para incentivar ao artista, o ministério de tutela, deve traçar estratégias e políticas para salvaguardar o bem-estar socio- económico da classe. É importante considerar que o artista Moçambicano vive dos seus trabalhos e a maioria não têm assegurado rendimentos regulares e satisfatórios.  A efectivação funcional da indústria criativa, tem o Governo como um importante e estratégico parceiro, sendo que em segundo plano encontramos os próprios artistas. É importante orçamentar para promover-se concursos e comprar-se obras de arte. Penso que a dinâmica do diálogo de arte, no núcleo de arte, deve sair daquelas paredes e ter uma plateia pré-Universitária e Universitária, e dos média. Apelo para que o Governo olhe para os artistas e introduza conteúdos sobre a Cultura.

Prefiro não falar em sonhos, mas de ambições.  A ambição é alcançar o auge da minha carreira artística. Quero chegar aonde o meu mestre e orientador acreditou ser possível. Tenho em foco, o crescimento inquestionável de muitos artistas plásticos que não vou enumerar todos,  dentre eles o Gonçalo Mabunda.

Questionada se podia viver na base da Arte? É difícil responder, cada dia vejo mais artistas a viverem do rendimento artístico. Não é o meu caso, que também sou funcionária pública. Outro, porém, é que os que vivem da arte tem uma ponte de mercado com o exterior.  Seria bonito dizeres vivo da arte, porque a tua pátria consome o teu produto nacional.

Já produzi varias obras de entre elas cinquenta (50) telas, e trinta e cinco (35) esculturas. A família é aquela que no princípio, não tem fé, mas apercebes-te que de repente, já estão opinando, faz assim, porquê não usas esta cor? E finalmente convencem-se e apoiam moralmente, financeiramente.

Ganhei menção honrosa, na Expo MUSARTE 2016/2017. Representei Nampula no festival Nacional da Cultura e fiz duas exposições individuais.

Para os meus admiradores se deixem levar pela Cultura e Turismo, para os fazedores sentirem o aconchego e o calor e assim, nutrirem de forma Nacional e Internacional a nossa cultura.

 

 

 

 

 

 

 

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