Preto & Branco

Tchakaze troca a música por activismo social contra a covid-19

Numa altura em que a cultura parou em quase todo o mundo, confinamento e Estado de Emergência em alta, a conceituada artista moçambicana, Teresa Rangel Semende considera que cada artista é um activsita social que, em forma de arte, associado à criatividade, habilidade e dinâmica, toca vidas de pessoas, causando uma terapia social. Têm sido comuns revelações do tipo, desde que ouvi esta música e/ou li a obra tal, pela primeira vez, a minha vida mudou.

Tendo a formação de técnica de Psiquiatria e saúde mental, tenho estado em constante e permanente contacto com moçambicanos no estrangeiro, em países onde muita gente está em processo de isolamento devido à Covid-19, tendo atingido o nível quatro, vivendo um ambiente de Lockdown. São indivíduos que vivem uma verdadeira pressão psicológica, que precisam de apoio que os motive, levantar a auto estima, a vontade de viver e restaurar a fé e dignidade humana, para continuar em frente. Tem sido desta forma que junto o útil ao agradável. Tchakaze produz conteúdos de saúde mental e técnicas de relaxamento, semanalmente, e publica às sextas-feiras, nas redes sociais.

Tudo aconteceu numa tarde solarenga, num contacto telefónico e, desde já, enaltecer a sua prontidão para dois dedos de conversa com Jornal O Povo. Mas, afinal, quem é esta cantora?

JOP: Quem é a Tchakaze?

Tchakaze: Sou uma mulher, cantora, batalhadora, sonhadora como outras mulheres, esposa, mãe e pessoa amiga.

JOP:. Quando é que abraçou a carreira musical?

Tchakaze: Considero o ano 2015 marco da minha carreira a soul, embora, antes, tivesse sido corista, onde ombreava com artistas de alto gabarito, e participava em diferentes grupos de música gospel.

JOP: Que mensagens podemos encontrar nas suas composições?

Tchakaze: Tenho levado mensagens variáveis das vivências da nossa sociedade, o dia-a-dia, dificuldades, vitórias que a sociedade apresenta. Sou feminista, mas também tradicionalista, tenho exaltado a capacidade e a força da mulher de se impor nas nações. Sou tradicionalista, porque exalto deveres e obrigações da mulher inalienáveis, não sou tão moderna a ponto de ignorar o respeito pelo meu marido.

Ser submissa não significa ser escrava. A mulher quer conquistar o seu espaço sim, de acordo com a equidade do género, mas tem de dar espaço ao marido, para se impor na relação como marido, como homem. São tantas as mulheres que não sabem pedir perdão, porque muita gente entende tudo errado, isto é, quando ele berra, eu berro, e acabam fazendo tudo errado.

Não é tudo o que o homem faz que as mulheres devem fazer. Deus criou ambos de forma diferente, por exemplo, a capacidade de o homem, no âmbito de isolamento que estamos a viver neste momento… está a ser mais complicado do que para uma mulher, porque o homem, pela sua natureza, é um ser livre; vai para onde quer, enquanto a mulher foi educada de outra forma: ser esposa, mãe educadora, saiu do serviço, deve ir para casa imediatamente.

JOP: O que é ser músico em Moçambique?

Tchakaze: Não é uma tarefa fácil, mas não é impossível. O que devia acontecer, neste momento, é que devíamos ter o espírito empreendedor, apesar de que o meu estágio musical fora seria diferente para o melhor. Mas não estou lá, estou aqui. A pergunta para mi mesma é o que devia fazer para sobreviver, pelo que todos os fazedores da música moçambicana não devem desistir; devem, sim, ter o espírito inovador.

Infelizmente, não dá para viver só da música. Eu e meu marido somos músicos e tudo o que temos em casa veio da música, inclusive a minha formação, mas temos de fazer mais alguma coisa, é vital.

Não gosto tanto da luxúria, a música tem dado o básico para viver, não quis dizer que não tenho ambição, mas devo olhar a minha capacidade financeira. Localmente, temos músicos que têm boa vida que advém de ganhos da música. Mesmo no estrangeiro, as estrelas distinguem-se umas das outras, isso para dizer que os músicos destacados no estrangeiro maioritariamente têm empresas e representam grandes marcas.

