Preto & Branco

A coincidentia oppositorum nas personagens femininas da novela Encontro Providencial com Ana Manhiça, de Hemiro Jobus e do conto “No Moinho”, de Eça de Queirós

A imagem da mulher ou a forma como a mulher é representada na literatura sofreu alterações consoante as transformações sociais, políticas, culturais e até ideológicas. Neste contexto, a mulher foi ganhando várias imagens, mas interessam, fundamentalmente, duas: a mulher como um ser singular, sagrado, perfeito e a mulher como um ser diabólico, profano, vulgar, degradado.

Na segunda imagem, mais comum em certa literatura, destaca degradação moral da mulher, os vícios (como o adultério, a prostituição, a ambição desmedida, etc.), e na literatura moçambicana não é diferente. As diversas imagens da figura feminina estão patentes na poesia de Craveirinha, de Noémia de Sousa, nas narrativas de Luís Bernardo Honwana, Ungulani ba ka Khosa, Mia Couto, Lília Momplé, Aldino Muianga, Paulina Chiziane, Bento Sitoe, Andes Chivangue, Rogério Manjate, entre outros.

Ora, é neste contexto que pretendemos analisar, numa perspectiva comparativa, a novela Encontro Providencial com Ana Manhiça, de Hemiro Jobus (escritor moçambicano) e o Conto “No Moinho”, de Eça de Queirós (escritor português), tomando como base a coincidentia oppositorum nas personagens femininas, ou seja, as imagens opostas que se manifestam na mulher (perfeição versus imperfeição/ o divino versus o profano).

É interessante notar que nas duas narrativas, objectos deste estudo, a figura feminina que se constrói obedece, por assim dizer, a imagens duplas, opostas, em que a personagem feminina é primeiro retratada como um ser angelical, único, virtuoso e, depois, como um ser diabólico, defeituoso, vulgar. São, portanto, estes aspectos que pretendemos estudar nas narrativas aqui referidas.

 

  1. A representação da mulher na literatura: uma contextualização genérica

 

Numa perspectiva diacrónica, a representação da mulher na literatura sempre foi diversa. Épocas houve em que a mulher era predominantemente representada como um ser perfeito, devido à visão do mundo e os valores dominantes, às influências e circunstâncias histórico-sociais e até culturais, mas, com o tempo, esta perspectiva foi-se alterando e a mulher passou a ser representada como um ser imperfeito. Note-se, no entanto, que esta representação é a recuperação da imagem da mulher no Livro do Génese: a mulher enganada pela serpente e aquela, por sua vez, convence o homem a comer do fruto do bem e do mal. A respeito deste aspecto e com alguma profundidade, Lobo (s/d) refere que

 

[…] desde a Bíblia delinearam-se os modelos androcêntricos que serviram de modelos para as representações antropológicas da mulher, e que foram enfatizados pelo cristianismo medieval, com Pedro Lombardo (século XII), e reforçados pelas sumas teológicas, no século XIII, como por exemplo: 1) a criação do homem como “modelo” da primeira mulher (Eva) e de todas as mulheres; 2) a canonização dos sacramentos do matrimônio e do sacerdócio não poderem ser exercidos pelas mulheres, ou pelo menos exigirem uma determinada argumentação para que fossem permitidos (não está provado que mulheres exerceram posições de profetas na história, como no caso de Maria Madalena); 3) o impedimento de a mulher ressuscitar como mulher, a partir da cristologia e da escatologia […].”

 

Vale referir que os episódios bíblicos acarretam diversas simbologias e, portanto, devem ser interpretados, tomando em conta este aspecto.

Ora, as hipóteses mais propaladas indicam a sobrevalorização do homem, ou seja, o patriarcalismo como estando na origem da desvalorização da mulher – aspecto que é aproveitado pela literatura –, de tal modo que a valorização da mulher, predominantemente cultivada no Renascimento/Humanismo, é, até certa medida, no sentido inverso.

Na Antiguidade Clássica (Grécia e Roma), a imagem da mulher estava, por assim dizer, subordinada ao homem, mas, primitivamente, segundo Filho, Neves & Filho (2011:3), este desnível começa com “o advento da propriedade privada, [em que] os homens que assumiam papéis relevantes para a sociedade – administradores e executores – passaram a assumir o monopólio da política; [constituindo assim o] início das desigualdades jurídico-sociais.” Esta desigualdade, que resultou em vários papéis e em várias imagens com que as mulheres se foram enformando, arrasta-se até hoje.

