Preto & Branco

Pessoas que filmam ou tiram fotos no enterro

Sou um jovem conservador, talvez seja, devido à esse facto que algumas tendências, daquelas que ultimamente se observam, ainda me incomodem bastante.
Cresci num ambiente em que, era comum ouvir a expressão “swa yila”, que literalmente significa: não se faz/diz ou não se pode fazer/dizer. Os nossos parentes, ancestrais e os anciãos, visando boa educação por nossa parte, não se cansavam de ” swayilinizar” todas as coisas que eventualmente colocassem em risco o nosso bom comportamento.

Quando cresci, não era permitida que uma criança participasse de velórios e/ou funerais. Era uma medida que tinha como objetivo, evitar traumas por parte das crianças, visto que, sendo demasiado novas, não tenham, ainda, uma capacidade psicológica que lhes permitam digerir as imagens chocantes das cerimónias daquela natureza. É uma situação complicada que uma criança assiste um cadáver e pessoas chorando desesperadamente.

Mudaram-se os tempos e com eles as maneiras de encarar as diversas instâncias da vida. As flores que nunca murcham, hoje, embelezam as cerimónias fúnebres da forma mais natural possível, apreciam os cadáveres dos seus entes-queridos e o espectáculo barato daquelas pessoas que, querendo exibir que sente mais dor em ralação às demais, choram escandalosamente, chegando até a ameaçar se atirar para à sepultura.

Para toda uma ala conservadora, torna-se inconcebível que as crianças viviam aqueles momentos duros até mesmo para os adultos.

Porém, o que me cria impugnação não é, simplesmente, esta avalanche de crianças que são permitidas a estar aglomeradas nas infelicidades, mas a nova tendência de filmar ou tirar-se fotos com recurso à telemóveis.

Presenciei, há dias, numa cerimónia fúnebre um momento que, dada a minha maneira de ser, me criou uma autêntica indignação. Estávamos num momento em que nos despedíamos de um falecido, e reparei que havia uma moça que registava o momento com o seu caro “iphone”… Além de ter tirado foto ao triste e frio cadáver exposto para o último adeus, a moça filmou o momento em que se depositava a urna na sepultura e as pessoas que deitavam areia sobre o brilhante caixão já pousado na cova e a viúva inconsolável.

Infelizmente, deixei de viver o momento da despedida como devia, por não aguentar a fúria que me apertava o pescoço. A situação deixou-me tão irritado, de tal forma que, não me faltou vontade de ir arrancar o aparelho que usava para filmar e jogar na cova. Tive de me segurar para não ser visto como um violento.

Tirar uma foto de um acontecimento tem como implicação imortalizá-lo, ou seja, tiramos fotos para que nos lembremos daquele acontecimento ou momento tempos depois, principalmente, quando os acontecimentos, imortalizados na foto, sejam agradáveis e dignos de serem lembrados. Infelizmente, nem todos pensamos do mesmo jeito, ou seja, há quem tira a foto para fazer uso do seu aparelho, para exibi-lo em público ou mesmo para mostrar que dá mais importância ao momento comparativamente aos demais participantes do momento ou acontecimentos.

É anti-ético o que está acontecendo, o assustador é que vai ganhando normalidade no seio da sociedade, de tal forma que, não saibamos onde iremos desaguar à bordo nesta falta de educação. Encaram-se os momentos mais sérios de forma mais descontraída possível. Urge que coloquemos mão na consciência.

 

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