Preto & Branco

“ Cada pele é uma pele” Entrevista sobre o uso de produtos de beleza e seus efeitos

A presente entrevista aborda sobre a beleza feminina. A mesma surge no âmbito do cenário que nos últimos tempos têm caracterizado às mulheres. A luta pela beleza passa pelo uso de produtos (alguns sem a devida instrução) que, quando não forem bem regulados podem trazer alguns efeitos nefastos à saúde da própria mulher.

No país e em particular na cidade de Maputo, com frequência, é comum reparar-se que as mulheres se têm apresentado de forma diferente, isto é, uma boa pose e cores da pele extraordinária e que transcende a originalidade da pele negra.

Por outro lado, temos notado o uso de cremes sem a devida instrução e, muitas vezes, resultam na danificação da face, lesões ou infecções. Em diversos pontos da cidade como, shopʼs, mercados, são vendidos os produtos de várias origens e sem saber-se os efeitos que podem trazer à saúde quando a pele não é adequada.

Neste contexto, que riscos podem se correr na busca da beleza feminina? A propósito dessa e outras inquietações, conversámos com a senhora Denise Milice, licenciada em Medicina Geral pela Faculdade de Medicina da Universidade Eduardo Mondlane.

Jornal O Povo (JOP): O que é, para si, a beleza feminina?

Denise Melicie (DM): Para mim a beleza feminina é tudo aquilo que a mulher vê e sente que é belo para si mesma, porque o padrão de beleza é um conceito individual. Uma mulher para sentir-se bela não precisa basear-se em padrões de beleza promovidos e socialmente aceites.

(JOP): Como é que explica as acções de luta pela beleza, que em algumas vezes, chega a degradar a imagem ou aparência da mulher?

(DM): Geralmente as mulheres procuram produtos que fazem com que a sua pele fique mais clara, conforme temos visto nas publicidades que aparecem nas revistas e nos canais televisivos. Geralmente fomenta-se a ideia segundo a qual os produtos em causa têm esse efeito, porque se tem o ocidental, o caucasiano (branco) como padrão de beleza a ser alcançado. As modelos são geralmente de pele clara ou da raça caucasiana (branca), com a pele lisa, sem o mínimo de lesões o que tem influenciado na busca quase que compulsiva por esses produtos na expectativa de obtenção dos efeitos publicitados. Por vezes recorremos ao uso de determinados cremes e pomadas por influência das outras pessoas, sem à devida observância de aspectos dermatológicos sendo que corremos o risco de ficar com a pele danificada pelos efeitos colaterais dos mesmos.

(JOP): Denise, há quanto tempo tem aplicado os produtos de beleza?

(DM): Tenho um interesse actual por maquilhagem, e para o efeito faço uso regular de produtos de beleza. Comecei a usá-los aos 23 anos. Anteriormente aplicava esporadicamente batons e lápis para os olhos e sobrancelhas.

(JOP): Que tipo de produtos a Denise usa e, porquê?

(DM): Eu tenho usado produtos que aprendi que são úteis e recomendados para fazer maquilhagem, por darem o desejado efeito para a minha pele e sem ter o tom transformado, desde os “Primers” que servem para fechar os poros, suavizar a pele e fixar os produtos seguintes, às bases com a componente de protecção solar. Faço um esforço de ler os rótulos dos produtos que compro, para ter a certeza de se tratar de produtos testados e com protecção solar ou ricos em vitaminas, é comum os produtos de beleza conterem a vitamina E. Faço uso desses produtos porque gosto do efeito da maquilhagem bem-feita, sinto que realça a minha beleza.

(JOP) Quando é que surge o interesse pela maquilhagem?

(DM) O meu interesse pela maquilhagem surgiu no ano passado, no âmbito da minha deslocação ao distrito de Mandlakazi (Província de Gaza) para efeito de estágio rural. Tendo lá chegado, trabalhei com uma médica que tem conhecimento profundo sobre a matéria. Nos tempos livres, sempre ia a sua casa com finalidade de aprender. Actualmente, desenvolvo a habilidade acompanhando tutoriais pela internet.

(JOP) Devido ao uso de certos cremes, há mulheres que ficam com a cor da pele transformada completamente. Como se explica isso?

(DM) Provavelmente porque não usam produtos adequados para o seu tipo de pele, ou seja, talvez usam produtos com efeitos adversos não observados, ou por vezes o efeito vendido não é o efeito alcançado. Somos vulneráveis a efeitos indesejados de certos cremes, quando fazemos uso por influência. Por exemplo, se eu tiver uma amiga e maravilhar-me com o resultado que ela obteve do creme que usa, e que se calhar faz o uso sob prescrição médica, vendo que a sua pele está bonita e me decidir sem a devida orientação fazer o uso do mesmo creme, porque a minha pele é diferente, o risco de ter um resultado diferente é bem maior.

Devemos estar esclarecidos que cada pessoa tem o seu tipo de pele, o que determina os produtos ideias a serem usados.

É também importante descartar a presença de uma doença de pele. A acne, por exemplo, é uma condição dermatológica de início na puberdade, e sendo a puberdade uma fase da vida de auto-afirmação da feminilidade e vaidade para as raparigas, pode acontecer a troca de opiniões entre amigas sobre o que dá certo para combater as lesões que caracterizam a doença e ser o ponto de partida para o uso indiscriminado de cremes e vir a ser prejudicial.

