Preto & Branco

Uma cadeira no meio de um sonho

O sonho de chegar àquela sala foi concretizado, um inconveniente punha em causa a realização pessoal do Carlos. Estava em jogo o seu projecto de vida, a dificuldade naquele momento, era por nessa ocasião depender apenas de si. Diferentemente da vez que para alcançar o lugar onde ocupa hoje na empresa, teve que contar com ajuda dos seus deuses.

No canto direito da mesa pousa um quadro com as fotografias dos filhos, e, do lado esquerdo, a da mulher, considera-a seu coração. Na parede a foto que se presentifica em todas as instituições públicas, a do Presidente da República; não mente a si, o que no fundo desejava era que fosse seu, o rosto daquela imagem.

Verificou se o crucifixo estava no seu peito e o xifungo na sua cintura, e fez o ritual consoante às crenças de cada símbolo, como sempre desde que se destinou àquela graça.

Para ascender ao cargo que o realizava pessoalmente, primeiro usou do seu direito cristão pedindo ajuda ao seu Deus, tanto rezou, mas não vinha nenhum sinal. Depois usou do direito que, de acordo consigo, era dos africanos, recorreu aos seus antepassados, mas também demorava o sinal de mudança. Na terceira tentativa, resolveu uni-los e hoje está na cadeira que, quanto a si, era-lhe merecida. Embora hoje esteja a ser posto em causa.

Deu toda a sua vida à empresa e só sairia se chegasse àquele posto. Saltou três degraus, pelo tempo de trabalho que teria em cada um deles, chegaria àquela cadeira já com a reforma na mão, por isso, usou todos os meios possíveis.

Quando era um simples funcionário tinha que se limitar a ouvir, ter apenas corpo trabalhando muitas vezes sem pensar, aceitar procedimentos mesmo achando serem ou estarem errados; vezes sem conta chegou enfadado em casa, lançou e chutou coisas, um dos resultados é o defeito que tem na perna esquerda.

Agora Carlos é quem tinha que comandar, pensar e organizar, já estava habituado a cumprir; tinha que acordar aquele homem que há vinte anos dormia nele. Ele é quem tinha que dar a última palavra e os outros estavam lá para ouvir e cumprir como acontecia consigo outrora; acreditava que quanto mais ordem desse mais respeito teria na empresa.

A justiça estava intrinsecamente ligada aos seus princípios. Por isso, se um dos seus familiares quisesse trabalhar na empresa onde dirigia, tinha que esperar pelo anúncio de vaga, entregar currículo, ser seleccionado para entrevista e admitido, como os outros. Uma vez teve uma briga com a sua família por a empresa ter admitido um familiar da esposa e não o dele. Os seus puseram-lhe contra parede perguntando de que lado estava, como se fosse uma guerra.

Logo, após a promoção, não parava de receber ligações, alguns diziam serem amigos de infância, contavam-lhe histórias que ele nunca viveu, lembravam-lhe lugares onde nunca esteve, colegas de escola diziam-lhe que a sua melhor disciplina era afinal aquela que ele menos entendia. Familiares mandavam cartas, saudando, perguntando se a família estava bem, como ia a escola dos meninos, coisa que raramente faziam, excepto alguns que vieram pessoalmente felicitá-lo pela subida de vida, como diziam, parecendo seus deuses terem-lhe aumentado o tempo de vida.

Foi usufruindo de regalias que antes não entendia o porquê, como o facto, dos chefes terem carro, combustível, rancho mensal, casa entre outras benesses, se eles recebiam mais e podiam comprar aquilo diferentemente do trabalhador comum.

Sabia que devia manter-se firme, e estar atento a todos passos dados na empresa, porque segundo ele, havia quem estava à espera de um deslize seu, para ficar com o lugar, como aconteceu consigo.

O lugar que Carlos, sempre quis esteve desocupado, porque o antecessor desviava fundos, abusava do poder, era corrupto, apesar de uma certa competência que mais tarde será provada. Com isso os funcionários reuniram-se e fizeram greve, que terminou com a sua expulsão.

Pelos anos de experiência, a ajuda concedida pelos seus deuses e porque entre os funcionários ele é quem parecia ter o inverso do carácter do anterior, foi nomeado. Melhorou as condições de trabalho dos funcionários, já havia transparência e comunicação interna da situação da empresa, resultado de um diálogo permanente, o desempenho da empresa tornou-se outro.

Passados dois anos, houve também quem o denunciasse, só que desta vez, fez-se um abaixo-assinado, que culminaria, igualmente, com a sua demissão, dependendo da solução que ele daria as reivindicações. Eram funcionárias da empresa, lideradas pela sua secretária. A revindicação era porque ele não tinha e nem queria ter amantes na empresa.

Por: Nelson Lineu, na edição numero 58.

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