Preto & Branco

“Sou igual a qualquer outro filho desta Pátria de heróis”

 O artista plástico e pintor Aurélio Almeida Manhiça mais conhecido por Amanhiça mostrou-se preocupado com a desvalorização das artes plásticas e pintura no país por parte do governo e da sociedade.  Tendo dito que algumas vezes, e não poucas, revindica o facto de deixar levar á reboques, que por uns são “puxados pelos sul-africanos”, “puxados pelos cabo-verdianos”, “puxados pelos angolanos”, tendo afirmado que o mesmo esta contra qualquer forma de estigmatização ou de auto estigmatização cultural, seja de que povo for e, em alguns momentos são mesmos que se flagelam.

JP&B. Quem é Amanhiça?

AAM. Trata-se de um cidadão moçambicano que foi registado com o nome Aurélio Almeida Manhiça, nascido aos, 6 de Maio de 1961 na cidade de Maputo, conhecido nos meandros das artes de Amanhiça. Sétimo e último filho de pais assimilados na altura. Fez a sua infância no bairro de Chamanculo.

JP&B. Quando e como abraçou as artes plásticas e pintura?

AAM. Esta é uma das perguntas um pouco difícil de responder porque entendo que cada dia vem carregado de um novo começar. Sabe, como artista tive, aliás venho tendo vários nascimentos.

Indo à sua pergunta, deixe-me tentar dar a resposta, me considero um afortunado por ter nascido e passado a minha infância no bairro de Chamanculo, naquele Chamunculo exuberante onde aos sábados a tarde havia muitas manifestações culturais. Havia lá grandes dançarinos de ngalanga, timbila, xissaizana, makwaela, marrabenta entre outras.

Isto tudo estava ali, oferecido de borla. E, como que a condimentar, tive um ambiente familiar temperada com as melhores essências de arte. Portanto, num meio impregnado com uma forte fragrância artística. Veja, o meu pai, funcionário público que tinha como hobby favorito a tecelagem de cestos de palha de uma maneira muito peculiar “temperando” aquela actividade com cânticos melodiosos que só ele sabia as fazer brotar daquela garganta. Era um espetáculo ouvi-lo a “melodiar” enquanto as minhas irmãs (duas mais velhas) uma costurava e a outra tricotava quando os meus irmãos se juntavam para executar um, a bateria e o outro a viola a solo num agrupamento musical chamado “The fingers”, (os dedos) nos primórdios da década 70. Ai eu voltei a nascer.

Em 1975, estabeleço os primeiros contactos com o mundo das pinturas através de alguns artistas paisagistas entre os quais, Moisés Simbine, Manuel Wete, este último já falecido.

Volto a nascer no ano de 1981, em Nampula, norte de Moçambique, onde conheço o Titos Mucavele que me dá apoio material e moral, Elias Manjate que, juntos criamos um grupo de interesse em artes plásticas no Instituto Industrial e Pedagógico de Nampula (IPI), onde eram estudantes.

Nesta cidade nortenha, em coordenação com os Serviços Provinciais de Cultura, sob a liderança do saudoso cantor Salvador Maurício, organizamos uma mega exposição jamais vista naquela cidade, no âmbito das celebrações do vigésimo quinto aniversário do início da Luta Armada de Libertação de Nacional que juntou os grandes da época. Falo do Amanhiça, na altura conhecido por Relim, Carlos Bonete, Elias Manjate e o Joaneth que teve como palco o Museu de Etnográfico de Moçambique.

Volto a nascer em 1986, já de regresso a Maputo, participando em vários estágios artísticos no Núcleo de Arte. Neste contínuo nascimento, descubro-me produzindo escultura metálica tendo como recurso material os desperdícios oficinais da escola onde sou docente. E continuo nascendo, nascendo, enfim nascendo,…

JP&B. O que “é ser artista plástico (pintor) em Moçambique”?

AAM. Se calhar dizer que, como artista plástico, eu sou tão igual a qualquer outro filho desta Pátria de heróis! Porém, é, muitas vezes, vislumbrar um começo num lugar onde os outros vêm o fim.