Note-se que a Arte Clássica Renascentista, segundo Aguiar e Silva (2011:466), “é regida pelos ideais de harmonia e de ordem […], de conciliação entre o homem e a natureza, entre o ideal e o real, graças à mediação de cânones e paradigmas.” Há, ainda na esteira deste autor, a expressão do “homem em toda a sua dignidade, exaltando a sua beleza e a sua majestade, estilizando a sua figura num sentido sublime e heroicizante.” Portanto, em termos gerais, os artistas do Renascimento exaltam o homem, isentando-o dos seus defeitos ou limpando-os, por outras palavras, retrata a grandeza interior e exterior do homem. Assim sendo, a mulher, também temática deste movimento artístico, há-de ser retratada como um ser perfeito, grandioso, sem mácula. Para reforçarmos esta ideia, associada à noção de imitação (da Natureza), Cruz e Silva (1833:3-4) citado por Aguiar e Silva (2011:517) considera que

 

a imitação não há-de ser tão rigorosa que não tenha mais liberdade que a de copiar servilmente os objectos como ela [a Natureza] os produziu: antes pelo contrário está obrigado a orná-los com todas as graças e perfeições possíveis, e expô-los aos nossos olhos, não como a Natureza os produziu, mas como deveria produzi-los se os quisesse criar no grau mais sublime da perfeição.

 

Entretanto, no Barroco, segundo explica Aguiar e Silva (2011:488), cantam-se “mulheres muito diferentes, na sua fisionomia, na sua condição social e na sua compleição moral.” É a mulher perfeita que excede a beleza natural – que devia ser corrigida pelos primores e artifícios da arte –, mas sobretudo defeituosa que se exalta no Barroco: “um enorme nariz, uma mulher velha e muito magra, uma dama em atitude de satisfazer as suas elementares necessidades fisiológicas, um amante que, ao falar com a amada, sofre um desarranjo intestinal” (Aguiar e Silva, 2011:489). A mulher, deixa, portanto, de ser vista como um ser idealizado, e passa a estar mais próximo e mais acessível.

 

1.1. A figura da mulher na literatura moçambicana

 

Baseando-nos em Mathe (2009), e tomando em conta diversas obras literárias moçambicanas, podemos considerar que algumas das imagens mais frequentes na nossa literatura são:

  • Mulher-mãe, em que a mulher é representada como geradora da vida. Trata-se de uma imagem que, às vezes, está associada à afirmação da identidade africana;
  • Mulher-pátria, que simboliza a terra que sofre por ver seus filhos mergulhados em diversos dramas sociais;
  • Mulher como um ser divino/angélico, que é capaz de inspirar poetas que apreciam e louvam as suas belas qualidades físicas, capazes de corrigir os defeitos da natureza;
  • Mulher como um ser perversos, diabólico, imperfeito. Neste caso, os defeitos físicos e, sobretudo morais, são destacados (a mulher prostituta, adúltera, ambiciosa, gananciosa, amante de bens materiais, entre outras imagens).

 

  1. Análise do corpus

 

2.1. Objectos de estudo

 

A novela Encontro Providencial com Ana Manhiça foi publicada em 2013 pela editora Livaningo Cartão d’Arte e é do escritor Hemiro Jobus.

O conto “No Moinho”, de Eça de Queirós faz parte de uma colectânea de 17 contos, intitulada Contos de Eça de Queirós, publicada em 1902.

 

2.2. O retrato da mulher: da singularidade à vulgaridade

 

Como já nos referimos, a imagem da figura feminina nas obras que constituem objecto deste estudo apresenta coincidentia oppositorum, ou seja, existem na mesma mulher aspectos opostos que constroem, primeiro, uma imagem amena, perfeita, equilibrada e, segundo, uma imagem imperfeita, perversa e horrível.

No Encontro Providencial com Ana Manhiça, temos a história de Júnior que conhece Ana Manhiça e, a partir daqui, começa uma relação amorosa que, mais tarde, termina por motivos relacionados com o mundo sobrenatural: Ana Manhiça tinha um marido espiritual que impedia que ela fosse feliz ao lado de qualquer outro homem carnal. No conto “No Moinho”, a história está em torno de Maria da Piedade – uma mulher fiel e admirada por muitos – que se casa com um homem doente – chamado João Coutinho – sem o amar, com quem, porém, teve três filhos também doentios. Mesmo casada, conhece um primo do marido, Adrião, por quem se apaixona. Porém, Adrião resolve regressar à sua cidade, deixando Maria da Piedade sozinha e mergulhada em sofrimento. A partir daqui, esta mulher transforma-se num ser devasso, que já não cuidava nem do marido, nem dos filhos doentes; passava muito tempo fora de casa e tinha uma relação amorosa com o homem da botica.

