Preto & Branco

Após desprezar representante das Nações Unidas Junta militar alastra raio de ataques

Com o mais recente ataque da autoproclamada Junta Militar da Renamo, a um autocarro há curta distância de Inchope, junto a Estrada Nacional Numero 1, o raio de incursão destes homens armados tende a ganhar campo. E os reais interesses do seu líder, o tenente general Mariano Nhongo, ficam cada vez difusos, se se considerar que negou, semana atrás, a mediação do representante das Nações Unidas, que pretendia servir de ponte entre o seu grupo e as autoridades governamentais e, eventualmente, com a Renamo. Isto, depois de ter recusado a intermediação do Conselho Cristão de Moçambique.

O ataque de domingo último a um autocarro de passageiros, perpetrado pelos dissidentes armados da Renamo e que teve como rescaldo o ferimento grave de cinco pessoas, dentre as quais uma criança que veria a perder a vida, teve lugar numa povoação, a cerca de 5 quilómetros de Inchope, junto a EN 1, na província de Manica, zona nunca antes alcançada.

Dando fé às testemunhas citadas pela Voz da América (VOA), o autocarro foi “metralhado” em plena manhã, cerca das 06 horas, numa zona conhecida por Arco Íris, no distrito de Gondola (Manica). “De repente ouvimos tiros, no meio da agitação, eu mesmo percebi que tinha sido atingido com bala no braço”, referiu Noémio Gonçalves, um sobrevivente que esteve a receber cuidados médicos no hospital distrital de Gondola.

O autocarro fazia ligação Nampula (Norte) e Maputo (Sul), tendo pernoitado na vila da Gorongosa, de onde partiu cerca das 05 horas, e “foi atacado numa zona sem um histórico de emboscadas junto a EN1, a principal estrada que liga o Sul e o Norte de Moçambique”, vinca-se.

Ė relevante assinalar que este é o primeiro ataque que ocorre na EN1, cerca de uma semana depois do enviado pessoal do secretário-geral das Nações Unidas a Moçambique, Mirko Manzoni, para, dentre várias missões, abordar o líder da Junta Militar e intermediar os seus interesses ou do grupo que representa.  Porém, este representante internacional ficou completamente decepcionado, pois, tentativas de negociar com Mariano Nhongo redundaram em fracasso.

Interesses ocultos detrás de Nhongo

Em jeito de rescaldo das suas investidas, o enviado pessoal do secretário-geral das Nações Unidas a Moçambique, Mirko Manzoni, disse existirem grupos de interesse que podem sustentar o líder da auto-proclamada Junta Militar da Renamo, razão pela qual tem sido “inflexível nas suas posições”.

Manzoni, falando à imprensa afirmou terem fracassado todas as aproximações com vista a um entendimento, realçando que as reivindicações de Nhongo são políticas e não têm enquadramento no actual processo de desmilitarização, desmobilização e reintegração dos guerrilheiros da Renamo.

Estranho, porque este líder dissidente da Renamo, além de contestar o presidente eleito da Renamo, em congresso último desta formação política, pós morte de Afonso Dhlakama, mostrava-se aberto para negociar com o Governo, as alegadas condições condignas dos desmobilizados da Renamo, alegadamente excluídos ou marginalizados pela nova liderança da Renamo.

Pois, algumas vezes, Mariano Nhongo já se mostrou disponível para dialogar com o Governo e pôr fim aos ataques. Contudo, rejeita algumas possibilidades apresentadas, como por exemplo uma mediação sob os auspícios do Conselho Cristão de Moçambique, instituição de congregação de várias igrejas cristãs que para tal se disponibilizou em finais de Fevereiro passado.

Agora, nega a intermediação do representante das Nações Unidas, que de forma equidistante e imparcial podia muito bem interpretar e negociar os seus interesses junto ao Governo?

Por detrás da sua intransigência poderá haver interesses obscuros, estando a ser manipulado por interesses que nada tem a ver com os antigos guerrilheiros da Renamo que, na verdade, estão cansados da guerra e querem se reconciliar com as suas comunidades e famílias e resgatar do que lhes resta da vida civil e dar novo rumo às suas vidas.

Mas, como é sabido, algumas zonas montanhosas de Sofala e Manica são ricas em pedras preciosas, cujas minas, algumas que alimentavam as finanças de Afonso Dhlakama devem ainda estarem funcionais e a render para interesses da máfia e contrabando internacional, que podem estar por detrás das investidas e inflexibilidade de Nhongo para o fim das hostilidades e fim de todas formas de oportunidades que a junta militar estaria a criar com a sua existência e desestabilização, que dificulta o controlo completo do território naquelas províncias.

Exigências descabidas

Do que é do conhecimento público, entre outras coisas, a “Junta Militar” está revoltada com o líder da Renamo, Ossufo Momade, acusando-o de falhas e falta de seriedade ao negociar com o Governo dirigido pela Frelimo o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional, assinado a 6 de Agosto último. Dai exigir a destituição de Ossufo da liderança da Renamo. Algo que somente cabe à própria Renamo e seus membros com poder de voto.

Mais recentemente, a Junta Militar, segundo João Machava, porta-voz de Mariano Nhongo, citado pela VOA, além de melhores condições de reintegração de antigos guerrilheiros da Renamo, exige a demissão em bloco do presidente da Renamo, Ossufo Momade, do secretário-geral, André Magibire, e do porta-voz-da Renamo, José Manteigas.

“Nós exigimos que essas três personalidades saiam do partido e se estes indivíduos continuarem na Renamo, nada vai mudar”, reiterou João Machava.

São exigências, como pode-se aferir, descabidas, quando endereçadas a qualquer mediador, muito menos ao Governo, por tratar-se de assunto de índole político-partidário, de formação política legal e que possui instrumentos próprios de funcionamento e de eleição e nomeação de seus dirigentes.

Por outra, Mariano Nhongo e o seu grupo dizem não reconhecerem o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional, assinado a 6 de Agosto último, além de apregoar ter enviado um documento ao Governo onde exprime o seu descontentamento e manifesta abertura para o diálogo.

Que dialogo quer Mariano Nhongo e sua Junta Militar, senão perpetuar manobras dilatórias com interesses escusos?

Pode ter sido manietado por alguns membros da Renamo, que não esperavam a vitória de Ossufo para liderança da Renamo; foi usado pela Frelimo na propaganda eleitoral contra a Renamo. Actualmente, a quem interessa manter este belicista nato a destabilizar a zona centro do país, concretamente Sofala e Manica?

 

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