Preto & Branco

COVID-19 A PANDEMIA DO NOSSO SÉCULO: UMA PEQUENA HISTÓRIA DO PASSADO RECENTE AOS DIAS DE HOJE

“Na minha infância, lembro-me que, quando um familiar ou amigo contraía, por exemplo, o sarampo ou outra doença infecciosa, era preocupação dos nossos pais fazerem tudo para que nós outros estivéssemos de imediato em contacto com o doente para que também tivéssemos oportunidade de contrair a mesma doença. Na altura, não compreendíamos muito bem, o que era aquilo de quererem que ficássemos doentes e longe das nossas brincadeiras? Porquê? Mais tarde, compreendemos o grande significado dessas atitudes, e, hoje, descobrimos que era uma forma indirecta de nos imunizarem tendo em conta que, nessa altura, não havia vacinas para esse tipo de patologias. ”Dessa forma, não havia hipótese de nos apercebermos de epidemias.” Esse conhecimento, mais ou menos empírico, permitiu que crescêssemos mais saudáveis e longe dos problemas que poderíamos ter se adquiríssemos a doença numa fase mais adulta. Hoje, com a evolução tecnológica, temos vacinas para a grande maioria das doenças infecciosas que nos permitem evitar epidemias se se conseguir vacinar 75 a 85% das pessoas em risco. Esta evidência, hoje tornada científica, mantem-se válida nos nossos dias e permite que, em determinadas situações, possamos tomar medidas adequadas para controlarmos as doenças, especialmente aquelas ainda não preveníeis por vacinas. 2 A grande maioria dos estudantes de medicina ou de outros cursos relacionados com a saúde, infelizmente, não conhece a grande maioria das doenças infecciosas do passado não muito recente pois a maioria delas deixou de ter expressão com o advento das campanhas de vacinação. Refiro-me, especialmente, ao sarampo, varicela, rubéola, tétano, papeira, etc. Temos outras doenças que, apesar de já haver vacinas para o seu controlo, ainda não estão disponíveis para toda a população.

 

As doenças transmissíveis

Todo este conhecimento e evolução científica permite que, com confiança, possamos verificar que existem duas formas de controlar esse tipo de doenças, hoje apelidadas de doenças transmissíveis: uma das formas de controlar estas doenças é deixarmos a doença atingir a maioria da população (vacinação indirecta e sujeita a consequências, mais ou menos, graves) e, a outra e mais eficaz, é vacinarmos previamente a população evitando, desta forma, a eclosão de epidemias, mais ou menos, graves, dependendo do agente agressor e da susceptibilidade do hospedeiro (ser humano). Hoje, temos uma grande variedade de vacinas que nos protegem para toda a vida (febre amarela, sarampo, rubéola, poliomielite, pneumonias específicas…etc.) e, outras, que nos protegem por tempos mais curtos requerendo, para isso, a tomada regular dessas vacinas para garantir uma imunidade mais duradoira. Apesar de nos últimos anos registarem-se grandes avanços tecnológicos, ainda morre gente por dificuldade do Sistema de Saúde em atingir populações especialmente mais vulneráveis. No âmbito das doenças “transmissíveis“, também podemos identificar, de entre outras, três importantes formas de transmissão: por via hídrica (especialmente a água), pelo ar que respiramos e, uma terceira, pelo sangue e seus derivados e fluidos corporais. Para o primeiro caso, temos a COLERA, DISINTERIA (E OUTRAS DIARREIAS ACOMPANHADAS DE SANGUE) tão bem conhecidas em Moçambique. Para o segundo caso, temos, por exemplo, o SARAMPO, RUBÉOLA, TUBERCULOSE e as GRIPES, em geral, pois são centenas de estirpes que provocam esta doença. Para o último caso, temos o HIV, a HEPATITE, por exemplo. Existem também outras formas de transmissão de doenças provocadas por vectores, nomeadamente a MALÁRIA, que é transmitida pela picada de um mosquito infectado, a PESTE BUBÓNICA, transmitida pela pulga, a DOENÇA DO SONO, transmitida pela mosca, etc. Todas estas doenças apresentam um factor comum: infectam as pessoas que respondem com reacções diferentes. Muitos infectados não apresentam qualquer sintomatologia e outros apresentam sintomatologias leves ou graves. Para se saber exactamente quem 3 está infectado, torna-se necessário sujeitar toda as pessoas a um teste de diagnóstico, o que nem sempre é viável. São estes indivíduos sem sintomatologia, sem saberem que estão infectados, que tendem a ter uma vida normal e, por isso, não se protegem e, como resultado, podem ser agentes transmissores das doenças adquiridas.

