Preto & Branco

Empresariado não tem cultura de reciclagem

A JICA desembolsou 5.2 milhões de dólares um para projecto-piloto na cidade de Maputo. Na sequência de reportagens acerca da valorização e comercialização de resíduos sólidos, vulgo lixo, na cidade de Maputo, entramos em contacto com a Agência de Cooperação Japonesa (JICA), que desde 2013 está a financiar e capacitar técnicos do Conselho Municipal da Cidade de Maputo, num projecto que visa melhorar o manuseamento e tratamento de resíduos sólidos, enveredando pela reciclagem. O oficial do projecto, a nível da JICA, Stélio Massuque, quem garantiu que o projecto centrado a nível da direcção de Salubridade, poderá ser estendido para 10 anos, numa parceria tripartida, Japão, Brasil e Moçambique, considera que o empresariado nacional ainda não tem cultura de reciclar os resíduos sólidos, fazendo negócio rentável, como acontece no Japão e Brasil.

Segundo apuramos, este projecto de capacitação para a recolha e tratamento de resíduos sólidos a nível da cidade de Maputo, através de uma parceria com o Conselho Municipal de Cidade de Maputo (CMCM), concretamente através da Direcção da Salubridade, está orçado em 5.2 milhões de dólares norte-americanos para o projecto-piloto, que tendo arrancado em 2013 tem a duração de cinco anos, susceptível de renovação por igual período.

Concretamente, o oficial do projecto, Stélio Massuque, explicou que o projecto incide em proporcionar assistência técnica aos quadros da Direcção de Salubridade em matérias de segregação, reciclagem e campanhas de sensibilização. Por outro lado, foram alocados peritos para capacitar os técnicos em matéria de finanças e voluntários para compostagem e para ensinar as comunidades como fazer a reutilização dos resíduos sólidos, transformando-os em fertilizantes de solos.

Segundo este interlocutor, o projecto está em implementação em todos os distritos municipais, com excepção de Catembe e Inhaca, numa primeira fase, havendo actividades a ser replicadas nos vários bairros. Sobre a iniciativa, Massuque referiu que a mesma surge da experiência que o Japão tem no tratamento de resíduos sólidos. “Os japoneses são eficientes no que tange a sagração do lixo e direccionar a um determinado local. Aliás, Japão e Brasil, ambos são avançados em tecnologia em matéria de segregação e reciclagem”, aludiu.

Mil habitantes para somente um contentor

Quando questionado sobre a capacidade de resposta perante a cada vez crescente demanda de lixo na capital do país, o oficial da JICA aflorou que a densidade populacional aumentou e as condições continuam as mesmas. “Sem querer falar de política, houve tempos em que o Município tinha pujança para gerir o lixo, mas os recursos de que dispunha já não constituem a real resposta da demanda para o actual estágio, particularmente no que toca aos aterros sanitários que estão saturados”, explicou.

Disse ainda que, qualquer decisão a ser tomada no contexto da gestão dos resíduos, caso se ignore a dinâmica da população o lixo irá sempre exceder às expectativas. “Em certas artérias da cidade existem contentores com capacidade para um universo de cem pessoas e para a situação actual são mil habitantes que precisam de depositar o lixo no mesmo, consequentemente, ficamos com muito lixo espalhado a volta. Deve ficar bem claro que a pessoa humana é a geradora do lixo, logo, não deve haver um desequilíbrio entre lixo versus população”, frisou.

Olhando para o país, num todo, apontou que as medidas nacionais acerca das lixeiras concebidas para 25 anos não conferem com a realidade actual, porque a população aumentou significativamente e, por outro lado, o processo de reciclagem é novo em Moçambique.

À pergunta se a questão da má gestão do lixo teria conexão com questões culturais, Massuque distanciou-se, dizendo que “talvez as pessoas não encontram o local apropriado. À semelhança de quem quer urinar, percorre alguns passos sem encontrar uma casa de banho, acaba encostando numa árvore, afinal, é uma questão biológica. Todavia, devo admitir que o número de contentores na cidade de Maputo aumentou em relação a ontem”, ressalvou.

Sobre o desafio de melhor gerir o lixo na capital, avançou que técnicos da Salubridade tem viajado para Japão e Brasil para ver o que lá é feito, para de forma conjunta propor-se o que é adequado para Moçambique e seguidamente financiar-se. Porém, ressalvou que “nós não somos implementadores, o desejo é superar esta crise, embora não seja comum um financiador traçar políticas, quando somos apresentados um problema pelo governo, ambos sentamos, estudamos e apresentamos soluções, depois destas experiências esperamos que o país seja auto sustentável ao longo do tempo”, acrescentou.

