Preto & Branco

Boa gestão da carreira artística pode proporcionar sobrevivência consistente em Moçambique

Assim como pode acontecer a quem lhe for perguntado se seria possível viver de certa área, a resposta nunca vai ser de boa natureza, mas, na verdade é que com boa gestão de qualquer carteira profissional pode sim sobreviver olhando para o que a nossa fonte debruça sobre a arte em Moçambique e numa altura em que o país atravessa uma crise humanitária.

Talento é uma arte em todo mundo e arte é uma imitação a natureza mas também, uma abordagem do impossível, o irracional e o inverosímil e que completa o que falta na natureza. Entretanto, a valorização da cultura artística tem sido uma das primeiras barreiras e a tenra idade, o filósofo Aristóteles considerava que a arte é a criação humana e o belo não pode ser desligado do homem, já que ele está em nós, é uma fabricação humana. Nesta vertente aristotélica, urge a necessidade de todos cidadãos de qualquer nação a valorização do trabalho dos artistas diversos segmentos de abordagem.

Para tal, Jornal Preto e Branco conversou com Marcos P’fuka de nome artístico para sabermos da sua história do seu trabalho artístico na arena da arte plástica e pintura.

JP&B. Quem é Marcos P’fuka?

  1. MP. Marcos P’fúka é o nome artístico de Artur Valente Matavele, cidadão nacional nascido em Maputo. Alguns perguntam, o que significa o nome. A resposta é que as marcas da cultura (Marcos) não morrem, ressuscitam sempre e se vigam (P’fúka). A cultura de um povo não morre, naturalmente, ajusta-se aos tempos e aos contextos.

JP&B. Quando é que abraçou as artes plásticas?

Tenho a felicidade de ter nascido numa família em que a arte sempre esteve presente. Na família teve estilista, tem realizador de cinema, tem DJ e artista plástico, mas todos desenha(va)m e pinta(va)m um pouco acima da média das pessoas comuns. O ambiente da família fez com que eu, na escola, me inscrevesse no que era chamado círculo de interesse de desenho e pintura, em tempos, ciclo preparatório para o ensino secundário. Portanto foi na 5ª e 6ª classes que tudo começou.

Com a independência, fiz parte do Centro Político Cultural da Juventude da FRELIMO onde além de dança, dinamizei os trabalho de ornamentação (pintura de dísticos, murais com palavras de ordem de então), foi daí que com mais nove (9) camaradas jovens fiz parte da Comissão Nacional que era encarregue de pintar e ornamentar a cidade de Maputo quando chegassem chefes de estado ou, nas datas comemorativas. Por essa via, tive o privilégio de participar, com esses nove (9) jovens, na pintura do Mural da Praça dos Heróis Moçambicanos em Maputo sob orientação do mestre José Craveirinha.

 

A sorte sempre me acompanhou, fui estudar no Instituto Agrário do Chimoio de 1979 a 81, conheci e convivi com gente amante da cultura, tínhamos um departamento de cultura muito bem organizado, lembro-me que foi lá que pedi ao Helder Muteia, que escrevia poesia que a capa do seu primeiro livro devia ser com um desenho meu, e assim foi. Fiz a capa do primeiro livro de poesia do Helder a Verdade dos Mitos.

 

JP&B. Que mensagens podemos encontrar nas suas obras?

  1. A mensagem principal é sobre a preservação da cultura. Quando digo preservação não quero dizer aprisiona-la, manter a cultura parada ou fechada. A minha mensagem é de preocupação com a nossa “subalternização” como cidadãos do mundo. Nós temos o dever e o direito de participar como sujeitos dignos na construção deste mundo que também nos pertence. Muitas vezes como Moçambicanos/africanos, colocamo-nos numa posição de esperar que alguém nos diga o que devemos ou não fazer. Algumas vezes quando coloco estas minhas ideias as pessoas percebem-me mal, pensam que estou contra a globalização, mas não é isso. Olha, se te convidam a uma festa e dizem traga algo como contribuição, traga aquilo que poderia ser para seu almoço, por exemplo; haverá aquele que até, por falta pode trazer água. É água, mas é o que tem e é uma contribuição. Ora, se nós somos partes desta festa, na aldeia global, qual é o nosso contributo? Ou, por outra, porque é que muitas vezes achamos que o pouco que temos não pode ser contributo para a festa? Portanto, a minha principal mensagem é que devemos nos orgulhar do que somos e mostrar ao mundo que somos membros úteis na construção da raça e cultura global.

JP&B. O que é ser artista plástico em Moçambique?

  1. Ser artista plástico, ser pintor em Moçambique acho que é como ser artista em qualquer parte do mundo, é procurar dizer ao mundo que há um mundo além do mundo.

JP&B. É possível viver de Arte em Moçambique?

  1. Esta pergunta, muitas vezes, quem a faz quer ouvir dizer que não é possível. Que viver de arte em Moçambique, nem pensar. Mas, sem querer ser mal-educado, posso perguntar: Em Moçambique pode se viver de enfermagem? Pode-se viver de professorado? Etc. de profissões. A resposta será muito parecida com a do artista.

O que acontece é que nós queremos nos comparar com uma realidade que não é a nossa e, ficamos frustrados quando vemos que um pintor europeu tem estabilidade financeira ou, que um artista brasileiro ou norte americano trabalha sem se preocupar a comida do a dia. Portanto, cada um deve se organizar de acordo com o seu contexto, com os seus rendimentos de acordo com o seu foco. Se um enfermeiro que trabalha por vocação e amor ao seu trabalho faz boa gestão do que recebe consegue viver, dentro daqueles rendimentos, se ajusta. Naturalmente, como humanos desejamos sempre mais. Um artista que trabalha por amor a arte, tem talento, tem disciplina, tem foco, faz boa gestão da sua carreira e dos seus rendimentos, pode viver da arte sim. Sei que é difícil, como é para qualquer moçambicano, mas é possível.