 

2.2.1. A mulher como um ser perfeito/virtuoso e singular

 

Os recursos que mais predominam não configuração da imagem da mulher, nas duas obras, são: a adjectivação, a metáfora e a imagem. Nestas obras, a mulher é descrita como um ser supremo, isenta de imperfeições terrenas, como uma obra-prima que supera o carácter extraordinário da Natureza. Os traços físicos são dotados de ímpar e incomparável singularidade, inclusivamente o carácter e a personalidade destas personagens são extraordinárias. São seres com capacidade de transformar o ambiente onde se encontrem. Vejamos a seguir alguns excertos ilustrativos:

 

[…] Nada foi feito fora do aconselhado, para impressionar a moça, que devido à sua indescritível beleza e recato na indumentária, impunha um respeito e solenidade àquele ambiente. […] Tudo o que disser será uma imitação, puras metáforas e traição realidade. Ela foi feita por Deus num dia de grande inspiração e é um desafio à minha imaginação e à sensibilidade de qualquer requintado artista, um perpétuo hino de glória à perfeição da mão Divina, que a criou num molde único para não ser pirateada. Verdadeira sereia por quem contendem os deuses do Olimpo, os numes e swikwembos das sagradas florestas africanas. (Jobus, 2013:8) [os destaques são nossos]

 

Nesta passagem, que ilustra também o dia em que Júnior conhece Ana Manhiça, tem o narrador dificuldades para descrever a rapariga, pois a sua perfeição, mormente física, está acima do humano, do terreno, do vulgar. E esta forma de olhar a mulher está também presente em “No Moinho”, quando o narrador (e outras personagens) caracteriza Maria da Piedade:

 

  1. Maria da Piedade era considerada em toda a vila como «uma senhora-modelo». O velho Nunes, director do Correio, sempre que se falava nela, dizia, acariciando com autoridade os quatro pêlos da calva:

É uma santa! É o que ela é! A vila tinha quase orgulho na sua beleza delicada e tocante; era uma loura, de perfil fino, a pele ebúrnea, e os olhos escuros de um tom de violeta, a que as pestanas longas escureciam mais o brilho sombrio e doce. (Queirós, 1902: 55) [os destaques são nossos]

 

Tal como Ana Manhiça, Maria da Piedade é admirada e descrita com sublimidade, conferindo-se-lhe celsas formas e beleza singular. É, como diz o narrador, uma senhora-modelo.

Entretanto, enquanto a descrição de Ana Manhiça é predominantemente física, a de Maria da Piedade é predominantemente psicológica e moral. Note-se que o velho Nunes a considerava uma santa, uma senhora moralmente íntegra, cujas acções eram isentas de defeitos.

Esta imagem de sublimidade estende-se à quase a totalidade das obras em estudo. A título ilustrativo, em Encontro Providencial com Ana Manhiça, o narrador descreve a rapariga, referindo-se à ansiedade de Júnior por se encontrar com ela, antes de ele ir a Lisboa:

 

Quanta ansiedade viveu Júnior, quando uma semana depois regressa a Lisboa sem ter conseguido falar com aquela beldade nascida na terra por engano ou, na melhor das hipóteses, para mitigar a dor dos martirizados pelo destino, e fazer dos sítios por onde passa pequenos pedaços de céu. (Jobus, 2013: 9)

 

Também a descreve, no regresso de Júnior de Lisboa, já no aeroporto, quando Ana, na companhia da irmã mais nova, lá estava para o receber:

 

“Se não era tão linda [a irmã de Ana] quanto esta, não se podia incriminar o criador de ter sido avaro para com ela em talhe fino e requinte, clareza, back side, orelhas, tudo a eito.” (Jobus, 2013: 10)

 

Ora, ao saírem do aeroporto, Ana Manhiça e Júnior rumaram para casa deste. Depois passaram a encontrar-se com frequência durante longas luas. A sublimação e elevação da Ana Manhiça continuam:

 

“Então, Júnior corria as mãos frementes e saciava-as com a macia tepidez daquela deusa rendida de desejo, e, numa besta de dois dorsos, em loucas cavalgadas, cabelos em desalinho, gemidos de prazer abafados, partiam à busca da Ilha dos Amores.” (Jobus, 2013:12)

 

Tal como o dissemos, há em Encontro Providencial com Ana Manhiça a preocupação pela descrição física de Ana, mas colocando-a numa posição elevada, de perfeição absoluta, sobretudo quando invoca o Criador como quem a fez sem igual, a ponto de tornar perfeitos os lugares por onde passasse, dando a ideia de ser capaz de transformar a própria condição do natural que é em si imperfeita.

