Preto & Branco

Os tentáculos dos terroristas de Cabo Delgado

Enquanto as autoridades moçambicanas não avançam dados sobre o eventual “cérebro” das operações terroristas e brutais em Cabo Delgado, o Conselho de Segurança (CS) das Nações Unidas, revela que o grupo operacional denomina-se Awsar Al Suuna [e não o propalado Al- -shabaab] e tem o seu comando na República Democrática do Congo, onde se encontra afiliado ao famigerado Islamic State Central Africa Province (ISCAP, sigla em inglês), que por sua vez tem ligações com membros do autoproclamado e extremista Estado Islâmico, baseado no Iraque e na Síria.

Na sua revelação, o CS, através do sector que lida com o terrorismo, explica ainda que o ISCAP movimenta mais de dois mil recrutas e terroristas estrangeiros, oriundos de Burundi, Chad, Eritreia, Kénia, Ruanda, Somália, Uganda, Tanzânia e Moçambique.

Nestas revelações do CS, concretamente do sector que trata de questões terroristas do Estado Islâmico, Al Qaeda e grupos ou indivíduos associados, através de uma nota informativa datada de 20 de Janeiro último mas divulgada recentemente, aponta-se que o ISCAP – que é um ramo da Madina Tawheed Wal Muwahedeen (MTM) – desde Julho último passou a identificar- se directamente com o Estado Islâmico, ostentando inclusive o seu “logo”. O que por outras palavras, estes pequenos grupos aparentemente de origem ou com operações locais vão se coligando com os movimentos terroristas mais globais, que são mais sofisticados e brutais nas suas actuações.

Aliás, o SCAP nas suas propagandas terroristas e expansionistas tem vindo a usar imagens de Moçambique, República Democrática do Congo e Somália, “uma indicação de acções coordenadas ou tentativa de unificar os três teatros”.

Com a identificação do comando dos insurrectos entrincheirados em Cabo Delgado, revelado por uma entidade credível como o Conselho de Segurança das Nações Unidas, composto pelas maiores potências mundiais, mostra-se mister uma resposta integrada, regional e quiçá internacional.

Semana passada, a organização internacional Human Rights Watch (HRW) defendeu que a Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC) deve agir para impedir novos ataques violentos em Moçambique, considerando que são uma ameaça a toda a região.

“A SADC não precisa apenas de estar preocupada, precisa de tomar passos imediatamente e apoiar as autoridades a conterem a situação”, refere o director para a Africa Austral desta organização, Dewa Mavhinga, citada pela televisão sul-africana SABC.

Contrabando no financiamento terrorista.

O CS, que é a maior entidade mundial em matéria de segurança internacional, refere que tem-se observado uma melhoria na qualidade e conteúdos dos materiais de propaganda dos insurgentes, o que pode ser indicativo de que os grupos estão recebendo mais financiamento e recursos, pelo que “as acções continuam a evoluir”, constacta este organismo das Nações Unidas.

Um artigo sobre a matéria publicado na edição de 8 de Fevereiro corrente, no site da DW Africa, as finanças do grupo terrorista que actua em Cabo Delgado, provém do contrabando, principalmente da madeira e rubis, recursos abundantes nesta província, além do potencial de gás que atrai todo mundo.

“Suas finanças são geradas pelo tráfico de madeira e rubis ilegais, outro recurso encontrado na província. Segundo uma estimativa, o grupo gera pelo menos 3 milhões de dólares, por ano, com o tráfico de madeira e 30 milhões de dólares com rubis, embora esses números provavelmente sejam exagerados”, reconhece-se.

No artigo em alusão, Cabo Delgado também se tornou um local de desembarque para remessas de heroína enviadas da região para a Europa e África do Sul, de acordo com a Iniciativa Global Contra o Crime Organizado Transnacional.

“É provável que o grupo também esteja envolvido no comércio ilícito de produtos de marfim e contrabando, o que envolveria interação com tanzanianos e outros cidadãos africanos, chineses e vietnamitas, com as receitas dessas actividades aumentando ainda mais as finanças do grupo militante”, considera- se.

Aponta-se ainda que, os fundos adicionais provavelmente provêm de simpatizantes, que doam via pagamentos electrónicos. “Os líderes do grupo usam o dinheiro para aumentar o recrutamento e cobrir as despesas de viagem de seus líderes espirituais, que viajam dentro da província e para Mocimboa da Praia e Tanzânia. Acredita- se que os líderes de Ansar al-Sunna mantenham laços religiosos, militares e comerciais com grupos fundamentalistas no Quênia, Somália, Tanzânia e na região africana dos Grandes Lagos. Os jovens radicalizados no país supostamente vendem suas propriedades para financiar viagens à Somália para treinar e fazer jihad, embora de acordo com as notícias, o treinamento militante do grupo tenha sido facilitado por membros que foram forçados a sair da polícia”, aventa-se.

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