Preto & Branco

Já estamos em guerra mesmo!

Pena é que na história pós-colonial de Moçambique todas guerras terminaram em diálogo. Conversamos com Dr. Marlino Mubai, investigador na faculdade de letras e ciências, departamento de história na Universidade Eduardo Mondlane tendo dito o seguinte.

Moçambique conquistou a Independência em 1975 salvo erro. Mas viveu um ambiente de guerras civis, a primeiro com duração de 16 anos e mais tarde surgiam outras metades. Quer comentar?

Para mim, a história de Moçambique é marcadamente marcada por conflitos armados.  Antes de falar da guerra civil é preciso recuar para o período pré-colonial e colonial. Já antes da penetração mercantil e europeia do século XV, os reinos e impérios africanos no actual território moçambicano estavam envolvidos em guerras pelo controle de recursos. O último exemplo destas guerras é a conquista Angoni no século XIX. Estas guerras mudaram o mapa político de toda a África Austral e oriental. Com as deliberações da Conferência de Berlim de 1884/5, o território de Moçambique actual assistiu às guerras de conquista colonial efectiva. Após a derrota dos povos africanos em 1895, Moçambique foi palco da Primeira Guerra Mundial em África. Esta guerra atingiu o norte e centros de Moçambique entre 1917 e 1918. Já em 1964, inicia a luta armada de libertação nacional também com epicentro no norte de Moçambique. Após o término desta guerra em 1974, em 1976, Moçambique é assolado pela guerra civil que se prolonga até 1992. Em 2013 voltamos a cair em mais um conflito que se prolonga de forma intermitente até 2018. A este conflito, em 2018, juntam se os ataques a alvos civis e militares em Cabo Delgado por grupos armados até aqui desconhecidos.  Portanto nos últimos 100 anos, Moçambique ainda não conheceu um período de paz e prosperidade.

Recentemente surgem homens sem “rosto” em Cabo Delgado que nos fazem lembrar como iniciaram vulgo Bandidos Armados e estão a chegar forças militares estrangeira com material bélico. O que se pode esperar?Historiadores não fazem bons profetas, mas avaliando pela longa história de conflitos armados em Moçambique temos elementos suficientes para aprender com o passado. Tal como os conflitos anteriores, começando pela luta armada de libertação nacional, a resposta inicial dos governos do dia tem sido de subestimar a ameaça. O governo colonial desprezou a Frelimo e esta acabou ganhando a guerra e descolonizar Moçambique. Por sua vez, o governo da Frelimo subestimou a Renamo e esta acabou desestabilizando todo o país. Actualmente, não me parece que estejamos a aprender destas experiências para responder aos desafios impostos pelos grupos armados em Cabo Delgado. Uma das grandes lições das guerras que Moçambique conheceu no período pós-independência é que todas terminaram em diálogo. Infelizmente isto acontece depois de muita destruição e perda de vidas humanas. Se a história já nos ensinou que não há vitórias absolutas contra insurgência armada num país onde há muita gente susceptível de ser atraída por insurgentes, se calhar seja melhor apostar no que, ao longo da história de guerra em Moçambique tem dado certo, o diálogo. Nos últimos dias de campanha eleitoral para as eleições do presente ano, ouvi o Presidente da República e candidato à sua sucessão a manifestar interesse em dialogar com os insurgentes de Cabo Delgado. Se isto vier a acontecer, estaremos a aprender melhor pela história do país. Não ignoro que a confrontação militar tenha influência no nível de exigências na mesa negocial. Uma vez que, a parte que estiver em vantagem no teatro das operações militares tem mais possibilidade de impor as suas exigências na mesa negocial. Entretanto nas guerras moçambicanas não tem havido vitórias permanentes e seguras onde o adversário se rende. Na verdade, pela natureza das guerras que afectam Moçambique, a rendição incondicional é algo difícil. Assim, o custo de prolongar a Guerra na esperança de debilitar o inimigo, é muito maior que um diálogo de paz no início do conflito.  Para terminar, devíamos adoptar uma estratégia preventiva que garante que as causas que alimentam os conflitos armados em Moçambique sejam estancadas atempadamente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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