Preto & Branco

Sobre a Dupla Prorrogação do Estado de Emergência

Desde que o Presidente da República decretou o Estado de Emergência e a subsequente prorrogação por duas vezes, o país registou um crescimento dos casos de contágio pelo vírus SARS Cov-19 particularmente em dois pontos: Cabo Delgado e Nampula, esta última tendo atingido o chamado contágio comunitário.

Mas qual é a causa primária do aumento exponencial dos casos de contágio apesar das medidas restritivas impostas? Apesar de não haver país no mundo completamente preparado para fazer face ao contágio pelo coronavírus, há dimensões importantes que podem explicar as dificuldades que países como o nosso enfrentam para implementar com sucesso as medidas preventivas, especialmente no tocante ao distanciamento social.

Em Moçambique ficou claro que o distanciamento social é praticamente impossível nas comunidades congestionadas. O distanciamento social é extremamente difícil quando vive-se em bairros e residências apinhados. Quando a pobreza é dilacerante é muito difícil convencer as pessoas a não irem trabalhar, e isso significa que elas espalham o vírus. É igualmente difícil manter as crianças em casa quando se sabe que muitas são elas mesmas chefes de agregados familiares ou são as que providenciam o sustento das suas famílias e isso não constituiu novidade para as autoridades e para todos nós enquanto sociedade.

A polícia e outras instituições parecem ter como foco principal as barracas e locais de consumo de bebidas alcoólicas e ignoram locais como mercados (particularmente informais) onde se grandes concentrações de pessoas sem a observância de quaisquer medidas de prevenção. Um breve olhar por ‘mercados’ como Xikeleni, Zimpeto, Xipamanine, Waresta, Maquinino, etc., qualquer um pode tirar as suas conclusões.

Outra dimensão importante e aparentemente negligenciado é o meio rural. Parece que o foco das autoridades cinge-se mais aos centros urbanos. Não há registos e informação sobre a manifestação da pandemia nestes espaços. É nestes espaços onde a desnutrição e a pobreza são geralmente generalizadas. A lavagem regular e vigorosa das mãos é muito difícil quando não se tem água e sabão disponíveis.

Enfim, apesar das graves consequências económicas ainda é muito cedo para dizer qual será o impacto a longo prazo das medidas nacionais de emergência para combater a disseminação do coronavírus apesar das medidas de apoio à política fiscal anunciada pelo governo.

Mas uma coisa é certa: com o sistema de saúde mal equipado e economia vulnerável, dependente de indústrias como o turismo e extractiva ressentem-se. Os cenários de instabilidade política e agitação social apresentam riscos adicionais à medida que o coronavírus se espalha.

 

 

 

 

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