Preto & Branco

Crescimento do crime Vs o crescimento das Igrejas

Moçambique assiste, nos últimos anos, uma verdadeira multiplicação de instituições religiosas, facto que se evidencia pelo número de antigos contentores, lojas, mercearias e garagens, hoje, transformadas em ʽʽtemplos’’. Não é preciso andar mais de quinhentos metros para encontrar sempre mais uma igreja, principalmente, dentro da cidade de Maputo. Os que vêem a televisão, nos seus tempos livres, pode testemunhar, até, a existência de canais televisivos virados, simplesmente, à religião, o que há duas décadas não era comum.

Alguns moradores, dos bairros que cercam a capital do país, reclamam o barulho emitido pelas igrejas em noites de vigílias. Para alguns cidadãos, praticamente é inconcebível o que se passam dentro dos bairros, visto que, na óptica destes devia haver uma hora própria para certas actuações feitas pelas igrejas, ou por outra, caso não fosse possível abrir mão das vigílias. Os instrumentistas que actuam nas igrejas situadas em bairros de alta densidade populacional tinham de saber regular os seus volumes em função da hora em que elas actuam. As regras de convivência se vêem denegridas por esta nova roupagem social.

Afinal de contas o que é uma igreja e qual é o seu papel na sociedade?

O conceito igreja é polissémico, ou seja, dependendo do contexto em que se fala, pode ter uma, ou outra definição. Do ponto de vista estrutural, igreja/templo é uma edificação onde tem lugar serviços religiosos públicos e são apresentadas relíquias adoradas ou veneradas pelos fiéis, o espaço costuma ser denominado casa de Deus.

Por outro lado, a palavra igreja, também, permite fazer alusão ao conjunto dos fiéis ou crentes pertencentes à mesma seita religiosa. Do ponto de vista religioso e ou espiritual, a igreja é o corpo humano, ou seja, para esta última perspectiva o corpo de cada um é uma igreja onde dentro, nos corações, habita Deus todo poderoso, sendo, por essa razão, que as pessoas são exortadas pela igreja a respeitar e cuidar bem dos seus corpos, pois, são uma verdadeira casa do altíssimo.

Para esta reflexão, pretendo que olhemos para a igreja como sendo um conjunto de fiéis que não só deve pensar em si, como também deve, fazer alguma coisa para salvaguardar o bem-estar social através de acções que visam melhorar o comportamento da sociedade.

Ora observemos:

  • O êxodo rural, que vai deixando a capital moçambicana, cada vez mais, populosa por, principalmente, jovens provenientes de outras províncias à procura de melhores condições de vida, faz com que a cidade seja uma verdadeira mistura de etnias, culturas, gerando por isso vários comportamentos de difícil controlo por parte da polícia.

 

  • Não obstante, se observa, aqui, um fluxo de comportamentos forences exportados através do contacto do público moçambicano com outras realidades mundiais, concretamente através de filmes, telenovelas, redes sociais, e várias outras janelas ao ocidente e ao oriente. (Há alguns anos, não era comum que em Moçambique se cometesse crimes como sequestros, homicídios voluntários e roubos ao actual nível).

 

 

  • A Venda das (famosas BBC’s) Bebidas de Baixo Custo em, praticamente, todo o país. O que deixa as bebidas ao alcance de qualquer um, contribuindo deste modo, para o aumento dos que praticam crimes socorrendo-se das bebidas.

Os três pontos acima indicados, são vistos como sendo alguns dos que fazem a sociedade moçambicana ter uma postura diferente daquela que vinha tendo nos anos que lá se foram, urge confrontar o facto de termos uma autêntica ploriferação de igrejas em paralelo com o mau comportamento, ou seja, vão nascendo igrejas à cada dia que passa mas vão surgindo crimes que nos assustam. De realçar e frisar que, em nenhum momento esta reflexão pretende responsabilizar as igrejas pelos crimes e maus comportamentos actualmente vistos em Moçambique, mas colocar em balaça estes dois aspectos, que julgo antagónicos.

Estamos a ver o crescimento do crime em paralelo com o crescimento do número das igrejas, o que, na minha óptica devia ser diferente, isto é, o crescimento do número das igrejas devia ser uma das razões que propiciassem a redução da criminalidade no país.

Não quero, com esta reflexão, arrastar o papel da polícia para as igrejas, mas apresentar o que acho curioso no que concerne ao trabalho da igreja na sociedade, sendo, ela, uma instituição que devia contribuir para uma melhor postura social.

Como dizia um professor de filosofia, todo crime é pecado mas nem todo o pecado é crime, a igreja devia lutar junto com a polícia para estancar a criminalidade que vai ganhando altura e gordura pelo país no geral e pela cidade de Maputo em particular. É obvio que a igreja não irá obrigar ninguém a mudar de comportamento, mas queremos ver, das tantas igrejas que temos, acções que visam ajudar a polícia na luta contra o crime.

Importa referir que, a igreja é a sociedade, ou seja, os que frequentam a igreja são membros da mesma sociedade em que a igreja está inserida, razão pela qual, o melhoramento do comportamento da sociedade em geral, beneficia, também, a própria igreja, uma vez que ela está inserida na sociedade.

Queremos ver mais acções das tantas igrejas que vão surgindo. Diz a ciência uma acção tem sempre uma reação, por uma determinada causa há, sempre, um efeito, queremos ver alguns efeitos da acção de ploriferação das igrejas em Maputo em particular e de Moçambique em geral.

 

Adicionar comentário

Leave a Reply