No conto “No Moinho”, predomina, no entanto, um retrato psicológico de Maria da Piedade e veja-se que, na passagem a seguir, se podem extrair elementos de caracterização (indirecta) desta personagem:

 

Mas se o marido de dentro chamava desesperado, ou um dos pequenos choramingava, lá limpava os olhos, lá aparecia com a sua bonita face tranquila, com alguma palavra consoladora, compondo a almofada a um, indo animar o outro, feliz em ser boa. Toda a sua ambição era ver o seu pequeno mundo bem tratado e bem acarinhado. Nunca tivera desde casada uma curiosidade, um desejo, um capricho: nada a interessava na Terra senão as horas dos remédios e o sono dos seus doentes. Todo o esforço lhe era fácil quando era para os contentar: apesar de fraca, passeava horas trazendo ao colo o pequerrucho, que era o mais impertinente, com as feridas que faziam dos seus pobres beicinhos uma crosta escura: durante as insónias do marido não dormia também, sentada ao pé da cama, conversando, lendo-lhe as «Vidas dos Santos», porque o pobre entrevado ia caindo em devoção. De manhã estava um pouco mais pálida, mas toda correcta no seu vestido preto, fresca, com os bandós bem lustrosos, fazendo-se bonita para ir dar as sopas de leite aos pequerruchos. A sua única distracção era à tarde sentar-se à janela com a sua costura […]. (Queirós, 1902:57-58)

 

Maria da Piedade era casada com João Coutinho, doente, com quem teve filhos também doentes. Ela passava a vida fechada dentro de casa, cuidando do marido e dos filhos, e nada mais. Nada mais lhe despertava interesse algum a não ser cuidar da família. Ora, a extensa passagem acima mostra que Maria da Piedade era uma esposa preocupada e dedicada à família – cuidar das feridas dos filhos, dar-lhes sopa, animá-los, ler para o marido que estava de cama –, embora triste e solitária, o que reforça a ideia de mulher exemplar/modelo e mulher santa.

Porém, quando Adrião visita o seu primo, João Coutinho,    conhece Maria da Piedade e, a partir daqui, começam a aproximar-se. No primeiro encontro, em casa do primo, Adrião elogia Maria da Piedade, quando João Coutinho lhe assegura que a sua esposa era capaz de tratar da venda da fazenda de Curgossa, a única não hipotecada, mas mal arrendada:

 

Mas que superioridade, prima! — exclamou Adrião maravilhado. — Um anjo que entende de cifras! (Queirós, 1902: 61) [os destaque são nossos]

 

E num dos encontros, no Moinho, Adrião contempla admirado, Maria da Piedade:

 

Adrião via-a de perfil, um pouco curvada, esburacando com a ponteira do guarda-sol as ervas bravas que invadiam os degraus: era deliciosa assim, tão branca, tão loura, de uma linha tão pura sobre o fundo azul do ar: o seu chapéu era de mau gosto, o seu mantelete antiquado, mas ele achava nisso mesmo uma ingenuidade picante. (Queirós, 1902: 65) [os destaques são nossos]

 

Genericamente, podemos observar que, tanto em Encontro Providencial com Ana Manhiça como “No Moinho”, a figura feminina é vista como um ser sublime, incomparável, singular, de celsas formas, superior, próximo dos deuses, capaz de corrigir os defeitos da Natureza. No entanto, na primeira obra, a construção desta imagem radica amiúde na caracterização física e, na segunda, não só na caracterização física, como também na psicológica.

 

2.2.2. A mulher como um ser imperfeito/defeituoso e vulgar

 

Esta imagem é motivada, nas duas obras, por razões diferentes, mas Ana Manhiça e Maria da Piedade transformam-se em seres imperfeitos, vulgares, perversos. Estes mesmos seres, antes perfeitos, são, a partir de um certo momento, representados sobretudo como seres moralmente degradados.