Empresariado não tem cultura de reciclagem

Acerca do negócio do lixo, referiu que foi doado uma estação de segregação de resíduos sólidos no bairro do Zimpeto onde recebe-se qualquer resíduo sólido reciclável e está lá alguém para comprar e, este, por seu turno, faz a revenda para os agentes.

No entanto, explicou que “não recebemos resíduos orgânicos que resultam da cozinha, mas capacitamos as populações em matéria de separação e tratamento destes em suas casas. Têm peritos que explicam o que pode ser feito a partir destes, sobretudo fertilizantes para a prática da agricultura, é comum haver uma horta em cada casa”, aludiu.

Apontou que, no âmbito do projecto trabalha-se também em parceria com a Universidade Eduardo Mondlane (UEM). “Estudantes têm apoiado para fazer monitoria em vários locais onde doamos equipamento para o processo de produção de fertilizantes, fazem supervisão para aferir se a população acata ou não as orientações dadas. Ė um equipamento simples, como balde, fazem um furo a medida que vai-se decompondo vão lá ver se tem o tal teor para se tornar no vulgo adubo”, explicou Massuque.

Contudo, a nível nacional a valorização e a procura de material reciclável, é quase nula, não é dado valor, considera este oficial, com experiencia na área de reciclagem de resíduos sólidos. “Por exemplo, é difícil encontrar o destinatário das garrafas, ninguém quer comprar, porquê não sabemos. “O nosso empresariado não tem cultura de reciclagem”, ajuizou, para de seguida acrescentar que “temos muitas garrafas que não voltam as fábricas e parece-me que pode ser lucrativo para as organizações, porque são obrigadas a voltar a produzir novos recipientes. Não conseguimos perceber, temos muita lata na rua e ninguém quer recolher para vender, o que não acontece noutros países, onde quem comercializa determinado produto quer de volta as embalagens ou lixo à semelhança da garrafa, pilha velha, lata, lixo electrónico, por aí”, ilustrou.

O Japão produziu viaturas com ferro reciclado

Num outro desenvolvimento, o oficial da JICA, Stélio Massuque, revelou que, no passado, o Japão recolheu muito ferro [em forma de sucata] no nosso país para ser reciclado, “hoje temos muita Toyota em Moçambique que foi produzida através dos resíduos reciclados no Japão”, frisou.

Apontou ainda que 98 por cento da matéria-prima usada no Japão vem de fora, porque não tem recursos, “mas nós temos pequenas e médias empresas, porquê não levam o mesmo resíduo para reciclar”, questionou, frisando adiante que “é motivo para admitir não haver cultura de reciclagem”.

Apresentamos a questão em debate na actualidade internacional, sobre o poluidor-pagador, onde se defende que quem vende um determinado produto deve ser responsável pela recolha dos resíduos ou é taxado. Para o caso doméstico quisemos saber de Massuque, se a exemplo de tanques, tambores e bidões contendo produtos com etiquetas “danger” que entram no país, será que têm sido fiscalizados pelas Alfândegas ou pela Salubridade?

“Bom, cada um pode ir buscar o que bem precisar fora do país, mas a questão é interna, para gerir esta situação, cada um é responsável, mas a sensibilização devia estar lá”, explicou.

Sobre o comportamento de pessoas que consomem bebidas alcoólicas nas praias e deitam os recipientes em qualquer lugar, o nosso interlocutor considerou tal como questão cultural, porque em locais públicos e abertos não se deve beber como temos assistido. “Temos programas radiofónicos e estou convicto que as pessoas do meio urbano são capazes de estar mais informadas que o pessoal de campo pelo que não é a falta de conhecimento”, considerou.

No cômputo geral, Stélio Massuque considerou que a lei ambiental é nova em Moçambique e é preciso tempo para assimilar e que o ordenamento territorial nas zonas urbanas não facilita para quem deve remover resíduos sólidos, por falta de vias de acesso.

“Encontramos todos níveis sociais num único bairro, há quem tem viatura para carregar o seu lixo até ao contentor, mas em contrapartida temos um que deve percorrer essa distância a pé. As pessoas criam animais domésticos à semelhança de cabrito em centros urbanos o que compromete a componente ambiental. Temos um exemplo cadente de disparidade na regularidade de recolha do lixo nos bairros Polana Caniço e Somershield, são bairros vizinhos, mas sem mesma regularidade”, referiu, numa alusão de que na zona de cimento há mais prioridade que a suburbana [Polana Caniço].

Em jeito de epílogo, referiu que “esperamos que findo os primeiros cinco anos estaremos em condições de elaborar um plano directório de gestão de resíduos sólidos em conjunto com o Conselho Municipal da Cidade de Maputo que será submetido a edilidade para a sua aprovação”, avançou.

 

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