Preto & Branco

“Os grandes homens não ficam atrás das grandes mulheres, ficam ao lado”, refuta Gigliola Zacara

No âmbito da terceira volta de “Estado de emergência em Moçambique” conversamos  Gigliola Sarifa Da Conceição Zacara, artisticamente multifacetada afirma que, por de trás da Gigliola Zacara existe várias pessoas, homens e mulheres que de forma directa e indirecta contribuíram para o seu sucesso.

Abraçou oficialmente a arte aos 12 anos de idade. Quando ingressou para a escola nacional de dança, uma artista de intervenção social, nas suas obras podem encontrar diversas mensagens, principalmente aquelas que refletem os dilemas do quotidiano moçambicano. Claramente que a sua veia artística é uma herança progenitora, isto porque, bebeu muito da literatura, através do seu pai Aligi Zacara que desde cedo ele escreve, lê e compõe músicas ao ritmo da sua guitarra, da mãe Emília Manjate Zacara herdou a garra para nunca desistir dos seus sonhos, foi quem lhe matrícula na Escola Nacional de Dança para fazer a formação.

Para Gigliola para ser artista no nosso país é um desafio enorme pois precisa-se de grande envolvimento para que se possa valorizar “Ser artista em Moçambique é um desafio muito grande, pois, ainda precisamos fazer muito para que haja uma maior valorização do artista como parte do processo de transformação social positiva das nossas comunidades através de intervenções artísticas”, ressalva Gigliola.

E para tal salienta que é preciso que se encare a arte como um trabalho igual aos outros, não como um hobbie, haja espaço para uma profissionalização mais madura ou profunda dos profissionais das artes e dos jovens talentos que surgem dia após dia.

No parâmetro da entrevista a artista disse que de entre as dificuldades tem sido possível viver de arte e, fala por experiência própria, que vive da arte. Mas para isso é preciso uma boa estruturação e organização, manter a máquina criativa sempre activa, reinventar-se perante as adversidades da vida, como agora que estamos a passar por esta fase difícil da crise humanitária, Covid-19, mas acima de tudo, tem-se que desenvolver projectos sustentáveis á longo prazo.

“Nesta fase de confinamento associado ao estado de emergência, tem colocado ao sector das artes e cultura vários desafios, o primeiro é a manutenção dos postos de trabalho dos artistas e manutenção das organizações ligadas á cultura, como as fundações, associações, centros culturais, grupos de teatro, dança, bandas, e outras áreas artísticas numa situação difícil e até para alguns artistas, numa situação de vulnerabilidade”.

Segundo a artista Face aos novos desafios será necessária uma injecção de investimento financeiro no sector para que o mesmo consiga ter uma maior resiliência.

Há quem diga que por detrás de uma grande mulher existe um grande homem, é  o seu caso? (Risos…)

“É uma gíria interessante, por de trás da Gigliola Zacara existe várias pessoas, homens e mulheres que de forma directa e indirecta contribuíram para o meu sucesso, pessoas essas que eu as considero como referências. Agora, ao lado da Gigliola Zacara está um homem, meu esposo Osvaldo Mauze, que para além de companheiro, amigo e colega, tem sido um suporte muito grande para enfrentar os desafios pessoais e profissionais que tenho enfrentado diariamente. O meu pensamento contrário a essa gíria, pois, para mim os grandes homens não ficam atrás das grandes mulheres, ficam ao lado, de mãos dadas, caminham juntos de lado à lado”.

No entanto, ser artista não é coisa fácil neste país segundo ela, e nos induz a imaginar ser artista mulher, no feminino, onde os desafios tornam-se ainda maiores, por causa de questões ligadas a desigualdade de género e de oportunidades, estigma e direitos das mulheres nas artes. É neste sentido que é preciso ter muita coragem e persistência para se manter no sector e enfrentar todas as lutas.

Ela explica que muita das vezes o fracasso de muitas, deve-se também a pressão social e familiar, como também pela fragilidade para ter uma sustentabilidade estável, muitas delas quando se tornam mães, por exemplo, crescem responsabilidades a vários níveis, os domésticos e os financeiros e, se nesse momento o que a arte estiver a gerar em termos de renda não ser favorável, facilmente procura-se outras alternativas, que pode consequentemente levar ao desaparecimento de algumas mulheres das artes. Enfim, é isso.