(JOP): Há quem diga que, algumas mulheres, aplicam os produtos de beleza sem observar as devidas instruções e, como consequência, os cremes destroem a sua cor original. Como isso acontece?

(DM) Mais uma vez a história de nos deixarmos encantar pelos efeitos “milagrosos” de transformação demonstrados pelas publicidades, e por isso invadimos às lojas para obter os produtos sem termos lidos os folhetos informativos e os rótulos para conhecer a composição, modo, quantidade e duração da aplicação e os eventuais efeitos. Os cremes e pomadas terapêuticos no geral, têm um princípio activo e componentes que podem ser responsáveis por determinadas alterações da pele. Pode dar-se o caso de obtermos uma pomada que serve para eliminar uma determinada lesão, se esta for aplicada numa área de pele sã, pode causar danos.

Certos produtos indicados para a pele com ou sem função terapêutica, contêm corticoides, que se por um lado trazem um grande benefício para o tratamento de algumas doenças, sobretudo as de carácter alérgico, também podem provocar significativos efeitos colaterais, como por exemplo, tornar a pele mais fina perdendo a sua cor e espessura originais, causar queda de pelos, levar a diminuição da imunidade, tornar os vasos sanguíneos visíveis, daí o efeito estético degradado.

(JOP): Perante esta situação, o que se pode fazer para combater esta prática?

(DM): Na minha opinião este é um problema que deve ser abordado por diferentes intervenientes de saúde. Sob o ponto de vista de saúde pública acho que valeria a pena acções voltadas para a consciencialização das consumidoras, para que se tenha atenção aos produtos de beleza que fazem uso e também valeria uma monitoria das publicidades, para se garantir que as ofertas que são feitas em relação aos efeitos apetecíveis não são falsas, ainda entraria o papel dos meios de comunicação social ao fazerem chegar a informação certa e também se calhar um trabalho conjunto com as farmácias para disponibilizarem produtos terapêuticos com a devida prescrição e aos demais revendedores de produtos de beleza, sensibilização para a venda de produtos bons.

Sob a perspectiva individual, devemos evitar seguir a experiência de terceiros, cada pele é uma pele e dada as suas características precisa de uma atenção diferenciada.

(JOP): A próxima pergunta pode parecer-lhe estranha mas enquadra-se no nosso tema; Qual é o seu prato predilecto?

(DM): Gosto de comer naco na pedra, tenho predilecção por carnes.

(AM): Na sua opinião a alimentação pode afectar a saúde da pele?

(DM) Sim. A Alimentação afecta muito a saúde da pele. Tem sido comum ouvir-se que nós somos aquilo que comemos e de facto é real. Se é que eu como em excesso alimentos gordurosos e ricos em açúcar, esta gordura pode depositar-se ao nível dos poros da pele, fechando-os e comprometendo assim, o processo de auto-limpeza e respiração, deixando a pele vulnerável a infecções pois os microrganismos gostam de ambientes inóspitos.

(JOP): Como é que monitora os efeitos dos produtos de beleza na sua pele?

(DM): Não sou viciada em maquilhagem e por isso posso viver sem ela, embora não seja verdade que a maquilhagem danifique a pele quando bem feita, pois mesmo que feita regularmente, quando testados e usados certos produtos, tendo em conta aos cuidados de tonificação, hidratação e esfoliação da pele, podemos até melhorar e muito a pele sob a perspectiva estética e de saúde também. Porém, eu uso diariamente um único creme para toda a minha pele, sem fazer diferenciação da pele da face. Tenho feito maquilhagem a meu belo prazer, quando bem me apetece e para eventos.

Portanto, a pele da face exige cuidados diferenciados e por isso a indústria de beleza tem estado a trazer inovações para os seus cuidados, há SPAs e salões de beleza com pacotes de tratamento facial voltados para o tipo de pele, se seca, desidratada sensível ou oleosa e mista.

(JOP): Que recomendação ou conselho gostaria de deixar para a mulher moçambicana, no que diz respeito aos cuidados de beleza?

(DM): Quero reiterar que a beleza é o que nós quisermos que seja, muitas vezes o padrão de beleza social segue uma tendência e por isso nos sentimos pressionadas a seguir a moda. Aconselho a não deixarmo-nos seguir pelo vento da moda, não nos deixemos ser facilmente influenciadas, sob o risco de não sermos felizes com isso. Eu acho que a mulher só precisa de sentir-se bem consigo mesma maquilhada ou não, vestida dentro do padrão aceite ou não pois, não precisamos de estar na moda aos olhos das outras pessoas mais sim, devemos estar bem connosco mesmas, o que é muito mais simples porque não temos de representar e vestir uma capa que não nos pertencem.

A opinião de terceiros não deve prevalecer na nossa vida, a não ser que a terceira pessoa implicada seja um profissional, por exemplo, Médico Dermatologista, a quem procuramos porque temos um problema de pele.

Aconselho também a termos cuidado com os produtos que adquirimos movidas pelos efeitos que vemos nas publicidades, porque podemos ser vítimas de propaganda enganosas.

Foi publicado em 26.08.2016

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