Inspiro-me no quotidiana socio-ambiental em que estou inserido, as pessoas com as suas alegrias e suas incertezas, os pássaros, o mar, os rios, as árvores, a poluição, o rufar dos tambores, o som das timbilas,

Com a minha arte também me junto àqueles que lutam pela preservação do mais belo da moçambicanidade, as nossas danças, a nossa gastronomia, as nossas histórias, enfim a nossa essência.

Algumas vezes, e não poucas revindico o facto de deixarmo-nos levar á reboques! Sim, reboques, uns “puxados pelos sul-africanos”, outros, “puxados pelos cabo-verdianos”, outros “puxados pelos angolanos”, etc. Sabe, alguns vão á reboques” mesmo!

Sou contra qualquer forma de estigmatização ou de auto-estigmatização cultural, seja de que povo for! Nalgum momento somos nós mesmos que nos flagelamos.

JP&B. É possível viver de arte em Moçambique?

AMM. Depende. Nunca nos devemos desligar da alegria de sermos nós próprios os autores do nosso futuro porque ninguém tem a capacidade de sonhar por outro.

Sim. Quando se deixa de cobrar dos outros aquilo que eu sonhei!

Sim. Quando se deixa de depositar em mãos alheias as espectativas que você próprio não consegue gerar para si mesmo!

Para tal basta um pequeno exercício de disciplina que só requer humildade. Aliás, este exercício se requer para qualquer área de actividade. É errado e faz sofrer quando alguém, por exemplo, que é professor e quer viver como um chapeiro ou seja lá o que for menos aquilo que ele é.

JP&B. No âmbito do confinamento associado ao Estado de Emergência vários sectores enfrentam uma verdadeira crise. Para o caso vertente que desafios se colocam para a arte e cultura?

AMM. É um enorme desafio para todo o tecido social nas suas múltiplas facetas. Esta pandemia não deu tempo á ensaios. De repente vimo-nos num barco que partiu as amaras e embrenhou-se num mar enfurecido sabe-se lá por que deuses.

É mais uma aprendizagem para todos nós. Para a classe a que pertenço, o desafio é mais acrescido no sentido de que existe um enorme risco de, alguns de nós, engrossem as fileiras daqueles que já haviam resvalado para o lado dos que produzem qualquer coisa a que apelidam-na de obra de arte para assegurarem o pão do dia-a-dia. Essa, para mim, é que poderá vir a ser a enorme catástrofe se olharmos a coisa no sentido de qualidade. Por outro lado, cabe a nós, artistas, tomarmos a vanguarda na demonstração de que esta calamidade humanitária também vem carregada de um mar de oportunidades, provar, por actos concretos que este não é o fim senão uma transição para um amanhã mais risonho para todos.

JP&B. Que tipo de realizações tem feito apoiar psicologicamente e/ou socialmente os seus admiradores no âmbito da COVID – 19?

AMM. É um pouco complicado isto. Fomos todos apanhados de surpresa e, como artista plástico para com os meus admiradores me sinto no dever de os encorajar através do meu trabalho. Olha, não parei de produzir, sobretudo neste período de emergência. Se me perguntar por que não parei a resposta será: Pinto e esculpo, hoje, porque acredito que no virar da esquina, que espero que esteja para breve, há um mundo maravilhoso que nos espera. Porém, a atitude de cada um é chamada a fazer medida de contrapeso nesta balança.

JP&B. É membro da Associação Moçambicana de arte?

AMM. Sim. Sou membro de pleno direito do Núcleo de Arte, sedeado em Maputo.

 JP&B. Qual é a obra considerada como marco da sua carreira?

AMM. Como disse anteriormente, como artista venho tendo vários nascimentos e qualquer um deles é único, sabe! Mas, para não parecer indelicado deixa-me dizer, espero que os outros nascimentos me perdoem, o que me marcou não pode de modo algum se resumir numa obra mas sim numa accão que foi a organização de uma mostra em celebração dos 25 anos do início da Luta Armada em 1985 em Nampula. Olha esta foi a maior exposição que Nampula jamais testemunhou pela dimensão e pela qualidade do trabalho ali apresentado. Isto implicou que o museu Etnográfico de Moçambique desmontasse a mostra permanente para acolher aquela exposição. Foram várias individualidades a nível da província que testemunharam esse momento.