Falemos das gripes

Neste momento vivemos mais uma gripe, daí desenvolvermos um pouco mais esta velha doença. As GRIPES existem há centenas, senão milhares, de anos e, ao longo desse tempo, têm provocado milhões de mortes, se atendermos às grandes pandemias dos séculos passados sendo a mais recente e violenta a “Gripe Espanhola”. Todas elas responderam com um padrão epidemiológico semelhante (na altura, não havia vacinas) atingindo a grande maioria da população, mas com uma distribuição, em termos de gravidade, muito diferente: uma grande parte da população, sem praticamente sintomas, outra parte, com sintomas leves, e, uma pequena parcela, com sintomas graves, da qual uma percentagem morria. Muitos factores também estavam associados à gravidade da doença, nomeadamente a pobreza, viviam em grandes aglomerados populacionais, o estado nutricional, as doenças pré-existentes, o saneamento do meio e acesso à água. Estas gripes eram transmitidas através do ar que respirávamos, pois, estavam carregado de vírus que nós expelíamos, através da tosse, espirros, pelo nariz e boca no processo respiratório normal (inspiração e expiração do ar). Como se disse anteriormente, nessa altura não havia vacinas e a doença contaminava quase toda a gente. Hoje, felizmente, já existem vacinas para a maioria das GRIPES o que impede que hajam epidemias por estas doenças.

Nos nossos dias…

Desde Dezembro do ano passado, surgiu um novo vírus, ainda muito desconhecido e parecido com o da gripe, causando os mesmos sintomas e distribuindo-se pela população exactamente da mesma forma como os outros vírus da gripe. Provocavam febre, dores de garganta, tosse, dores do corpo, dores de cabeça e falta de ar. No início, tudo fazia crer que estávamos perante uma gripe semelhante às anteriores. 4 Por todas essas razões, muitos especialistas pensaram que não se devia fazer nada, deixarem as pessoas apanhar a gripe e, depois da grande maioria da população se infectar com este novo vírus, tudo se normalizaria. A teoria não estava completamente errada. No entanto, fomos surpreendidos pois, este novo VIRUS mostrou-se muito diferente, quer na sua capacidade de transmitir às outras pessoas (muito mais rápido e eficaz) mas, ao mesmo tempo muito mais agressivo, provocando muitos doentes graves e com elevada mortalidade apesar de, nesta altura, existirem muitos mais meios de tratamento e técnicas mais avançadas. Atingiu com maior gravidade as pessoas mais velhas e com outras patologias associadas e, de forma menos grave, os mais jovens. O pessoal de saúde foi também atingido duramente. A rapidez de transmissão e a gravidade do estado de saúde dos doentes obrigaram a um trabalho excessivo dos hospitais e seus trabalhadores, colapsando, em muitos deles, toda a capacidade de atendimento de doentes. Todas as reservas de materiais de tratamento e apoio aos doentes esgotaram-se, incluindo materiais básicos, como, por exemplo, todo o tipo de materiais de protecção para os trabalhadores de saúde, meios de desinfecção, aparelhos de suporte para a vida dos doentes e mesmo alguns medicamentos. Centenas de trabalhadores da saúde foram e estão a ser diariamente infectados, o que diminui a capacidade de atendimento aos doentes internados. Muitos serviços de atendimento normal dos doentes tiveram de ser cancelados, pois houve necessidade de se desviarem todos esses recursos, quer humanos, quer materiais, para acudir aos doentes com esta nova doença que se passou a chamar-se COVID-19. A velocidade de transmissão, bem como a virulência do vírus, associadas a este novo mundo globalizante, transformou-se numa enorme pandemia afectando quase todos os países incluindo Moçambique. Apesar de Moçambique ser um país muito afectado por epidemia e ter uma longa experiência no controlo das mesmas, as características desta nova doença exigiram um grande esforço de reorganização dos serviços de saúde para dar a melhor resposta a esta nova doença, ainda muito pouco conhecida, especialmente no que respeita à fisiopatologia da mesma, à melhor conduta, à medicação mais efectiva e, pior ainda, o volume de pacientes que poderia superlotar as poucas unidades sanitárias, as camas existentes, toda uma logística complicada, tudo isto associado a uma capacidade orçamental muito limitada. Duas questões se colocaram de imediato: como garantir o melhor tratamento aos doentes existentes, as vacinações, as consultas, as cirurgias, os exames auxiliares e, ao 5 mesmo tempo, dar atenção adequada aos doentes com uma nova doença ainda desconhecida? Pela experiência dos países já afectados, sabia-se que era um imperativo que toda a sociedade compreendesse esta nova situação e participasse activamente, respondendo aos apelos da Ministério da Saúde e do Governo. Existiam algumas normas internacionais que nos orientavam para algumas medidas e que as mesmas teriam algum impacto na economia, em geral, e, muito em especial, nas pequenas e medias empresas, com destaque para o mercado informal que garante a sobrevivência de grande parte da população.

Como reagir, como responder com eficiência e com os recursos disponíveis?

