Preto & Branco

Sobre a União Africana e a Pandemia do COVID-19

A União Africana (UA), outrora Organização da Unidade Africana (OUA), fundada em 1969, jogou um papel determinante na luta pelas independências por via de iniciativas diplomáticas lideradas pelo seu Comité de Libertação e dos apoios multiformes prestados aos movimentos de libertação. Ao longo dos anos foi acompanhando os vários problemas e transformações ocorridas no continente, incluindo a emergência de regimes ditatoriais, golpes de estado, guerras civis, genocídios, democratização, ingerência externa e mudança de regimes [ex: Congo, Líbia e as chamadas Primaveras Árabes], emergência do fundamentalismo islâmico, calamidades naturais e humanas.

A resposta da OUA e depois UA a estas vicissitudes e transformações foi sempre problemática. A UA, no geral, limita-se apenas à declarações de condenação e nunca com acções robustas, e consequentes. Provavelmente tal facto se deve à ‘natureza’ da própria União: é composta por vários blocos regionais: Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), Comunidade de Desenvolvimento da África Ocidental (CEDEAO), Comunidade da África Oriental (CAE) e Comunidade dos Estados Sahel-saarianos (CEN). Estes blocos regionais têm características distintas sendo que a CEDEAO é mais robusta e interventiva e com grande influência a nível da Comissão da União Africana e da UA no geral. Talvez pela natureza da sua criação, a UA centra-se apenas em questões de ordem política tal como crises eleitorais, golpes de estado, etc. Não tem influência, pelo menos visível, em situações de calamidades naturais; não contribui com fundos para reconstrução pós-desastres, etc.

No actual contexto em que o mundo está a braços com uma emergência global causada pela pandemia do COVID-19, dadas as complexidades e fragilidades de vária ordem que caracterizam o continente, a UA não emitiu um único comunicado público em torno do assunto; não a anunciou qualquer medida preventiva mesmo ao nível da própria Comissão; não fez até ao momento qualquer declaração sobre medidas ou estratégias de apoio aos países com sistemas de saúde mais frágeis ou por vezes em total colapso; não se vê publicamente uma acção enérgica em busca de parcerias ou fundos através de instituições financeiras internacionais por forma a disponibilizar aos estados membros para fazer face a grave crise que se avizinha. Nas actuais circunstâncias, a UA mostra-se, de certa forma, impotente, inactiva, irrelevante e completamente à deriva para lidar com crises de saúde pública e outras calamidades. A UA não deve ser apenas uma entidade para emitir posicionamentos condenatórios relativos aos processos políticos dos estados membros. Uma organização que vive de contribuições dos estados membros mas sem impacto sobre os cidadãos desses mesmos estados não serve! A maior parte dos cidadãos dos estados africanos não conhece esta entidade supra-continental tão pouco a sua importância. Neste momento não passa de uma nulidade!

Autor: Inconformado (Pseudónimo)

Adicionar comentário

Leave a Reply