A transformação de Ana Manhiça manifesta-se a partir do distanciamento entre ela e Júnior. Os motivos são de natureza metafísica – embora o início do afastamento comece com a recusa de conceder o visto para a rapariga viajar para Portugal, onde Júnior se encontrava a estudar –, que funcionam como que interferência na relação dos dois:

 

[…] À noite, ela queixava-se de cansaço, falta de vontade para conversar e para o amor. […] Foi consultar um pastor zione que lhe diagnosticou a existência de uma história tão complicada […] É, afinal este Xipoko Macia que empecilha e complica vida de Ana. Foi nele que atrapalhou a ida da moça a Portugal, é ele que agora usa a rapariga, cansando-a. Quando a moça vai visitar o seu namorado, o Xipoko espera-a à entrada do prédio e dá-lhe na cabeça com o fémur de um morto, de modo a sentir dores de cabeça e, nos dias que podia subir com ela, dormia no meio deles e inviabiliza tudo. (Jobus, 2013-14-15)

 

É interessante observar que Júnior, não contente com a explicação do pastor zione, procurou o Sr. Zé da Matola. Este, possesso, conseguiu pegar o espírito do Xipoko Macia que, durante aquele momento, confirmou a versão do pastor.

Vemos, no excerto, que os motivos da mudança de Ana Manhiça são metafísicos, sobrenaturais. Entretanto, é preciso tomar em consideração que a imagem de Ana Manhiça está associada ao facto de, em geral, segundo explicações várias, os espíritos preferirem as mulheres (para as fazer suas esposas).

Maria da Piedade também se transforma, mas, no caso dela, é o facto de Adrião lhe ter despertado uma paixão que não foi satisfeita (Adrião, após a tratar da venda da fazenda do primo, resolve regressar à sua cidade):

 

Achava absurdo e infame fazer a corte à prima… Mas involuntariamente pensava no delicioso prazer de fazer bater aquele coração que não estava deformado pelo espartilho, e de pôr enfim os seus lábios numa face onde. Não houvesse pós de arroz… […]

E de repente, sem que ela resistisse, prendeu-a nos braços, e beijou-a sobre os lábios, de um só beijo, profundo e interminável. Ela tinha ficado contra o seu peito, branca, como morta: e duas lágrimas corriam-lhe ao comprido da face. Era assim tão dolorosa e fraca, que ele soltou-a; ela ergueu-se, apanhou o guarda-solinho e ficou diante dele, com o beicinho a tremer, murmurando:

É mal feito… É mal feito… Ele mesmo estava tão perturbado — que a deixou descer para o caminho: e daí a um momento seguiam ambos calados para a vila. Foi só na estalagem que ele pensou: «Fui um tolo!»

Mas no fundo estava contente da sua generosidade. À noite foi a casa dela: encontrou-a com o pequerrucho no colo, lavando-lhe em água de malvas as feridas que ele tinha na perna. E então pareceu-lhe odioso distrair aquela mulher dos seus doentes. De resto um momento como aquele no moinho não voltaria. Seria absurdo ficar ali, naquele canto odioso da província, desmoralizando, a frio, uma boa mãe… A venda da fazenda estava concluída. Por isso, no dia seguinte, apareceu de tarde, a dizer-lhe adeus: partia à noitinha na diligência; encontrou-a na sala, à janela costumada, com a pequenada doente aninhada contra as suas saias… Ouviu que ele partia, sem lhe mudar a cor, sem lhe arfar o peito. Mas Adrião achou-lhe a palma da mão tão fria como um mármore: e quando ele saiu, Maria da Piedade ficou voltada para a janela, escondendo a face dos pequenos, olhando abstractamente a paisagem que escurecia, com as lágrimas, quatro a quatro, caindo-lhe na costura. (Queirós, 1902: 64-67) [o destaque é nosso]

 

Na passagem que acima foi indicada, o medo de desvirtuar Maria da Piedade é notório em Adrião, mesmo depois de ele a ter tomado nos braços e beijado. Não queria que ela deixasse de cuidar dos pequerruchos e do marido, nem que ela deixasse a família por causa dele. Deste modo, a partida Adrião foi a gota de água (agravada pelo facto de Maria da Piedade ter alimentado a paixão a partir da leitura de romances e poemas líricos), uma vez que Maria da Piedade estava apaixonada por ele.

Contudo, que imagem se enforma a partir daqui, tanto em Ana Manhiça como em Maria da Piedade?

