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COVID-19: A desobediência de protocolos pode basear-se numa falsa sensação de imunidade

Como podemos encarrar a pandemia e avanços como sociedade a semelhança de alguns países que conceberam em séculos passados. Para melhor compreender esta situação conversamos com Ergimino Mucale, filósofo, investigador e docente pela Universidade Eduardo Mondlane que disse o seguinte a nossa reportagem. ”Com calma e o bom-humor tradicional alerta sobre o egoísmo, o caráter ou mesmo a falta  em algumas pessoas que se dizem ser Pessoas”

Professor o isolamento social vai servir para reaproximar as pessoas e fortalecer esses laços? Ou será contrário porque mais pessoas estão ligadas ao mundo virtual?

Ergimino Mucale começou por dizer que o isolamento social e o perigo de infecção pela COVID-19 são uma oportunidade para fazer-se introspeção e repensar-se o sentido da vida, o valor das pessoas e a utilidade das coisas. Certamente que alguns laços sairão ainda mais fortificados e outros serão definitivamente rompidos. Depois de um período de reflexão, muitas pessoas vão aprender a viver intensamente, a dar primazia à qualidade de vida e dos relacionamentos e a dispensar o supérfluo. O mundo virtual, até pouco tempo tendencialmente criticado, está a ganhar muito mais espaço e a revelar-se um meio eficaz não somente de socialização, mas também de profissionalização.  Não é exagerado afirmar que mesmo nos países economicamente fracos o futuro tenderá a ser mais «ciber»: cibercultura, ciberescola, cibertrabalho.

Isso enfraquecerá os laços humanos? Sim ou não?

“O virtualismo enfraquece os laços humanos quando é doentio, quando revela a ausência de sentido. Como muitos sociólogos e filósofos notaram, o momento histórico que nos é dado para viver, quer se chame pós-moderno, hipermoderno ou trans-moderno, tem sido marcado pela fragilização do pensamento e liquefação dos relacionamentos, gerando-se um vazio existencial. O consumismo exacerbado, incluindo o virtualismo, denuncia esse vazio. O cibernauta solitário, que falhou navegar nas profundezas do seu próprio ser, procura nas experiências virtuais uma forma de fuga de si mesmo, um conteúdo para preencher o seu tempo e saciar a sua fome existencial”.

 

Além da questão de saúde, a pandemia do coronavírus afecta a rotina do mundo de outras formas, em especial economicamente.

Como evitar para que o fenómeno não nos afecte psicologicamente?

Ergimino Mucale disse que a pandemia actual vai deixando sequelas sem precedentes em todo o Mundo. Até países mais desenvolvidos do que o nosso já começaram a arriscar em nome da economia, mesmo tendo reservas de tesouro. A nossa economia já começou a ressentir-se da pandemia, com milhares de pessoas em vias de tombarem no desemprego e com tantas outras com o seu poder de compra reduzido. Isso poderá impactar a nível familiar, aumentando a violência doméstica e os divórcios, bem como a nível social, ampliando a possibilidade do recrudescimento da endemia da criminalidade. ”

O impacto psicológico de tudo isso poderá revelar-se perigoso. Ainda que não tenha receitas, presumo que as medidas a serem tomadas devem partir da dimensão individual até à estatal e devem garantir não só assistência médica e medicamentosa, mas também material e psicológica. É necessária uma preparação psicológica para enfrentar a crise, que pode passar por adotar um clima de resignação para consentir uma situação adversa e dolorosa, prática de meditação e treinamento das emoções, criação de previdência e espírito de resiliência e poupança dos escassos recursos básicos disponíveis; cultivo de solidariedade interpessoal, familiar e inter-familiar, etc. O Estado, dentro dos seus limites e possibilidades, deverá ajudar a salvaguardar os empregos bem como garantir pensão ou cesta básica mínima para os mais necessitados, isso passa pela tomada de medidas micro e macroeconómicas mais reais e audaciosas”.

Temos visto e foi noticiado actos egoístas de muitas pessoas desde que a pandemia do coronavírus chegou ao país e medidas extremas começaram a ser adotadas pelas autoridades, seja de comerciantes que aumentaram preços de produtos de saúde, ou simplesmente pessoas desobedecendo os protocolos de prevenção.

Por quê o ser humano é egoísta? Como a filosofia vê e explica este fenômeno?

Foram vários episódios de folia testemunhados desde que eclodiu a pandemia do Coronavírus a começar, desde China até Itália, do espalhamento de gotículas salivares em locais públicos, em supermercados e em metros, passando, a nível nacional, pelos casos que menciona até chegarmos ao caso da jovem paciente que abandona a o tratamento e vai juntar-se ao namorado em Inharrime.

“Estes episódios esporádicos desvelam mais do que o egoísmo: é desespero perante uma situação limite e é perda da empatia e do sentido do humano. No caso da especulação de preços está associada a vontade de ganhar a todo o custo; é uma atitude não rara nas principais cidades do nosso País mesmo em tempos de bonança e revela não só a incapacidade do Estado em vigiar e penalizar, mas a ausência do bom senso e da deontologia por quem a pratica. A desobediência de protocolos pode basear-se numa falsa sensação de imunidade, por razões de fé cega ou de informação deficiente – há quem pensa que ter sofrido muito e ser crente são razões suficientes para ser poupado da doença e seus efeitos. Além disso, há que lembrar que mesmo em relação ao HIV/SIDA tem havido situações da mesma natureza, incluindo abandono ao tratamento. Se pode admitir que haja egoísmo no agravamento de preços, o mesmo não se pode dizer relativamente ao abandono dos protocolos de prevenção: trata-se, além do já dito, de desprezo extremo à vida e de uma vontade suicida e homicida. O que a pandemia suscita é justamente o contrário: mais empatia e solidariedade a todos os níveis, desde o individual, passado pelo familiar e societal até ao de Estados. A COVID-19 é dos problemas mais globais que já houve e o seu combate, por enquanto não houver antídoto, dependente literalmente de todos e de cada um”. Frisou Mucale

 

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