Preto & Branco

A IDENTIDADE MOÇAMBICANA É NEGOCIAÇÃO

Actualmente, há uma mistura de práticas sociais que, em algum momento, nos confundem sob ponto de vista de identidade cultural. Pois, com objectivo de trazer ao debate reflexões sobre este fenómeno, fomos ao encontro do Docente e pesquisador de Literatura Moçambicana, Doutor Aurélio Cuna, que, à questão sobre o que é cultura moçambicana, teceu os seguintes comentários:

Primeiro, o tema ‘Cultura’ é extremamente vasto e complexo. Desse modo, julgo-me muito pequeno para falar sobre a cultura no geral. Reconheço que a cultura tem aspectos particulares, alguns deles com autonomia. Segundo, não poderei opinar sobre ponto de vista académico como me sugerem, pois recebi o convite e aceitei-o em menos de vinte e quatro horas. Opiniões desse tipo requerem uma preparação e uma documentação prévia, que não a tenho.

Gostaria de propor que as minhas intervenções fossem entendidas numa certa faceta da cultura, e não em todas, pois sou tão pequeno para me referir a dimensão cultural na sua complexidade.

Retomo a questão que tem a ver com o conhecimento da cultura, em termos de as pessoas estudadas serem as que maior apetência e competência têm para se referir a assuntos culturais e aquelas não alfabetizadas (digo isto com muita tristeza), seriam as que, em fim, em último grau, teriam uma palavra a dizer, quando se trata de assuntos culturais e outros saberes.

Começo por aqui, justamente por me lembrar de um posicionamento que tanto me comove, exactamente pela sua rectidão – é o posicionamento de José Régio (intelectual e ensaísta português), ele falava no seu texto do saber ler e dado passo diz o seguinte: “existem analfabetos – aqueles que não sabem ler por excelência- que pela experiência da vida, pelo trato com os homens, acumularam, por experiência também, um conhecimento estupendo.

Diz ainda, tristemente, quiçá esses analfabetos tivessem tido acesso à escola – chegariam muito longe. Isto chamou-me atenção, por isso retomo o primeiro tópico para dizer que não me parece verdade que só pessoas escolarizadas são as que têm acesso à cultura ou alvarás para falar sobre ela, pois a cultura é um universo que está ao alcance de todos.

O trato com a cultura é extensivo a todas as pessoas. Falando de Moçambique que ainda está a experimentar esta prática de escolaridade, é possível notar nos mais velhos, que muitos deles não tiveram acesso à educação, uma bagagem cultural manifestada sob forma de contos orais.

Música como manifestação cultural

Ao nosso entrevistado, foi possível recolher algumas reflexões sobre o que podemos intitular subáreas da cultura.

Não poderei falar de todas as subáreas, porque algumas delas são por mim desconhecidas. Ora, gostaria de dizer, em primeiro lugar, que o entendimento que tenho da arte é o seguinte: o artista pelo sim ou pelo não acaba sendo o testemunho do seu tempo, então, de um modo geral, o que nós vamos observar nas manifestações artísticas há-de reflectir as tendências do tempo vivido pelos artistas. Mas também, porque a arte é dinâmica, a arte é, acima de tudo, um sistema; pois não se manifesta de forma isolada – está sempre em contacto com outras realizações artísticas por um lado, que já tiveram lugar no passado e, por outro, que o próprio artista poderá inclusivamente imaginar; é nesse sentido que falo de arte como um sistema.

De modo geral, a tendência artística vai juntar o presente, o passado e, em alguns casos, propõe aspectos do futuro, mas esses aspectos têm como base de realização a realidade vivida ou não, que serve de plataforma para as projecções artísticas.

Para as artes particulares como a música, não tenho competência para falar da música; mas, enfim, a minha inexperiência permite dizer o seguinte: não tenho acompanhado atentamente a dinâmica da música actual, porque estou preso, confesso, a um certo tempo em que se produziu música. Entretanto, por ser homem gregário, tenho ouvido algumas músicas actuais, o que é apaixonante porque carregam a força da juventude – isto é um tesouro, e garante a sobrevivência desta arte em particular.

E nem estou aflito com o facto de as músicas actuais serem produzidas, eminentemente, com programas informáticos. Aliás, as tecnologias estão para serem usadas.