Ana Manhiça começou a queixar-se de dores de cabeça e falta de vontade para o amor. Tornou-se fria e, como o texto ilustra, jamais voltou a ser a mesma. Andava com o celular desligado e, quando Júnior procurava explicações, estas eram pouco convincentes.

Um aspecto interessante, nesta nova imagem de Ana Manhiça, é a influência do ambiente familiar conturbado, originado pela separação precoce dos pais:

 

O carácter forte da moça, temperado pela separação precoce de seus pais e pela responsabilidade de, juntamente com a sua mãe, prover sustento para os seus quatro irmãos ainda menores, terá contribuído negativamente, quando Júnior procurava ajudá-la na condição de mulher que era (Jobus, 2013:16).

 

Ora, também Maria da Piedade provém de uma família que vivia em ambiente conturbado. O pai dela era bêbado, a mãe, uma criatura desagradável:

 

A mãe era uma criatura desagradável e azeda; o pai, que se empenhara pelas tavernas e pelas batotas, já velho, sempre bêbedo, os dias que aparecia em casa passava-os à lareira, num silêncio sombrio, cachimbando e escarrando para as cinzas. Todas as semanas desancava a mulher. E quando João Coutinho pediu Maria em casamento, apesar de doente já, ela aceitou, sem hesitação, quase com reconhecimento, para salvar o casebre da penhora, não ouvir mais os gritos da mãe, que a faziam tremer, rezar, em cima no seu quarto, onde a chuva entrava pelo telhado (Queirós, 1902:55).

 

O carácter de Maria da Piedade é, como o texto nos mostra, resultado do ambiente donde ela é originária. Os vícios que os pais tinham são, sem dúvidas, as mais certas razões para Maria da Piedade ter aceitado casar-se com um homem que não amava.

É também o ambiente familiar que influencia o temperamento de Ana Manhiça. Ademais, os problemas espirituais também estão na origem do comportamento de Ana Manhiça, pois,

 

“Livre da influência satânica do Xipoko Macia, Ana era uma doçura, completando esta bondade de espírito com aquela formosura sem nome…” (Jobus, 2003:16).

 

Veja-se a imagem que, a partir daqui, Ana Manhiça passa a ter:

 

Ana simplesmente deixou de telefonar, de aparecer, e num dia em que foi deixar os livros de uma amiga […], não se sentou e nem deu azo para dois dedinhos de conversa. […] […] Se no início o diálogo decorreu num ambiente cordial, não se pode dizer o mesmo quando chegou ao seu término. Ela desferiu-lhe umas palavras azedas, sinal de mágoa […] acima de tudo, por ela ver mais um sonho a dissipar-se como nuvens num dia de ventania. (Jobus, 2013:18-19)

 

Apesar desta reacção, Ana Manhiça e Júnior ainda se reencontraram, tendo conversado algumas vezes, até que retomaram a relação, três anos depois, por iniciativa da rapariga. Porém, os momentos que se seguiram foram marcados por constante sofrimento, desentendimento entre os dois, pois Ana Manhiça, na verdade, continuava a mesma, movida por todas as vicissitudes que já foram apresentadas nesta análise:

Os primeiros dias de convivência do casal não foram fáceis […] Passaram-se duas semanas de indescritível tensão e nervos. Ele a querer e ela sem vontade. Não era fácil para Júnior partilhar o mesmo leito e lençóis com uma mulher apetecedora pronta para tudo, mas quando chegasse a hora da verdade… nada!

[…]

Ana já não era a mesma mulher afável, compreensiva, mas rebelde e má. Não falava mais em planos comuns, mas de individuais. Amor tinha volatilizado. […] Desde Maio, Júnior tinha que exercitar a paciência para contornar o mau humor da mulher que só se ria de cenas de telenovelas que via até altas horas da noite. […] Vezes havia em que ela ao volante rumavam (sic) à cidade num silêncio de cortar à faca… (Jobus, 2013:26-28)

Quanto a Maria da Piedade, o afastamento de Adrião transformou-a numa criatura próxima de Ana Manhiça, do ponto de vista de comportamento, ou seja, uma mulher “santa”, embora, triste, mas dedicada ao marido e aos filhos transforma-se numa mulher perversa, vulgar, que resolve revelar atitudes que, durante muito tempo, a sufocavam:

 

Maria da Piedade ficou voltada para a janela, escondendo a face dos pequenos, olhando abstractamente a paisagem que escurecia, com as lágrimas, quatro a quatro, caindo-lhe na costura…

[…]

Este amor latente invadiu-a, apoderou-se dela uma noite que lhe apareceu esta ideia, esta visão: «Se ele fosse meu marido!» Toda ela estremeceu, apertou desesperadamente os braços contra o peito, como confundindo-se com a sua imagem evocada, prendendo-se a ela, refugiando-se na sua força… Depois ele deu-lhe aquele beijo no moinho.