JP&B.  O que se pode fazer para assistir o artista?

AMM. Uma das condições primordiais para o artista em qualquer parte do mundo se sair bem tem a ver com meios de trabalho. É verdade que não podemos esperar que as condições caiam do céu. Cada um com a sua disciplina, sua entrega abnegada vai criando e ganhando espaço necessário para ele poder fluir e evoluir como artista. A minha avó dizia que de madrugada há um pássaro que passa e distribui a riqueza aos que naquele período do dia já se encontram lá fora a trabalhar.

JP&B. Qual é o grande sonho do artista Amanhiça?  

AMM. Um dos sonhos, no contexto da globalização, é ver o nosso lugar bem vincado no concerto das nações através das nossas danças, nossos ritmos, nossos cantores, nossa oralidade, nosso caminhar, nossos cheiros, enfim nós mesmos ali, nus, despidos desta poluição cultural em nome da globalização. Sabe, a moçambicanidade é uma construção diária e dinâmica na qual cada um tem que dar o seu contributo para preservação dos nossos valores. Para eu ser moçambicano tenho que estar identificado com as raízes.

JP&B. Quantas obras já produziu?

AMM. Nem eu sei! Só neste primeiro trimestre já tenho aqui cerca de 9 esculturas metálicas, 7 telas e em 4 décadas de trabalho árduo imagine…perdi a contagem. Olha, não interessa muito o quanto já produzi, se calhar a maior parte é aquela que é calada. Não há tempo para contas. Obras que são vistas, que andem que falem são várias. Olha eu sou uma obra de arte também (risos).

JP&B. Tem beneficiado de apoio familiar no âmbito da carreira?

AMM. Certamente que sim. É preciso perceber que não sei se o atelier está em minha casa ou a minha  casa no atelier. Há uma relação de cumplicidade ali que extravasa tudo. A família está lá no meio daquilo tudo ou aquilo tudo no meio da família. O interessante aqui é o equilíbrio e a convivência harmoniosa que existe entre as duas existências. Estão lá algumas provocações quando trabalho e há respostas por parte deles. Por exemplo por parte da Khuma que é minha filha mais nova já esta dando ai alguns passos e o meu netinho que também já pega no pincel. Acho que vem ai um grande artista.

JP&B. Alguns prémios conquistados?

AMM. Um dos grandes prémios é o reconhecimento por parte da família, do público e não posso deixar de me referir ao 2o Prémio do concurso Novos talentos (Horizonte Arte Difusão) em 1990.

JP&B. Que artistas o inspiram?

AMM. A grande referência é o grande mestre Malangatana, o Ídasse, entre outros.

JP&B. Como tem preenchido os tempos livres?

AMM. Oh…gosto do mar, gosto do mar., no verão então não tiro o pé do chinelo. Ofereço o meu corpo ao sol, mas também gosto de ler bons escritores moçambicanos e para temperar os momentos de atelier um blues ou um jazz. Estes géneros musicais alimentam a minha alma de verdade.

JP&B. Algum trabalho a vista?

AMM. Esta situação de emergência imposta pela COVID-19 vai impactar muito negativamente nos compromissos que eu tinha com o meu público. Para este ano estão (estavam) agendadas duas amostras, um das exposições referentes aos 30 anos do grupo dos 5 (neste caso, Amanhiça, Elias Manjate, Latembe, Marcos P’fuka e Segá), estava marcado para Setembro próximo no Centro Cultural Brasi l- Moçambique e uma outra na Fundação Leite Couto desta feita envolvendo o Marcos P’fuka e  Elias  Manjate, mas  pronto como se sói dizer enquanto  houver  arte  a  esperança não tem espaço para  morrer. A arte é que faz viver a esperança.

JP&B. Uma mensagem para os seus admiradores.

AMM. Uma das grandes mensagens para os meus admiradores é de que esta coisa da COVID -19 brevemente vai passar. Porém, cada um é chamado a fazer a sua parte para o bem de um todo, observando as recomendações emanadas pelas autoridades. Há muita arte para mostrar depois disto passar, sabes! Então mantenham-se em segurança!

 

 

 

 

 

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