Literatura moçambicana como ciência

Esta literatura tem vindo a ser objecto de estudo, por isso estamos aqui. A começar por aquilo que já foi produzido, nomeadamente toda uma preocupação em trazer retalhos sobre a história da literatura moçambicana. Digo retalhos porque ainda não há um estudo sistematizado da literatura moçambicana.

Temos sim trabalhos dispersos sobre literatura moçambicana, que são de valor inestimável, porque sem esses trabalhos nem teríamos essas iniciativas de introduzir cursos de literatura moçambicana. O que nos permite avançar para cursos de literatura moçambicana é, exactamente, a disponibilidade desse material produzido por pessoas que têm um compromisso quase cessardotal com a própria literatura.

Em fim, as pessoas que produzem estes materiais não têm um acompanhamento, tudo é feito por paixão. Importa referir que esta literatura, por ser nova, é alvo de estudo em Portugal, Itália, Brasil, Alemanha, etc; para se trazer às pessoas todas as informações inerentes a ela. A introdução do curso de literatura moçambicana também se inscreve neste projecto do seu estudo, porque, na verdade, é premente que ela seja estudada, pese embora a questão de tempo. Para tal, é preciso um distanciamento temporal, pois é difícil estudar algo que esteja a acontecer; mas, mesmo assim, está-se fazendo.

Então, o ensino da literatura é lacunoso? O que tem a dizer, por exemplo, sobre a periodização da literatura moçambicana?

Está a colocar-me uma questão pertinente. Bom, em relação a esse assunto, o que me parece que deve ser discutido é a essência da própria periodização. O que significa periodizar a actividade literária? Ora, faz-se a periodização literária por uma questão meramente pedagógica, porque, essencialmente, a literatura não se deixa delimitar em períodos. Primeiro, porque o próprio território da literatura não é facilmente delimitável – onde começa a literatura e onde termina é uma questão bastante complexa, porque a literatura é linguagem. Discutir as fronteiras da literatura é uma matéria que nos acaba obrigando discutir as fronteiras da linguagem, o que não é possível, dado que a linguagem começa e termina onde começa e termina o homem.

Segundo, mesmo com um território pseudodelimitado, as próprias obras (porque literatura não é só o conjunto de poemas, romances, contos, é também a própria reflexão sobre ela), teremos como exemplo João Dias, que escreveu ‘Godido e outros contos’. Nós podemos reconhecer à escrita de João Dias nas obras mais actuais.

Vamos dizer que essas obras pertencem à década cinquenta, em que se publicou ‘Godido e outros contos’? Ademais, podemos ter obras que nos remetem ao futuro como por exemplo ‘Poema do futuro cidadão’ de José Craveirinha, quando diz venho de uma nação que ainda não existe. Este poema parece-nos dizer algo absurdo. Ou o poema do mesmo autor ‘Siyavuma’, quando se refere a campeões olímpicas- que mais tarde Tivemos Lurdes Mutola, mas quando se escreveu este poema era muito antes de se pensar na existência de uma Lurdes.

Portanto, a literatura tem, sob ponto de vista ficcional, este valor de antecipação, de recuo, de resgate. Por isso estabelecer períodos é só uma questão para facilitar a aprendizagem.

 

Para concluir, é plausível falar de cultura moçambicana?   

O elemento cultura entronca com a identidade. Ora, mexer com a identidade é mexer com muitos aspectos, de um modo geral. De um modo particular, falar de identidade moçambicana estamos a falar de confluência de vários aspectos. Tenho receio em falar de identidade moçambicana nos termos como alguns falam da portuguesa. A identidade portuguesa caracterizou-se até aos últimos anos, porque também já não é, por uma homogeneidade. Como se sabe eles só tem uma língua que é o português, e no próprio território não tinham, até uma certa altura, esta convivência de pessoas idas de várias origens.

Agora, em Moçambique, é ao contrário. Moçambique é um país multicultural, atesta isso só o mosaico linguístico, a história do próprio país, a presença árabe, a presença portuguesa, que veio a trazer aqui misturas.

O que me permite dizer que, nós moçambicanos, somos um exemplo paradigmático da mestiçagem – nós somos mistos. Aliás, só o termo ‘Moçambique’ é um termo trazido de fora. Ademais, as próprias delimitações fronteiriças são trazidas num contexto histórico da colonização. O território, em si, é delimitado por interesses mais económicos, políticos do que culturais ou socias. Assim, a identidade moçambicana é realmente uma negociação, de tal maneira que a cultura, também, acaba se reflectindo a estas negociações que incluem convergências, divergências.

 

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