Preto & Branco

Água por voto, voto pela água. Isso não!

A campanha eleitoral, em Moçambique, está ao rubro e cada partido e o seu respectivo candidato vão vendendo o seu peixe de todas as formas que a possibilidade lhes permite. Ao sabor da metáfora ouso, até, afirmar que os partidos políticos vão, literalmente, se prostituindo para o cidadão naquilo que apelidam caça ao voto. Ninguém perde a oportunidade. Das artérias municipais aos atalhos distritais não faltam coloridos rios de gente cantando, dançando enquanto se autopromovem e promovem a figura do seu potencial candidato aos olhos dos moçambicanos neutros, ou seja, aqueles moçambicanos que esperam alguma influência directa para se posicionar face às várias opções que pairarão nos boletins de voto no dia da justiça pela tinta caneta e/ou pelo indicador.

Como de fiel nas campanhas, da presente também já se viu de tudo, desde a destruição de material propagandístico dos outros, agressões entre os membros das caravanas de partidos adversos quando colidem pelas ruas como duas rivais disputando o mesmo marido em dia de alta concupiscência. Desta campanha, já se viu até o cume, mortes (que o acontecimento de Nampula não me deixe mentir). Não sabemos se o pior é ver os moçambicanos que se tratam como água e corrente eléctrica por pertencerem a lados políticos antagónicos ou ver os moçambicanos que inalam as promessas de veracidade vazia que pulam da boca dos políticos fora. Para esta intervenção, interessa viajar no último assunto, o das promessas falsas.

Diga-se que as promessas falsas são uma espécie de bebida tradicional e que, também por tradição, nunca falta à campanha para embriagar o povo, ou por outra, lustro após lustro, as falsas promessas estão infalivelmente presentes para ludibriar os que tem o poder de fazer a escolha. Eis que nalgum momento me questiono se o pior é a pessoa que mente ou a que, humildemente, acredita na mentira. Por vezes as promessas não pecam por simplesmente não serem passíveis de realização, mas por serem promessas de coisas que, noutros cantos do mundo, normalmente não se precisam que o povo vote para que usufrua de tais coisas. Ora vejamos.

Auscultando alguns pedaços dos discursos que os caçadores ao voto proferem do cimo dos palanques ou pela superfície das ruas, tem sido recorrente promessas da garantia de coisas como energia eléctrica, vias de acesso, habitação, emprego aos jovens desempregados que tanto abundam neste país, água potável em algumas zonas, escolas, hospitais, entre outras demais coisas. Pela minha sensibilidade tamanha, até desligo o televisor ou a rádio quando começo a ouvir gente que saiu dos palácios, abandonou os banquetes, desceu das Mercedes, usa óculos de lentes de titânio, veste roupas doutras galáxias, a prometer algo como água potável à pessoas, em troca de voto. Em pleno século XXI, para mim, não é conceptível que a condição para se passar beber água potável, numa localidade, tenha de ser a escolha de uma pessoa ou partido político em detrimento de uma segunda ou terceira, numa certa disputa política.

A água não é, afinal, um direito humano? Alias, antes de ser simplesmente um direito humano, é uma condição básica para que as pessoas vivam. Então, por que é que deve se comprar água votando? Quando tinha o meu avô em vida, o idoso sempre cantava para nós que a água não se pode negar a ninguém e, desde então que na minha mente reside essa máxima de tal forma que mesmo ao meu maior inimigo negaria água.

Neste período de campanha, nota-se, claramente, que alguns Direitos humanos, em Moçambique, tem um preço, custam um voto. Se eu estiver, de algum modo, enganado alguém por favor me responde:

A educação não é, afinal, um direito humano? Então por que é que o povo tem de comprar escola com voto? Digo “comprar escola” com voto, pois, não nos faltam políticos que prometem construir escola caso sejam os vencedores na corrida eleitoral do presente ano.

