Preto & Branco

Caso não haja intervenção militar global nos próximos 18 meses:Caos terrorista pode tomar Cabo Delgado

– Alertam especialistas do Instituto Tony Blair

O encrudecimento e prolongamento dos ataques em Cabo Delgado, se sinergias militares internacionais não serem tomadas com urgência, poderão tornar Moçambique hospedeiro e uma das bases da mais famigerada organização terrorista do mundo, o Estado islâmico.

Esta percepção está reflectida no mais recente relatório internacional, divulgado esta sexta-feira, fruto da análise dos mais conceituados investigadores sobre terrorismo do Instituto Tony Blair.

O estudo do Instituto para a Transformação Global, fundado pelo antigo primeiro-ministro britânico, alerta para a urgência de uma intervenção perante a deterioração da situação na província de Cabo Delgado, que atribui ao grupo terrorista Ansar al-Sunna, afiliado aos extremistas islâmicos do autoproclamado Estado Islâmico.

Frisa-se que os ataques de grupos insurgentes no norte de Moçambique devem ser enfrentados a curto prazo por uma força militar regional para evitar que a situação fique fora de controlo, como acontece e aconteceu em outras regiões africanas.

Audu Bulama Bukarti, analista da equipe de coexistência no Instituto Tony Blair de Mudança Global, onde lidera o trabalho da equipe na África Subsaariana e que estuda grupos extremos na África, em particular o Boko Haram, há mais de uma década, citado pela Lusa, aponta que “esta é uma situação que pode potencialmente escalar para o que assistimos actualmente no este da Nigéria ou no Sahel se não for feito algo decisivo nos próximos 18 meses. Pensamos que está na altura de a comunidade internacional e parceiros regionais apoiarem o Governo de Moçambique na luta contra este grupo antes de a situação ficar fora de controlo”, alerta Bulama Bukarti.

“Desde os primeiros ataques em Mocimboa de Praia, no final de 2017, o grupo lança agora mais de 20 ataques por mês numa insurgência que abrange nove grandes cidades e municípios ao longo da costa de Cabo Delgado. Uma batalha pela cidade de Macomia, no final de maio, demonstrou a capacidade e ambição organizacional do grupo, além de uma escalada nos esforços contra-ofensivos do Governo”, refere o estudo.

Advogado de profissão e formado em direito islâmico e comum, Bukarti que também ensina lei e jurisprudência islâmica, estudos de paz e resolução de conflitos, considera que:“se um grupo usa armas, algumas das quais sofisticadas, e mata civis indiscriminadamente, não podemos dizer que meios militares não devem ser usados. A prioridade deve ser a mobilização de militares com recursos suficientes em termos de comunicação, informação e armas para conter a violência e impedir que o grupo mate civis inocentes e conquiste mais território”.

Neste relatório em que Bukarti faz parelha com Sandun Munasinghe, outro analista sénior daquele instituto internacional e que é analista de dados da equipe de coexistência do Instituto e lidera a produção do Global Extremism Monitor, analisa-se a evolução da actividade do grupo Ansar al-Sunna em Cabo Delgado, desde as raízes como um movimento religioso não violento até à conquista de território através de raptos, saques e assassinatos em massa.

A análise que os investigadores fazem é que esta é uma situação que tem paralelos com as actividades dos grupos Boko Haram na bacia do Lago Chade, o Jama’a Nusrat al-Islam wa al-Muslimin (JNIM) e o Estado Islâmico no Grande Saara (ISGS) no Sahel e o Al-Shabab na Somália.

Por outro lado, avançam várias recomendações a curto e longo prazo, com destaque para a necessidade de uma maior coordenação regional e internacional para combater esta ameaça, incluindo a mobilização, a curto prazo,  de uma força militar com soldados africanos, num bloco regional para evitar que a situação fique fora de controlo. Ainda a curto prazo, recomendam a necessidade de um apoio humanitário para os cerca de 200 mil deslocados.

Nas recomendações a longo prazo, os autores sugerem medidas para tentar combater as “narrativas ideológicas” dos extremistas islâmicos, que exploram questões como o desemprego, desigualdade, problemas sociopolíticos ou mesmo geográficos.

Em paralelo, dizem, o Governo moçambicano precisa de, com assistência internacional, enfrentar os factores socioeconómicos das comunidades de Cabo Delgado através de intervenções para promover o desenvolvimento, educação e emprego.

No total, os ataques dos insurgentes em Cabo Delgado, província moçambicana onde avança o maior investimento privado de África para exploração de gás natural, já causaram pelo menos 600 mortos. Dentre civis e militares e danos infra estruturais e matérias muito avultados.

 

 

 

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