E partira!

Então começou para Maria da Piedade uma existência de abandonada. Tudo de repente em volta dela — a doença do marido, os achaques dos filhos, as tristezas do seu dia, a sua costura-lhe pareceu lúgubre. Os seus deveres, agora que não punha neles toda a sua alma, eram-lhe pesados como fardos injustos. A sua vida representava-se-lhe como desgraça excepcional: não se revoltava ainda, mas tinha desses abatimentos, dessas súbitas fadigas de todo o seu ser, em que caia [sic] sobre a cadeira, com os braços pendentes, murmurando:

— Quando se acabará isto? Refugiava-se então naquele amor como uma compensação deliciosa. Julgando-o todo puro, todo de alma, deixava-se penetrar dele e da sua lenta influência. Adrião tornara-se, na sua imaginação, como um ser de proporções extraordinárias, tudo o que é forte, e que é belo, e que dá razão à vida. Não quis que nada do que era dele ou vinha dele lhe fosse alheio. Leu todos os seus livros, sobretudo aquela «Madalena» que também amara, e morrera de um abandono. Estas leituras calmavam-na, davam-lhe como uma vaga satisfação ao desejo. Chorando as dores das heroínas de romance, parecia sentir alívio às suas. (Queirós, 1902:67-69)

 

Este momento elucida a transformação por que Maria da Piedade passa. A dedicação que prestava à família, filhos e marido, era-lhe um fardo. Nalgumas vezes, estava entre a vontade de estar com Adrião, recordando-se dos momentos que com ele passou no Moinho, e a vontade de acabar com o seu sofrimento.

Em Encontro Providencial com Ana Manhiça, porém, Ana Manhiça não tem recordações. O comportamento dela – que não se altera – parece ter rasurado todo o passado, de algum modo cor-de-rosa, ao lado de Júnior, e a mudança dela atinge o extremo quando resolve envolver-se com um amante – tal como o fez Maria da Piedade –, passando a trair o marido (traição descoberta por Júnior, quando acedeu ao e-mail dela), para além de guardar uma mala que continha dois resultados positivos de um teste de HIV.

 

A convivência tinha azedado entre o casal que o pouco que ainda resistia e restava da sua amizade […] mirrava e minguava cada dia que passava e, aconteceu…

[…]

O desinteresse de que se queixava ao seu homem, era apenas um pretexto de quem se refastelava fora e voltava de barriga cheia […] No apogeu dos seus desentendimentos, ela guardava e controlava a sua mala de mão religiosamente, o que intrigava o homem a quem jurara dar amor que ele nunca havia tido. Se com tanta preocupação a guardava, muita atenção despertou ao seu companheiro que descobriu que eram resultados de dois testes de HIV feitos numa clínica. Coincidência ou não, depois daqueles testes, não voltou a haver mais convivência marital em casa, levando ela uma vida desenfreada com o amante que lhe prometia mundos e fundos até casa cujas chaves ela trazia alegando que eram do lar de estudantes em que havia vivido em tempos. […] As circunstâncias ditaram um fim sem glória para ela, pois no fim, não ficou com tal amante, tendo voltado para um terceiro que em tempos a humilhara sem dó nem piedade. (Jobus, 2013:34-35)

 

Nesta passagem, podemos tomar em consideração os seguintes aspectos: o auge do desentendimento entre Ana Manhiça e Júnior resulta da traição daquela, ao envolver-se com vários amantes; o teste de HIV e promessas de bens materiais que parecem ser o motivo pelo qual ela traía o marido.