A primeira questão que se colocou foi sobre a capacidade de o Serviço Nacional de Saúde responder a uma demanda, como a que se estava a observar em muitos países afectados pela pandemia. Havia dois cenários a serem considerados: um, deixar que a epidemia decorresse normalmente, com o risco de uma grande taxa de ocupação das camas hospitalares, bem como a falta de pessoal de saúde, a todos os níveis, e dos insumos hospitalares; outro, tentar controlar o desenvolvimento da epidemia garantindo que o número de doentes graves pudesse dignamente ser atendido, com a verdadeira realidade das limitações existentes. Esta foi uma das principais discussões que culminou com a decisão sobre a segunda alternativa. Uma segunda questão discutida, foi a de encontrar mecanismos para diminuir a velocidade de expansão da epidemia diminuindo grandemente a possibilidade de um indivíduo infectado transmitir a outras pessoas.

A NOSSA RESPOSTA

Dentro deste quadro, definiram-se quatro fases de evolução da epidemia e respectiva resposta. Estas fases, em devido tempo, foram amplamente divulgadas e tiveram o seu culminar quando foi tomada a decisão do Estado de Emergência logo que detectado o primeiro caso de infecção no país. Esta decisão obrigou à tomada de algumas medidas de carácter restritivo com o principal objectivo de diminuir a expansão da epidemia, nomeadamente, em relação aos aglomerados populacionais e às medidas de higiene, com especial enfoque na higiene das mãos, regras para quem tivesse tosse e, muito em particular, na protecção das vias respiratórias, boca e nariz e na protecção dos olhos através das máscaras e das viseiras. 6 Em relação às medidas para evitar a aglomeração das pessoas, definiu-se o distanciamento social, determinou-se um número mínimo de pessoas aglomeradas, encerrou-se o ensino e espaços comerciais, e limitou-se o número de pessoas em todos os serviços e empresas. Também se encerrou a maioria das fronteiras aéreas, terrestres e marítimas. Por haver necessidade de melhorar e melhor acompanhar as decisões que levaram a determinar o primeiro o Estado de Emergência, pois ainda persistiam algumas lacunas, foi necessário prolongar o Estado de Emergência com a certeza de que, havendo melhorias marcantes no cumprimento das decisões iniciais, a vida poderia voltar, paulatinamente, à normalidade.

DESAFIOS

Alguns exemplos que não ajudam a controlar esta doença: não usar a máscara ou utilizála deficientemente, deixando muitas vezes o nariz descoberto; utilizar a mesma máscara para várias pessoas e sem obedecerem às regras de lavagem correcta e secagem ao sol antes de serem reutilizáveis; colocar a máscara só quando sentem a aproximação dos elementos de segurança; tirar a máscara imediatamente a seguir ao abandono dos transportes públicos ou privados (principalmente os “chapas”); permitir viver o nosso dia a dia em grandes aglomerados de pessoas não respeitando o distanciamento social; ficar muito tempo fora de casa a fazer o quê? Passear? Hoje, temos um padrão epidemiológico estável, sem sobressaltos, e vemos e sentimos que as populações lentamente vão assumindo as regras propostas garantindo que a epidemia, até ao presente momento, se mantenha estabilizada.

QUAL O FUTURO?

O futuro deve ser encarado com realismo, temos de ser pragmáticos. A solução era termos uma vacina eficaz e disponível em Moçambique e no Mundo. Não temos e não teremos nos próximos tempos, meses ou só no próximo ano, se os estudos/investigações forem promissores. O futuro depende, mais do que nunca, de todos nós cumprirmos, cada dia e com rigor, todas as orientações já emanadas, controlarmos todos os infectados e os seus contactos. Hoje, temos um grande desafio para retomarmos a nossa vida normal – evitarmos sair de casa senão para actividades imprescindíveis ou de força maior. Ficar em casa, lavar as mãos com sabão ou cinza, usar as máscaras e viseiras constituem as regras básicas para voltarmos a ter uma vida mais saudável. 7 A grande maioria poderá ser infectada nessa altura, mas sem a gravidade esperada, muitos de nós nem sequer teremos oportunidade de ter qualquer sinal ou sintoma da doença, tudo acabará como se de uma gripe mais virulenta se tratasse. Desta forma, também salvaguardaremos o impacto negativo nos nossos hospitais, nos nossos trabalhadores de saúde.

Um Médico com mestrado em epidemiologia, especialista em saúde pública, com mais de 40 anos de experiência. Assumiu funções directivas e profissionais no Ministério da Saúde a nível distrital, provincial e nacional. Actualmente está reformado e é consultor. O Observatório do Meio Rural agradece ao Dr. Avertino Barreto por esta colaboração que ao OMR, como instituição da sociedade civil, compete contribuir independentemente do objecto do seu mandato estatutário: Agricultura e desenvolvimento rural.

 

Por: Avertino Barreto1

(In Observatório do Meio Rural)

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