Neste período da crise pandémica, para que a sociedade se consciencialize em relação as medidas de prevenção do coronavírus, ela produziu alguns documentos de sensibilização do uso e rigor das medidas.

“No âmbito da Covid -19, na área audiovisual já produzi três vídeos, um que apela o uso da máscara, um sobre ficar em casa e o terceiro sobre os impactos da Covid -19 nas vidas das mulheres e raparigas. Realizei também um filme curta-metragem sobre o meio ambiente e educação sustentável, intitulado NKWAMA, que em português significa Plástico” enfatizou.

Na área do teatro, já fez três apresentações Online nas plataformas do Centro Cultural Franco Moçambicano, uma peça Infanto juvenil intitulada “O Pequeno Príncipe”, na plataforma do Centro Cultural Moçambicano Alemão, uma peça Infanto juvenil intitulada “O Gato e o Escuro”, e na área do teatro para adultos, fez a estreia dum monólogo intitulado, Confissões da Madrugada, fruto deste período de confinamento, escreveu o texto num dia destes, inspirada pela insónia e angústia que este período nos remete. Mas para além dessas realizações, tem uma agenda de apresentações Online para os próximos meses, e projectos que serão implementados brevemente.

Zacara não é membro da Associação Moçambicana de Artistas, nem sabia que existia essa associação. Bem para ela todas as obras são marcantes para a sua carreira, por cada uma delas conta uma história sobre ela, nenhuma é mais importante que a outra, o que pode existir é aquela que teve maior distinção ou projecção em relação as outras.

Por exemplo no cinema seria, O jardim do outro homem, no teatro, Confissões da madrugada, no teatro infantil, O gato e o escuro, na dança, Moças das docas e, teve também um projecto comunitário para a criação de um musical com pessoas da comunidade, foi na Mafalala, intitulado M’FALALA.

“Para este momento, creio que a melhor forma de assistir o artista seria criar-se um fundo de emergência que visa apoiar o artista e instituições artísticas com vista a manutenção das suas actividades e manutenção de empregos” disse acrescentando que o seu sonho gostava de ter um centro cultural próprio de preferência na comunidade para beneficiar a própria comunidade se já observou a maioria traz a arte do campo para grandes cidades e para minimizar o sofrimento de novos talentos gostava de montar a industria cultural la mesmo.

Ela nunca teve apoio familiar no âmbito da sua carreira, principalmente no princípio, pois, não acreditavam que ela pudesse viver momentos de arte, sofreu muita pressão para que tivesse outro tipo de formação profissional diferente das artes, creio que isso, deveu-se as dificuldades e instabilidade do sector, daí os seus pais lhe pressionaram para deixar as artes, para abraçar uma profissão que eles julgavam mais segura. Entretanto, com muita determinação conseguiu fazer formações, nas diversas áreas artísticas e na área da Estatística e Gestão de informação, onde tem o grau de licenciatura. E sente se que hoje, os seus pais têm orgulho da pessoa que se tornou, apesar das lutas que teve que enfrentar.

“Bem, nunca recebi nenhum prémio, mas já fui nomeada para as categorias de melhor actriz principal no festival de cinema CINEPORT, no Brasil e em França quando participei do elenco de dança contemporânea com a coreografia O Olho e A Percepção, no Danse l’Afrique Danse, 6 Encontres Chorégraphiques de l’Afrique et de l’Océan indien”, mencionou.

Ela Admira bastante outros artistas em diferentes áreas por exemplo na Dança: Augusto Covilas; no Teatro: Lucrécia Paco e, no Cinema: Mel Gibson.

Nos seus tempos livres, para além de desfrutar da companhia da sua família, assiste filmes e seriados, muita leitura e pesquisa na área artística. Há bastante trabalho em vista, muitos deles são iniciativas próprias que aguardam por financiamento para poder iniciar.

Para finalizar a conversa a fonte disse que para os seus admiradores, que gostava muito de agradecer a todos, por fazerem parte da minha trajectória de vida, principalmente da minha trajectória profissional. Pois, se não fosse pelo suporte que eles dão, não seria a Gigliola Zacara que é hoje.

 

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