Preto & Branco

Sobre os factores endógenos que compõem os desafios de África

Hoje apetece-me reflectir brevemente sobre um assunto que, de forma recorrente, as lideranças africanas, Moçambique bem incluindo, gostam de referir sempre que os seus ‘programas de (des) governação’ não são implementados ou, em muitos casos, simplesmente não existem. Há uma tentação de quase que magica de atribuir todos os males que assolam a África ao legado da colonização, ao neocolonialismo e à chamada ingerência nos assuntos internos dos estados (cá entre nós a famosa mão externa). Longe de querer negar a importância destes aspectos, queria chamar a atenção dos factores de origem interna que, a meu ver, são mais determinantes para a nossa situação calamitosa:

  1. Ganância política, financeira e material [A política da barriga]

As lideranças africanas digladiam-se entre si não por uma visão ou um projecto nacional. A razão fundamental por detrás destas disputas políticas e puramente o acesso ao poder político para controlar os recursos e a sua distribuição em redes clientelistas, nepotistas, etc que são o garante da sua manutenção no poder;

2. Obsessão pelo poder e apetite para matar os “obstáculos”

Para chegar-se ao poder tudo vale, incluindo eliminar possíveis contendores que constituam ameaça a sua permanência no poder;

3. Manipulação étnica / cultural por líderes africanos

As lideranças africanas no seu jogo/ estratégia de acesso e manutenção do poder, têm recorrido à manipulação étnica como fonte de suporte/apoio que em alguns casos resulta em guerras sangrentas como e no caso do Sudão do Sul entre os Dinka (grupo do presidente Salva Kiir) e os Nuer (do grupo do vice-presidente Dr Riak Machar), ou os exemplos dos genocídios de Ruanda e Burundi que opuseram os Hutus aos Tustis;

4. Arrogância política e intolerância política

Quando os líderes políticos ascendem ao poder, idolatrados pelos seus apoiantes e acólitos, tornam-se arrogantes e intolerantes. Auto-intitulam-se de visionários, etc. e tornam-se avessos ao diálogo, o que por muitas vezes leva ao extremar de posições e às guerras civis;

5. Abraçar divisões coloniais, por exemplo África Anglófona vs Francófona

A questão dos blocos coloniais e rivalidades entre ambas, não permite uma harmonia entre os estados africanos. As rivalidades e orgulhos entre os países africanos anglófonos e francófonos são sobejamente conhecidas;

6. Falta de unidade entre o povo africano – nacional, regional e continental

Já reflecti sobre a compartimentação do continente em blocos regionais que se rivalizam entre si e que mesmo no seio dos mesmos há rivalidades e conflitos;

7. Inveja e fracasso em apoiar um ao outro

Os estados africanos não se apoiam uns aos outros e existe em certos casos uma espécie de ‘inveja’. Exemplos disto são vários: invasão da Líbia; relações entre Moçambique e o Malawi; Sudão e Sudão do Sul, etc.

Há muito que se diga sobre o que arrolei, mas por enquanto basta!

 

 

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