Preto & Branco

Senhora Ministra da Cultura, faça alguma coisa!

Diz a História e Filosofia da educação que, para a formação de um homem completo, a educação já nos estados antigos, pressupunha o ensino de disciplinas como a Gramática, Retórica, Matemática, Aritmética, a Ginástica e a Música. Os que tiveram, por ventura, algum contacto com a história da antiguidade clássica pode testemunhar tal facto. Essas “disciplinas” ensinadas aos jovens na Grécia e Roma antigas visavam, como já mencionei acima, formação completa do homem, sendo que, já se havia visto, até então, a importância do ensino de cada uma delas para a formação do homem em todas as suas esferas.
Não irei trazer a razão de se ter destacado cada uma destas “disciplinas” todas, pois, isto tornar-se-ia uma reflexão, demasiadamente, longa. Porém, o dado que quero, aqui, destacar é o ensino da música nesta fase da historia da Humanidade. Segundo Cláudio Recco, esta arte, a música, abrangia a poesia e a dança, sendo que, poemas eram recitados ao som de acompanhamento musical da Lira, os gregos atribuíam aos deuses sua música, definindo-a como uma criação integral do espírito, um meio de alcançar a perfeição. Platão considerava que a música tinha grande influência sobre o homem por isso devia estar sobre controle do Estado, considerava-a (a música) como responsável por garantir o bem social.
É óbvia a importância do ensino da música para a formação do homem, dai que, me aproveito desta para salutar, antes de mais, o facto de termos no nosso currículo a disciplina “Educação Musical”, embora seja evidente que o objectivo do ensino desta disciplina aqui em Moçambique, não é o mesmo que os Gregos tinham quando ensinavam a Música.
Fui um dos que tiveram a oportunidade de ter a disciplina de Educação Musical na Sexta e Sétima classes, onde aprendi de um professor que não tinha uma formação, suficientemente, consistente para leccionar aquela disciplina, facto esse, que se evidenciou por diversas formas. Ele cingia-se a ditar o que vinha no manual para o caderno de apontamento, não conseguia sanar as dúvidas que emergiam ao longo das aulas, mesmo assim, não culpo ao professor, pois, simplesmente, não era formado em música e na ciência não há milagres.
Comecei, nesta fase, a fazer uma investigação, afim de entender mais sobre a música, principalmente, para saber interpretar as partituras que estão nos manuais da disciplina em questão. Com ajuda de um maestro e compositor que eu tinha na Escola Dominical na minha igreja, não demorei muito a atingir o meu objectivo, em pouco tempo consegui ler e interpretar as partituras dispostas nos livros, não só, como também desenvolver mais em aspectos da área. Hoje em dia, interpreto tanto em “Tonic Solfa” quanto em “Pentagrama” bem como escrevo o que componho nos dois sistemas.
Os conhecimentos que fui adquirindo ao longo deste período, foram suficientes para que constatasse que, O HINO NACIONAL é mal cantado, ou seja, a execução do hino nacional “Pátria amada” que se faz pelas escolas e outros locais está totalmente incompleta e isso coloca em causa a nossa dignidade como seres pensantes e donos do Hino. Creio que não haja nenhuma outra nação no Universo que deixa com que algo do género aconteça e assim fique por tantos anos quanto os anos em que nasceu o nosso Hino Nacional.
Há muita coisa que vai de mal a pior aqui neste país e que, normalmente, se deixa andar, e esta é uma delas. Não se explica que até aqui não se tenha mandado parar de lavar ao ar, através da Rádio e da Televisão, um Hino mal-executado, que a sua partitura é possível de se achar em qualquer esquina.
Como é que se explica que haja uma má entoação do hino nacional? Num país onde há uma Universidade que tem Música como um dos cursos. Num país onde há uma escola de Nacional de Música. Num país onde há uma Casa da Cultura e acima de tudo um Ministério da Cultura. Como é que se explica? Que todos os dias a Rádio a Televisão de Moçambique, ambos do Estado, passem o hino que foi mal gravado?
No dia 15 de Maio de 2014, o jornal @verdade abordara o assunto “Hino Nacional”, onde afirmou, categoricamente, que o Hino está viciado de erros e através da entrevista feita ao maestro e professor Feliciano de Castro, licenciado em música pela Universidade Eduardo Mondlane comprovou-se o mal que já virou sequela.
O facto que torna as coisas mais graves é que mesmo depois de o assunto ter sido abordado num órgão de comunicação social, ainda prevaleça a ignorância de mandar a gravação ao ar todas as manhãs. Uma prova clara de estarmos num país desleixado onde, mesmo vendo os erros, continuamos alheios aos mesmos.
Com certeza que, em qualquer outro país, onde se dá importância à questões nacionalistas e não oportunistas, onde haja respeito pelos direitos do autorais, onde haja dignidade, já se teria mandado parar com a gravação que circula, diariamente, nas rádios e se gravado a versão original que vem na partitura do compositor Salomão Manhiça.
No dia em que os musicólogos internacionais ouvirem os moçambicanos entoando o seu próprio Hino nacional desta forma, errada, será uma vergonha autêntica. Não se explica que, em todas cerimónias em que estão os dirigentes do país se entoe mal o Hino e ninguém diga nada. É Uma prova de ignorância total, sinceramente, Isto é a pior falta de vergonha. Onde está a nossa dignidade?
Em todas ocasiões em que se contrata grupos corais bem instruídos para as cerimónias oficiais, quando executam o hino Nacional como deve ser, ou seja, da forma como vem na partitura, os respectivos maestros são conotados de criminosos, pois, a versão original é vista como um arranjo. Os directores, movidos de ignorância ameaçam os maestros e grupos que estão, na verdade, fazendo o certo.
Para piorar, na contra-capa dos manuais nacionais de ensino, colocou-se apenas a letra do Hino excluindo-se a parte melódica, é mais um erro. Uma música é mais do que um simples poema. Sou da opinião de que devia se ter imprimido nos livros a partitura completa e original, e não simplesmente a letra.
O erro consiste no facto de, enquanto na partitura original, a primeira e a terceira voz cantam “Moçambique nossa terra gloriosa”… a segunda e quarta entram em contra ponto e cantam “ Moçambique nossa terra “GENEROSA”… e não “gloriosa” como erradamente se canta por ai. Os que tiverem acesso à pauta, certamente que, não se estão escandalizando com isto, isto é um velho dado que vem sendo espezinhado há bastante tempo.
Termino pedindo ao Ministro da Cultura que mande parar com a gravação que diariamente vai ao ar nas rádios, não podemos ser os primeiros a entoar mal o nosso hino. Urge que paremos com isto!
Hoje em dia, há muitos grupos corais que dominam a interpretação de partituras, não custava nada gravar-se a versão original do hino. Se nos resta um pouco de dignidade que se corrija o erro, deixemos de ser ignorantes!

 

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