Também Maria da Piedade trai o marido. Primeiro com Adrião, mas, mais tarde, com outros homens. As posteriores traições, de acordo com o texto, resultam da partida de Adrião:

 

A realidade tornava-se-lhe odiosa, sobretudo sob aquele aspecto da sua casa, onde encontrava sempre agarrado às saias um ser enfermo. Vieram as primeiras revoltas. Tornou-se impaciente e áspera. Não suportava ser arrancada aos episódios sentimentais do seu livro, para ir ajudar a voltar o marido e sentir-lhe o hálito mau. Veio-lhe o nojo das garrafadas, dos emplastros, das feridas dos pequenos a lavar. Começou a ler versos. Passava horas só, num mutismo, à janela, tendo sob o seu olhar de virgem loura toda a rebelião de uma apaixonada. Acreditava nos amantes que escalam os balcões, entre o canto dos rouxinóis: e queria ser amada assim, possuída num mistério de noite romântica…

[…]

Às vezes, ao pé do leito do marido, vendo diante de si aquele corpo de tísico, numa imobilidade de entrevado, vinha-lhe um ódio torpe, um desejo de lhe apressar a morte…

[…]

A santa tornava-se Vénus. E o romanticismo mórbido tinha penetrado tanto naquele ser, e desmoralizara-o tão profundamente, que chegou ao momento em que bastaria que um homem lhe tocasse, para ela lhe cair nos braços — e foi o que sucedeu enfim, com o primeiro que a namorou, daí a dois anos. Era o praticante da botica.

Por causa dele escandalizou toda a vila. E agora deixa a casa numa desordem, os filhos sujos e ramelosos, em farrapos, sem comer até altas horas, o marido a gemer abandonado na sua alcova, toda a trapagem dos emplastros por cima das cadeiras, tudo num desamparo torpe — para andar atrás do homem, um maganão odioso e sebento, de cara balofa e gordalhufa, luneta preta com grossa fita passada atrás da orelha e bonezinho de seda posto à catita. Vem de noite às entrevistas de chinelo de ourelo, cheira a suor; e pede-lhe dinheiro emprestado para sustentar uma Joana, criatura obesa, a quem chamam na vila «a Bola de Unto». (Queirós, 1902:69-71) [os destaques são nossos]

Ora, está explícito na extensa passagem acima que Maria da Piedade, para além da traição com Adrião, teve outras relações enquanto casada, entregando-se a qualquer homem que lhe surgisse pela frente. A fraqueza de Maria da Piedade rasurou completamente a admiração que inicialmente a vila tinha por ela, acrescida ao facto de deixar a casa numa desordem, os filhos sujos e ramelosos, em farrapos, sem comer até altas horas e o marido doente a gemer abandonado na sua alcova.

Estamos perante uma imagem disfórica que, à luz dos elementos que os textos nos fornecem, faz de Ana Manhiça e Maria da Piedade mulheres que, de um lado, são retratadas como seres perfeitos, angélicos, de traços e beleza singulares, tanto por fora como por dentro, em que condição e o estatuto inicial em que elas surgem é de equilíbrio, mas, de outro lado, devido a diversas vicissitudes, transformam-se em seres imperfeitos – até diabólicos –, vulgares, perversos, o que nos leva a concluir que, nos dois textos, na imagem da personagem feminina ocorre o que se pode designar coincidentia oppositorum.

Conclusão

Tomando em conta os textos que foram analisados neste estudo, podemos concluir que há, de facto, coincidentia oppositorum tanto em Ana Manhiça (do livro Encontro Providencial com Ana Manhiça) como em Maria da Piedade (do conto “No Moinho”). As duas personagens femininas são construídas, inicialmente, como mulheres exemplares, perfeitas, física e psicologicamente, angélicas e de beleza singular. Entretanto, transformam-se em mulheres imperfeitas, moralmente degradadas –, pois a beleza física mantinha-se – e vulgares. A transformação de Ana Manhiça radica por um lado, em problemas espirituais, mas, por outro lado, no contexto familiar em que ela cresceu. Contudo, também Maria da Piedade é influenciada pelo ambiente familiar em que cresceu, sendo diferente o facto de ela ter sido “abandonada” pelo primo do marido, Adrião, por quem se tinha apaixonado.

Como consequências, tanto Ana Manhiça como Maria da Piedade cometem adultério, ao traírem os maridos. Entretanto, Ana Manhiça (que também havia sido contaminada com o HIV) separa-se de Júnior, o que difere da situação de Maria da Piedade, pois esta não se separa de João Coutinho.

 

Referências Bibliográficas

 

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Jobus, Hemiro (2013). Encontro Providencial com Ana Manhiça. Maputo: Livaningo Cartão d’Arte.

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Mathe, Alberto (2009). Representação da Mulher na Literatura Moçambicana. Disponível na internet em: http://albertomathe.blogspot.com/2009/11/representacao-da-mulher-na-literatura.html. Arquivo acedido em 19 de Outubro de 2015.

Queirós, Eça de (1902). “No Moinho”. In Contos. s/l: Biblioteca Alexandria. Pp (55-71).

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