As estradas que, no final do dia, beneficiam o país todo. Sem contar o facto de o nosso país ter a função do corredor para os países do interland, ou seja, se num certo distrito se constrói uma estrada, certamente que não benfeitorizará somente aos nativos e residentes desse distrito, mas à todos os moçambicanos (e certos países africanos, dependendo da localização dessa estrada). Se assim o é, por que é que se deve comprar a estrada votando? A saúde (assistência médica) não é, afinal, um direito humano? Se sim, por que é que se deve comprar os hospitais votando?

Numa das minhas viagens pelo mundo dos livros, um excerto da obra de Noé Nhantumbo, intitulada: África Moçambique. Sem coerência não há boa governação, chamou-me a atenção. Pelo seu teor, sem o “catimbar” por paráfrases passo a citar “Os políticos são normalmente as pessoas que se preocupam com ou pela pobreza, pelo menos do ponto de vista vocal, discursivo. São os que aparecem a manifestar preocupação especial com esta situação como se pretendessem tratar da sua erradicação imediata. Mas prolongam-se os mandatos e os resultados nesta frente são praticamente nulos”.

A priori, este excerto pareceu-me um ataque aos “coitados” dos políticos e quase apelidava Nhantumbo de insensível, porém, quando parei para observar o moddis operandi dos nossos políticos, sobre tudo, nestes tempos de caça ao voto, de sincera mente que, procuro Nhantumbo para um aperto de mão e gratidão pela veracidade com que manuseou os contornos da sua obra, no geral, e do excerto acima, em particular.

Os moçambicanos têm, nas mãos, a prerrogativa de ditar as directrizes político-económicas do seu próprio país desde longínquo ano de 1975. Ou seja, são cerca de 44 anos andando com os nossos próprios pés e, até hoje, ainda se promete ÁGUA para o consumo numa campanha eleitoral. Face a esta situação, antes de qualquer outra coisa me questiono do amor ao próximo, do espírito nacionalista, da parte sensível que deve, normalmente, nos preencher como ser humanos. Depois me questiono se não seria isto um certificado ou diploma de incompetência governamental timbrado com o vergonhoso selo de estupidez?

Consta-me, no meu pacato raciocínio, que 44 anos de governação deviam ter sido suficientes para se canalizar pelo menos água para todo o povo moçambicano. Acabo também por pensar que se, se deixa o povo de certas localidades sem água é para que a sede seja a força motriz que obrigara os eleitores a enveredarem por uma certa escolha política. Não se justifica que a água ainda seja um bem por se comprar com voto.

Precisamos conhecer os limites até os quais devem ir as condições para votar numa certa figura e num certo partido, bem como conhecer o que são direitos humanos e que, por serem direitos, não se precisam comprar com votos.

Noutros países, por estas sendas, as promessas que andam nos manifestos eleitoras (que, inclusive, todo o cidadão tem acesso) são as políticas económicas favoráveis aos empresários, projectos de manutenção e remodelações de infra-estruturas e vias, pacotes de preservação e protecção aos impactos nocivos ao ambiente, alavancamento da economia, redução de impostos aos trabalhadores e as empresas nacionais e multinacionais, plano educacional para pessoas com baixo rendimento, plano de saúde para idosos, incapazes e pobres, políticas de combate a todos os tipos de crime organizado. Aqui em Moçambique ainda se promete água potável. Francamente! Sem contar que é uma promessa falaciosa encapada pela voz sentimental de quem fala parecendo se importar com os pobres. Urge saber dar aos seres humanos, moçambicanos, aquilo que merecem pela condição de serem simplesmente seres humanos, sem que para isso precisem votar.

A água, a educação, a saúde não são condições para se votar em ninguém, é obrigação do Estado e do governo garantir tais coisas para toda a pessoa que reside neste espaço geográfico de nome Moçambique. A parte mais triste é saber que, daqui a cinco anos a promessa será a mesma, ou seja, a meio século de independência, meia dúzia de ricos, milhares de homens pobres que se vai tornando pobres homens.

 

Adicionar comentário

Leave a Reply