Preto & Branco

Sobre o Discurso de Combate à Corrupção

Por: Inconformado (Pseudónimo)

Desde o início do actual ciclo de governação, o combate à corrupção foi elencado como uma das principais bandeiras da acção governativa. A sociedade moçambicana vive o flagelo da corrupção há décadas e está enraizada em todas as esferas e estratos sociais desde a classe política, empresarial, o aparelho burocrático do estado até ao cidadão comum incluindo adolescentes e jovens que acham que a via rápida de fazer a vida e ter ‘um way”. A corrupção assumiu-se como um ‘modo de vida’: quem tem acesso aos recursos e ‘não se organiza’ [apropriar-se ilicitamente], é considerado(a) alguém ‘sem visão’ e a sociedade, no geral, penaliza, faz deboche de tais pessoas que pautam pela honestidade, integridade e lisura. A questão que se coloca é: como é que o reiterado discurso de combate à corrupção irá surtir efeito numa sociedade marcadamente corrupta? Como é que se pode inculcar uma nova mentalidade baseada em valores como trabalho árdua, integridade, honestidade e transparência? Longe de trazer respostas ou propostas para este problema crónico, importa referir que faltam-nos exemplos: os proponentes destas acções que não deve ser apenas persecutória mas também de mudança de mentalidade, deve ser liderada por gente que inspire esses valores. Infelizmente não é o caso. Quando os nossos líderes não se colocam acima de qualquer suspeição, quando há claras evidências de negociatas, nepotismo, clientelismo com graves consequências para o disfuncionalismo do estado, o cidadão comum é arrastado para a corrupção como estratégia de sobrevivência. Os mais penalizados são as mulheres e crianças, que historicamente por motivos sócio-culturais e estruturais são marginalizadas. Não basta mexer no quadro legal: a lei No. 6/2004 de 17 de Junho (lei de combate à corrupção) é boa, mas falta a sua aplicação efectiva…quem o fará se quem o devia fazer está com o ‘rabo preso’? Ser-se corrupto contrasta e antagoniza com valores nobres da nossa africanidade, a nossa filosofia ancestral de concepção da vida em sociedade – Ubuntu. Combate-se a corrupção nestas circunstâncias? Honestamente, não sei!

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