Preto & Branco

Polícia tortura e “rouba” a prostitutas

A pretexto da vigilância do Estado de Emergência, alguns agentes da Polícia da República de Moçambique (PRM), num acto de flagrante oportunismo, extorquem dinheiro e se apropriam de bens de trabalhadoras do sexo, vulgo prostitutas, e em caso de recusa são, amiúde, agredidas, incluindo violação sexual.

 Estas denúncias chegam da província de Manica, onde os homens da Lei e Ordem são acusados, inclusive, de se introduzirem nas casas das prostitutas vítimas na calada da noite para perpetrar os seus desmandos.

Segundo mulheres entrevistadas pela DW África, quando os polícias escalam as suas residências, arrombam as portas recolhendo-as para a esquadra mais próxima. Só escapa quem tiver dinheiro para dar.

“Costumam perseguir e recolhem [os nossos pertences]. Eles falam que, se não queremos dormir nas celas, temos que tirar ‘dinheiro de refresco’. Alguns [polícias] costumam abrir portas à força e levar dinheiro. Outros, levam as mulheres até as esquinas, fazem sexo, não dão nada, e devolvem-nos”, conta uma profissional de sexo identificada por Isabel S. e citada pela DW

Esta entrevistada acrescentou ainda que os polícias costumam chegar por volta das 17horas, impondo restrições ao trabalho. ” […] às 17 horas ou 18 horas, já estão aqui a nos proibir, e quando entramos, rompem a porta e nos batem lá dentro de casa”, desabafou.

Cristina L., outra prostituta, relata que quando os polícias chegaram, ela dormia com a filha. Ordenaram que abrisse a porta, mas ela negou. Os homens então partiram a porta. Ao entrarem, disseram-lhe que fosse até a esquadra. “Quando chegam aqui, pegam-te e dizem: ‘dorme aqui’ e te dão chambocos”.

COVID-19 retrai clientes 

As mulheres abordadas contam que o movimento reduziu de forma significativa com a aparição da pandemia da Covid-19, o que torna a vida e o negócio delas difíceis. “Não há movimentação, pois quando os homens vêem a presença policial, fogem. Ninguém vem mais. Imagina, eles chegam às 19 horas e você tem apenas 50 meticais. Tiras o valor e entregas, temendo ir à esquadra. Que vantagem você vai ter?”, questionou uma das mulheres em Chimoio.

Luís J., um dos jovens que frequenta aquelas esquinas, quando abordado pela DW Africa condenou a atitude da polícia e pediu a intervenção das instituições competentes para solucionar o sofrimento das trabalhadoras.

“Quando [os polícias] encontram as mulheres com um homem, levam o homem que estiver com ela para fora e batem nele. Esse comportamento é negativo, pois muita gente vive disso” – condenou.

Por outro lado, Moisés Fome Niparange que é proprietário de uma das casas arrendadas pelas prostitutas revelou que a polícia tem “troturado” as trabalhadoras do sexo, algo que não se pode fazer. “Na minha casa, já entraram e arrancaram telemóveis e dinheiro de uma das minhas clientes”, relatou

Este proprietário argumenta ainda que “a polícia tem que desempenhar o seu papel de fiscalizar. Quando deixa de fazer isso e passa a entrar nos quartos, levar telefones e dinheiro, já não é a lei. Será isso o que falou o Presidente da República? Os polícias estão a trabalhar muito mal mesmo”, desabafou.

Mão á palmatória

Por seu turno, o chefe do departamento de Relações Públicas no comando provincial da Polícia da República de Moçambique (PRM) em Manica, Mário Arnaça, congratulou a coragem das trabalhadoras do sexo em denunciar os comportamentos desviantes dos polícias.

Arnaça disse que os problemas enfrentados por essas mulheres serão solucionados a curto prazo. “Recebemos a reclamação e vamos tomar medidas severas contra os agentes que fazem serviços à margem da lei”.

Contudo, este agente da PRM, asseverou que a polícia vai aumentar esforços no sentido de observar o cumprimento das medidas de prevenção contra a Covid-19. “A presença policial neste local vai ser crucial para observar se as medidas de prevenção contra a Covid-19 estão a ser cumpridas. Não havendo o cumprimento, a polícia terá que agir”, explicou.

“Vamos apertar o cerco – tolerância zero contra o incumprimento das medidas de prevenção da Covid-19. O erro de um é fatal para todos”, disse a fonte policial.

Recentemente, a polícia anunciou ter desmantelado mais de 70 prostíbulos e dispersou dezenas de prostitutas que operavam em vários pontos da província. Entretanto, disse que durante a operação nenhuma trabalhadora do sexo foi detida em virtude de não terem oferecido resistência, e por não terem desobedecido as ordens de dispersão.

 

Adicionar comentário

Leave a Reply