JP&B. No âmbito do confinamento associado ao estado de emergência sectores enfrentam uma verdadeira crise. Para caso vertente, Arte/cultura que desafios coloca?

  1. De facto a crise na área da cultura é grande. A emergência da COVID -19 agrava a situação da cultura, principalmente, das artes plásticas. Nós artistas (Artes Visuais) vimos perdendo já há algum tempo. Os nossos “ricos” e influentes tem pouca visão das artes. Quando se fala da cultura moçambicana, hoje em dia, fala-se de música. Quando se fala dos artistas fala-se dos músicos. Infelizmente.

Penso que corremos um grande risco de sermos “anonimados”, ficarmos apagados, esquecidos de vez, se não levantarmos a cabeça e gritarmos no sentido do mundo nos ouvir. O novo-normal pós confinamento vai ser mesmo uma nova forma de viver em que vai ter mais valor a vida material (dinheiro para alimentação do corpo) do que o alimento da alma, o cultivo do ser humano como um sujeito/agente de desenvolvimento que só é forte quando tem identidade e quando for capaz de defender essa identidade, porque de contrário pode se vender por um prato de comida.

JP&B. Que tipo de realizações tem promovido para apoiar, psicologicamente, seus admiradores no âmbito de covid19?

  1. Estamos numa situação em que todos ficamos afectados, eu próprio preciso de entender e me ajustar a nova realidade. Tenho procurado na medida do possível pelas plataformas digitais passar a mensagem de que ainda não é o fim, temos que ter esperança, mas principalmente, temos que ir pensando como vamos encarar a vida para sermos mais fortes no futuro.

JP&B. É membro da Associação Moçambicana de artes?

  1. Sim, sou membro do Núcleo de Artes, em Maputo.

JP&B. Qual é a obra considerado marco na sua carreira?

Acho que para qualquer artista a primeira obra reconhecida em público é o principal marco, porque aí diz, a sociedade me aceita como artista. Por isso, para mim a primeira menção honrosa no concurso de novos talentos organizado pela Horizonte Arte Difusão foi marcante. Mas, não deixa de ser importante a primeira exposição individual que foi no Banco de Moçambique em Maputo, na altura o governador era o Dr. Comiche.

JP&B. O que se pode fazer para assistir um artista?

  1. Há vários aspectos concorrentes para que isso aconteça: 1. O próprio artista, a sua disciplina de trabalho, suas ambições, o seu foco; 2. A educação sobre as artes na sociedade, qual é o lugar das artes na nossa sociedade, no nosso processo de reprodução social; 3. A legislação que proporciona um ambiente para o desenvolvimento das artes, isto é, a criação de mecanismo financeiros que incluem direitos, deveres e penalizações para iniciativas de arte. Quando se fala de finanças, o que as pessoas dizem, mas o nosso país é pobre, não tem dinheiro. A minha resposta é: Moçambique ou nenhum país tem falta de dinheiro, mas tem falta de capacidade de definir com clareza o seu caminho, firmeza de o seguir e respondendo paulatinamente as prioridades que definiu.

JP&B. Qual é o grande sonho do P’fúka?

  1. O meu sonho é ver marcas da cultura moçambicana na cultura global.

JP&B. Quantas obras já produziu?

  1. Resposta difícil, mas posso dizer que no primeiro trimestre deste ano produzi um pouco mais de 20 obras.

JP&B. Tem beneficiado do apoio familiar no âmbito da sua carreira?

  1. Tenho sim, a minha esposa, meus filhos meus irmãos têm me apoiado bastante. São os meus primeiros críticos.

JP&B. Alguns prêmios conquistados?

  1. Como disse anteriormente, tive como primeiro prêmio a menção honrosa no concurso de novos talentos; Menção honrosa na exposição anual de Museu Nacional de Artes; tive dois prêmios na Bienal de TDM um de desenho e outro de pintura.

JP&B. Que artistas o inspiram?

  1. O primeiro artista que me inspirou foi o meu irmão, já falecido. Devo a ele a energia de ser o artista que sou hoje. Naturalmente, Malangatana, Idasse, Naguib são, para mim, a “luz” de quem quer ser artista.

JP&B. Como tem passado os tempos livres?

  1. Gosto de ler. Leio sobretudo livros sobre a história de desenvolvimento. Agora com o confinamento, jogo futebol no quintal com o meu filho mais novo.

JP&B. Algum trabalho em vista?

  1. A emergência da COVID-19 veio complicar os planos traçados para o ano 2020. Este ano, no início, lancei bases para trabalhar com as crianças da escola do bairro onde vivo, mas teve que parar. Mas acredito que logo, logo que reiniciarmos, no novo-normal vou retomar.

Este ano tenho plano de participar em 2 exposições coletivas agendas para o segundo semestre, mas com esta situação, as galerias vão, naturalmente, calendarizar, não sei como será. Mas, enquanto houver vida há cultura.

JP&B. Uma mensagem para os admiradores.

  1. A principal mensagem, agora com a COVID-19 é de que cada um deve cuidar-se para que a beleza da cultura moçambicana possa ser a cereja no topo do bolo na festa da aldeia global que todos somos membros de pleno direito e dever.

 

 

 

 

 

 

 

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