Nkata é um marco

JOP: Ao longo da sua carreira, quais foram os momentos positivos e negativos?

Tchakaze: Com música Nkata, que nos remete à violência doméstica, homens e mulheres ficam sensibilizados. Já ganhei dois prémios. Hoje em dia, tem sido a mais visualizada, baixada e interpretada por aí. Muita pena que includiu a Covid-19, se calhar, podíamos ouvir outros meus trabalhos em processo de divulgação; mas, infelizmente, nesta altura, estamos parados.

 JOP: Ė membro da associação de músicos Moçambicanos?

Tchakaze: Sim, sou desde 2015.

JOP: O que pode fazer para assistir o músico na vertente social?

Tchakaze: Eu penso que um músico se assemelha a uma empresa com toda a hierarquia. Devia pegar nos artistas mais velhos para assessorar diferentes músicos da nova geração que estão num mundo digital. Os mais velhos tocam bem e boa música, mas no âmbito analógico.

Um artista deve ter a sua mente livre para compor muito bem os seus temas, temos visto muitos artistas desviados por aí, os mais velhos espelham o mundo de fora. Veja, por exemplo, na Africa do Sul, eles nunca abandonam traços característicos com facilidade, são distinguidos pela sua apresentação. Lamento muito que os nossos tenham consciência da existência de qualquer obstáculo para alcançar o sucesso.

JOR: Qual é o grande sonho de Tchakaze?

Tchakaze:  Quero-me realizar à semelhança dos outros, quero ser grande como músico na minha carreira profissional de técnica, porque não um dia ser licenciada e/ou Dra, quero chegar lá no topo sem atropelos. Tenho consciência da dinâmica social para lograr isso tudo, cada um concebe o seu topo, não basta a fama, mas queria ser bem-sucedida, ser uma renomada e considerada líder de opinião no que estou a fazer.

JOP: Quantos discos tem editado?

Tchakaze: Tenho, apenas, um álbum que lancei há seis meses.

JOP: Tem beneficiado de apoio familiar na sua carreira?

Tchakaze: Tenho muito apoio familiar, para além de dizer que o meu marido é um músico. Ele produz as minhas músicas, ensaiamos juntos e nossos filhos estão familiarizados, quando estamos a ensaiar, não atrapalham; afinal, nasceram neste ambiente, compreendem que estamos a ensaiar ou a gravar, tenho apoio da minha mãe, minha sogra.

JOP: Como tem preenchido os seus tempos livres?

Tchakaze: Agora, tudo é em casa; mas, antes, eu não parava em casa, sou uma pessoa insatisfeita, sou cantora e compositora. Se não estou no estúdio, estou no celular a ensaiar diferentes formas como posso desenvolver determinado conteúdo ou estou mexendo com os meus seguidores no âmbito de activista social, como pode ter constatado – desenvolvi muito a fala graças a bons oradores que tenho acompanhado, porque gosto de sensibilizar as pessoas.

JOP: Qual é o livro que está a ler?

Tchakaze: Não gosto de ler, gosto de escutar música, ver vídeos.

JOP: Qual é o estilo de música que gosta de ouvir?

Tchakaze: Gosto de ouvir Gospel e Reggae, isto é, gosto de ouvir tudo o que agrada os meus ouvidos, com mensagem útil para mim e para a minha vida, se for desviante, desisto. Bom, tem sido comum confundir-se Gospel como música que invoca apenas Deus, isso não é verdade, Gospel é um estilo musical na qual, em muitos casos, não se faz menção a Deus, em suma, gosto de ouvir tudo o que não agride a minha alma.

JOP: Pode mencionar alguns prémios conquistados?

Tchakaze: Já conquistei dois prémios no Ngoma Moçambique: Revelação e melhor voz.

JOR: Tem algum trabalho em vista?

Tchakaze: Estava no processo de divulgação do álbum; mas, com a epidemia, tudo parou.

JOR: Tem uma mensagem especial para os seus fãs?

Tchakaze: Quero agradecer pelo apoio incondicional, estamos todos em momento difícil e complicado, quero acreditar que, quando passar, todos estaremos bem aqui, para comemorar, dependendo de cada um de nós na observância de medidas de prevenção.

 

 

 

 

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